Como Podemos Contribuir para o Bem-estar do Cavalo Atleta?

Empresa

Vetnil

Data de Publicação

01/11/2018

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O confinamento, viagens e a alta exigência nas competições frequentemente elevam o estresse dos animais atletas, que podem apresentar irritabilidade, ansiedade, nervosismo, comportamentos agressivos e ou estereotipados.

Tais comportamentos podem prejudicar o bem-estar e saúde do cavalo e consequentemente o seu desempenho durante as competições.

O meio equestre como um todo vem apresentando uma tendência a maior conscientização quanto ao bem-estar dos cavalos fora e dentro das provas. No meio científico também tem ocorrido evolução.

Cada vez mais estudos são publicados avaliando o bem-estar dos animais durante as provas e como isso impacta o seu desempenho.

No Brasil, diversas associações como por exemplo, a ABQM, ABCCC e a ABCCMM, vem instituindo regras cada vez mais rigorosas para garantir a saúde de todos os animais atletas.

De qualquer forma, não é apenas durante as provas que devemos nos atentar aos cuidados relacionados ao bem-estar e algumas medidas podem ser sugeridas para auxiliar este processo:

Manter a saúde do animal atleta é obviamente fundamental. Por isso, é importante que o veterinário responsável pelo animal realize exames periódicos afim de descartar alterações que muitas vezes se iniciam silenciosas como gastrite, irritações de pele, problemas de dentição, orelha, coluna ou claudicações brandas não notadas pelo competidor ou proprietário.

Tais afecções podem favorecer a ocorrência de alterações comportamentais, pois muitas vezes podem representar uma tentativa do animal se proteger do incômodo que sente. Podemos exemplificar uma situação comum em que o proprietário percebe uma relutância sem nenhuma causa aparente no momento de ajustar a sela, porém quando feito um exame um pouco minucioso pode-se diagnosticar uma lombalgia primária ou decorrente de alterações do aparelho locomotor.

Apesar da relação homem-cavalo ter evoluído imensamente nas últimas décadas, ainda há grande dificuldade de comunicação entre as espécies, porém institutos de pesquisas nacionais e internacionais vem se aprofundando no assunto, e como resultado disso hoje sabe-se que os equinos são capazes de chamar a atenção de humanos para que lhe seja fornecido um balde com ração, por exemplo.

Outras pesquisas mostram que os equinos apresentam mais expressões faciais até mesmo do que chimpanzés, sendo esta então uma das chaves para nossa comunicação. Apesar de tradicionalmente as pessoas do meio do cavalo serem capazes de dizer que o cavalo está nervoso, com dor ou com medo, hoje existem escalas para uma avaliação mais objetiva deste aspecto, que até então tinha uma relevância mais de vivência.

Em relação ao meio ambiente onde o animal fica, também é importante identificar se existe algum ponto de melhoria de estrutura das instalações ou manejo. Alterações simples como, por exemplo, possibilitar que o animal tenha contato visual com outros animais pode melhorar seu bemestar, uma vez que estudos mostram que o contato visual dentro do estábulo está associado a uma ocorrência menor de comportamentos anormais, como por exemplo aerofagia, andar em círculos e até mesmo alteração da ingestão de alimento.

Sabe-se que, exercícios regulares, como trote leve na guia, podem auxiliar a minimizar o excesso de energia e ansiedade do cavalo, até mesmo antes do treino planejado. A regularidade dos exercícios é fundamental para que o equino tenha uma rotina estabelecida, o que reduz a ansiedade. Os cavalos considerados enérgicos podem apresentar este comportamento tanto pelo excesso de densidade energética que recebe na ração, quanto por níveis elevados de estresse.

A associação de reforços positivos ao comportamento desejado, principalmente em momentos que são mais estressantes e desafiadores para o animal, é capaz de propiciar uma maior colaboração nas próximas situações às quais o cavalo for exposto.

Um exemplo desta situação onde os cavalos costumam sentir-se desconfortáveis, é o embarque e permanência dentro dos veículos de transporte. Outra conduta que é capaz de aumentar a tranquilidade dos equinos em momentos desconfortáveis, é a companhia e proximidade de um animal “amadrinhado”.

Essa relação de confiança entre os equinos é tão intensa que até mesmo em procedimentos levemente dolorosos ela é capaz de manter a frequência cardíaca do cavalo mais estabilizada, com baixas alterações.

No momento da alimentação, o fornecimento de volumoso em duas ou mais redes de feno, com orifícios menores pode auxiliar a reduzir o estresse, pois o animal passa mais tempo se alimentando, mimetizando o seu comportamento natural.

Do mesmo modo, aumentar a variedade e a quantidade de forragem fornecida também é indicado. Em animais com excesso de energia, pode ser interessante reduzir um pouco a quantidade de alimento concentrado, aumentar a oferta de volumoso e instituir um protocolo de suplementação a fim de suprir a demanda de aminoácidos, vitaminas e minerais do animal.

Associado a essas recomendações, pode ser feito o uso de suplementos já existentes no mercado, que são voltados especificamente para a melhoria do bem-estar, comportamento e funcionamento do cérebro como um todo. Alguns elementos são mais indicados, como o Triptofano, que é um aminoácido percursor da serotonina (neurotransmissor responsável pela “sensação de bem-estar”).

Já foi relatada importante correlação com redução de agressividade, medo ou estresse em equinos e outras espécies suplementados com o triptofano. Outro elemento interessante de ser suplementado é o Magnésio, um micro-mineral envolvido profundamente na regulação do funcionamento do sistema nervoso central, interferindo na atividade do eixo hipotálamo-pituitária-adrenocortical e na liberação de neurotransmissores.

Sabe-se que a deficiência de magnésio em humanos e animais pode levar a sinais de depressão e ansiedade, demonstrando assim também a necessidade de garantirmos o aporte nutricional deste elemento para a saúde mental do cavalo atleta.

Os ácidos graxos poli-insaturados ômega 3 e 6 são essenciais na construção, manutenção e funcionamento cerebral, além de terem uma ação protetora contra o excesso de cortisol e corticosteroides, ajudando assim a reduzir o estresse e diminuindo níveis de agressividade.

Já foi relatado que deficiência de ômega 3 e 6 leva a mudanças psicoquímicas que causam distúrbios fisiológicos e bioquímicos, resultando em problemas neurosensoriais, comportamentais e cognitivos, como déficit de aprendizagem e memória, déficit de atenção e hiperatividade.

Semelhante aos ômegas, é relatado que a Tiamina, conhecida como Vitamina B1, tem ação antioxidante no cérebro e participa na construção do mesmo através da produção da bainha de mielina, desta forma favorecendo a condução dos impulsos nervosos e propiciando um raciocínio mais rápido.

“Um animal que trabalha em sua plenitude mental e física, com baixos níveis de estresse e ansiedade é capaz de aprender melhor o que lhe é ensinado durante os treinos, e colocar em prática, minimizando distrações durante a prova”.

Associando mudanças na dieta, exercício e ambiente, podemos melhorar o bem-estar dos cavalos e com isso o seu desempenho. Um animal que trabalha em sua plenitude mental e física, com baixos níveis de estresse e ansiedade é capaz de aprender melhor o que lhe é ensinado durante os treinos, e colocar em prática, minimizando distrações durante a prova.

MV. Caio Nunes de Barros

Formado pela FMVZ - UNESP - Botucatu, Mestrando em Biotecnologia Animal, Residência em Cirurgia de Grandes Animais FMVZ - UNESP - Botucatu, Analista de Desenvolvimento de Novos Produtos Equinos na Vetnil