Doenças de notificação veterinárias. Você faz sua parte?

A prevenção de zoonoses, notificação de doenças e o esclarecimento ao proprietário (e eventualmente à sociedade) figuram no Código de Ética do Médico Veterinário (Resolução CFMV nº 722 de 16 de agosto de 2002), tanto no juramento quanto nos deveres e na responsabilidade profissional, porém nem todos realmente conhecem as listas de doenças de notificação compulsória que vigoram no Brasil ou a quem notificar em casos de suspeita e/ou confirmação.

Médicos veterinários, assim como quaisquer outros profissionais da área de saúde, enfrentam todos os dias situações desafiantes, tanto em relação às condutas clínico-cirúrgicas quanto ao trato com o humano por trás – ou ao lado – do paciente. Um dos desafios que tenho visto é o conhecimento em sobre as doenças de notificação compulsória (ou obrigatória), que vou abreviar como DNC. Muitos dos médicos veterinários com quem converso não sabem que existem DNC ou não sabem a quem recorrer ou a quem notificar, por isso resolvi trazer este assunto.

As listas de DNC em vigência no Brasil são vinculadas principalmente a dois Ministérios: Ministério da Saúde (MS) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). A Portaria nº 1.271 do MS traz as listas de doenças, agravos e eventos em saúde pública de notificação compulsória em todo o território nacional. Pelo menos 50% das enfermidades são zoonoses e/ou doenças transmitidas por artrópodes, entre elas raiva, doença de Chagas, Febre Amarela, acidentes por animais peçonhentos, leishmanioses, febre maculosa e hantavirose. A inclusão de doenças nestas listas geralmente é acordada entre os países membros da Organização Mundial da Saúde e cada país deve elaborar suas listas e preparar os sistemas de saúde e de vigilância para a atenção à saúde e notificação de casos, baseado no Regulamento Sanitário Internacional (RSI). Na ocorrência de DNC (suspeita e/ou confirmação) envolvendo zoonoses e/ou pequenos animais, o veterinário deve notificar a Secretaria de Saúde municipal através de algum dos seguintes órgãos: Vigilância Epidemiológica, Vigilância Sanitária, Vigilância Ambiental, Centro de Controle de Zoonoses (CCZ – onde existir), Centro Integrado de Vigilância Toxicológica (CIVITOX – onde existir).

As listas vinculadas à saúde animal são então elaboradas pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) e cabe aos países-membro elaborarem seus respectivos programas de controle, prevenção e erradicação de enfermidades, sobretudo para animais de produção. No Brasil, o MAPA disponibilizou desde 2013 o Manual do Sistema Nacional de Informação Zoossanitária (SIZ), que traz no Anexo I a lista de doenças de notificação obrigatória ao Serviço Veterinário Oficial: enfermidades exóticas ou erradicadas (p.ex. Triquinelose e Peste Suína Africana), doenças de notificação imediata (suspeitas – p.ex. Raiva e Mormo; ou confirmadas – p. ex. Febre Q e brucelose) e doenças de notificação mensal (p. ex. leishmaniose, leptospirose e toxoplasmose).

Como se vê, para os animais de produção geralmente são DNC as enfermidades que fazem parte dos programas nacionais do MAPA, como a Anemia Infecciosa Equina (equinos), Febre Aftosa (bovinos), Peste Suína Clássica (suínos) e Influenza Aviária (aves), ou os respectivos equivalentes estaduais, já que cada estado brasileiro pode normatizar os programas de controle de enfermidades e ter suas listas de doenças de notificação. Na ocorrência (suspeita e/ou confirmação) de DNC envolvendo animais de produção, o médico veterinário deve notificar o Serviço Veterinário Oficial (Defesa Sanitária Animal) do estado onde reside (Secretaria de Agricultura ou equivalente estadual) e/ou a Superintendência do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do estado.

Tanto para animais de produção quanto para animais de companhia existem diversas DNC. Para o mundo pet, boa parte das DNC são também zoonoses, aumentando a responsabilidade do veterinário que atende estes casos: além de prestar o serviço ao paciente, cabe também trabalhar a educação em saúde. O médico veterinário deve instruir o proprietário e possíveis contactantes sobre medidas de prevenção e controle para animais e pessoas, além de indicar imediatamente que busque tratamento médico em unidades de saúde.

O que ganhamos com a notificação?

A verdade é que não sabemos a real magnitude das doenças no Brasil, tanto humanas como animais (com raras exceções, como dengue!). Um grande problema que enfrentamos em saúde é a “teoria do iceberg”, ou seja, só enxergamos a “ponta”, os doentes, e permanecem “submersos ou invisíveis” os subnotificados, como assintomáticos ou os que não buscam o serviço de saúde. Boa parte da informação em saúde como prevalência, incidência, distribuição ou ocorrência de casos graves é oriunda de pesquisas realizadas por Universidades ou Fundações de Pesquisa e são poucos os municípios ou estados que elaboram boletins epidemiológicos com informações variadas, confiáveis e que possam embasar o planejamento em saúde, portanto temos pouco acesso às informações oficiais.

Seja em relação à polêmica leishmaniose visceral ou à frequente raiva dos herbívoros, seria perfeito se a informação estivesse disponível para que nós pudéssemos nos preparar melhor para atender a comunidade. Acredito que, a partir do momento que começarmos a notificar, poderemos cobrar do “Sistema” o restante da cadeia da informação epidemiológica: compilação de dados, disponibilização da informação e propostas de prevenção e controle, integrando poder público e iniciativa privada. Com a notificação, mesmo das doenças que não figuram das listas imediatas, podemos melhorar nossa percepção frente aos problemas de saúde e propor medidas de controle e prevenção mais precisas e realmente direcionadas aos problemas. Por mais que trabalhemos com métodos de modelagem em epidemiologia, não há nada melhor que a vigilância (incluindo a notificação por parte dos veterinários) para que se possam elaborar medidas eficientes, aplicadas às diferentes realidades epidemiológicas do Brasil.

Para ter acesso aos documentos oficiais sobre Doenças de Notificação Compulsória, entre outros documentos veterinários importantes como modelos de atestados e termos, acesse aqui.

Referências

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Manual do Sistema Nacional de Informação Zoossanitária – SIZ / Ministério da Agricultura. – Brasília: MAPA/ACS, 2013. 40p.

BRASIL. Ministério da Saúde. PORTARIA Nº 1.271, DE 6 DE JUNHO DE 2014. Define a Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços de saúde públicos e privados em todo o território nacional, nos termos do anexo, e dá outras providências. DOU p.67-69, seção 1, 09/06/2014.

Organização Mundial de Saúde. Regulamento Sanitário Internacional – RSI, 2005. Trad.: Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 2009. 79p.

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Juliana Arena Galhardo CRMV4626-MS é professora de zoonoses e saúde pública na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Desde 2011 coordena o Projeto de Extensão Universitária ‘LeishNão: para prevenção e controle da leishmaniose visceral’ que atua em instituições de ensino públicas e privadas levando atividades paradidáticas sobre educação em saúde em leishmaniose e posse responsável. Conheça o projeto (leishnao.blogspot.com) e compartilhe a educação em saúde (facebook.com/leishnao)

A M.V. Patrícia se expressou muito bem na nossa pergunta e faturou os 3 ingressos: ‘O que deve ser feito para elevarmos o respeito pela medicina veterinária no Brasil?’

A M.V. Patricia Canossa Gagliardi, CRMV-SP 32857, é a grande vencedora do nosso Concurso Cultural que buscou a melhor resposta para a pergunta: ‘O que deve ser feito para elevarmos o respeito pela medicina veterinária no Brasil?’

A vencedora ganhou 3 ingressos para o MedVep 2015 em Curitiba! Mais informações sobre o evento aqui: www.medvep2015.com.br.

Muito obrigado e parabéns aos mais de 900 participantes. Em breve realizaremos novos concursos.

Segue a resposta da M.V. Patricia Canossa Gagliardi:

Vencedora - Foto

Três passos devem ser efetuados para a conquista de tal fato:
1- Educação em relação à postura profissional, desde a graduação, para que os profissionais se formem com a consciência da auto valorização em relação ao trabalho e, como consequência, a valorização generalizada da profissão em termos de valores e serviços.
2- A política de união entre os profissionais, visando extinguir a atual desorganização e desunião da classe.
3- O engajamento de profissionais em ramos políticos com projetos em prol da classe, desde o engajamento nos órgãos regionais de classe para a renovação das atuais gestões e consequente melhora em sua atividade junto aos profissionais, como também o engajamento em políticas nacionais, como ocorrem em muitas outras classes de profissão, que através dessa ferramenta, conseguem grandes conquistas em defesa da classe profissional.
Obrigado.

Os desafios do intensivismo na Medicina Veterinária

Nos últimos anos, sucessivos avanços da Medicina Veterinária têm resultado em evidente ganho de qualidade nos cuidados dispensados aos animais de companhia, que hoje são, sem dúvida, membros de muitas famílias brasileiras.

Claro que os avanços decorrem, em parte, de inovações tecnológicas. Mas não é só isso. Há evidente aprimoramento técnico dos profissionais do setor, que buscam, de forma cada vez mais precoce, escolher uma área de atuação e a ele se dedicar. É nesse contexto que surge, de forma bastante clara, um interesse crescente pela medicina intensiva desde a graduação.

Há alguns anos, as internações eram dominadas por anestesistas e por alguns clínicos dispostos a mergulhar na hemodinâmica dos pacientes críticos. Nem se falava em UTI veterinária. Hoje, o cenário é outro. Há serviços especializados em atendimento intensivo, com equipes cada vez mais multidisciplinares, que congregam cardiologistas, nefrologistas, cirurgiões, dermatologistas, entre outras.

Quem não se lembra quando o médico veterinário Rodrigo Rabelo começou a falar de lactato como marcador para prognóstico? Poucos sabiam do que se tratava. Hoje, o lactato está estabelecido na nossa rotina.

Pessoalmente, tive o privilégio de integrar a Equipe da Vet Intezivet, que pertence a dois dos melhores intensivistas que conheço, os médicos veterinários Alessandro Carvalho de Martins e André Chen Shih. E foi com eles que entendi que para um paciente crítico, cada hora vale OURO.

Trabalhar em UTI é lutar contra o tempo. Assim que o paciente crítico é admitido no serviço é preciso definir metas e planejar o caminho para alcançá-las. É muito diferente do atendimento clínico ambulatorial e exige do profissional ainda mais sensibilidade e experiência, pois mecanismos compensatórios podem fazer com que o paciente tenha uma condição aparente que não condiz com sua saúde real.

Existem UTIs veterinárias que se assemelham, em estrutura e capacidade técnica, ao que é oferecido pelos grandes hospitais de referência da medicina humana. São unidades que trabalham com a Medicina baseada em Evidências, métodos diagnósticos e terapêuticos sofisticados, intervenções precoces capazes de salvar vidas.

Lembro de um plantão em que estávamos aguardando o técnico que configuraria o software do novo aparelho de ventilação mecânica. Quando o rapaz chegou, olhou em volta e perguntou se aquela estrutura era para animais. Diante de nossa confirmação, ele se mostrou surpreso, afirmando que fazia a manutenção do mesmo aparelho no Albert Einstein e no Sírio Libanês e que “muita gente morre porque os hospitais não têm essa estrutura”. De fato, infelizmente a tecnologia não está ao alcance de todos, nem em medicina humana nem em medicina veterinária. E esse é um desafio diário.

Recursos tecnológicos e humanos requerem investimento, o que eleva o valor cobrado pelos serviços. Mas não é fácil convencer os proprietários a arcar com o custo de manter os pacientes internados pelo tempo necessário para sua recuperação. Alguns não querem pagar. Outros não têm os recursos e, apesar de terem buscado um serviço de ponta, já chegam listando suas restrições e não autorizam a realização dos exames necessários ao bom diagnóstico.

Além do custo financeiro, esses proprietários terão de enfrentar o custo emocional da internação de seus companheiros (para muitos, de seus filhos). E os veterinários terão de lidar com isso, administrando crises, rompantes de choro, confidências. “Doutor, salve-o”, é um pedido comum. Diante da enorme responsabilidade de lidar com tanta esperança e, o bom intensivista não é apenas aquele que tem sólidos conhecimento técnicos, mas também o que tem uma boa dose de inteligência emocional.

Portanto, calma e agilidade são características que devem andar juntas. É preciso correr contra o tempo, mas sem ignorar a demanda do proprietário por um minuto a mais de atenção. Essa postura requer treinamento, liderança, equipes organizadas, protocolos claros. Caso contrário, o resultado será o indesejado incremento da mortalidade em nosso serviço.

Sobre a autora:

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Valéria Silva Ferro CRMV- SP 18621

Formada em 2005 pelo Centro Universitário Monte Serrat. Pós Graduação Lato Sensu em Doenças Infecciosas dos animais domésticos pela Unesp/Botucatu, em 2007; Pós Graduação Lato Sensu em Cirugia de Tecidos Moles, em 2007 e Pós Graduação em UTI pela Anclivepa/SP, em 2015.

Atualmente, Intensivista do Hospital Veterinário Dr. Hato, Unidade São Bernado do Campo. Anterioremente atuou como intensivista na Vet Intenziv (Ufape) na UTI do Pet Care; foi Coordenadora da Internação do Hospital Público Unidade Tatuapé e Zona Norte e intensivista nos Hospitais Veterinário Santa Inês e Vet Quality.

Vet Smart vai premiar um veterinário com 3 ingressos para o Congresso MedVep 2015 em Curitiba!

ATUALIZADO – NO DIA 23.06.2015 REVELAREMOS O VENCEDOR. AGUARDEM!

MAIS DE 1.000 VETERINÁRIOS ESTÃO PARTICIPANDO! É só até 19.6.2015!  Dê sua opinião sobre a situação da veterinária em nosso país.  A melhor resposta ganha 3 ingressos para o Congresso MedVep.

Para participar e concorrer aos 3 ingressos acesse aqui.

O Vet Smart em parceria com o MedVep selecionará um veterinário para ganhar 3 ingressos para o Congresso Medvep de Especialidades Veterinárias 2015, um dos maiores eventos de medicina veterinária do país que ocorre em Julho em Curitiba.

Participe e responda a pergunta a: O que deve ser feito para elevarmos o respeito pela medicina veterinária no Brasil?*

Acesse o regulamento completo aqui.
Sobre o MedVep

Em 2011, aconteceu o primeiro Congresso Medvep de Especialidades Veterinárias, na Cidade de Curitiba. Na época um evento contestado, mas que já em sua primeira edição surpreendeu de forma positiva, superando a expectativa inicial de 1.200 participantes, aliás superando em muito, pois foram mais de 3.300 inscritos. Na ocasião a adesão de empresas ainda foi bastante tímida, com cerca de 30 expositores.

Já em sua Segunda edição no ano de 2013 o Congresso Medvep de Especialidades viria a se tornar o maior encontro nacional da classe, com mais de 5.800 Congressistas, mais visitantes e expositores, que fizeram que o número de participantes ultrapassasse a casa dos 7.000. O aumento de empresas participantes também teve um crescimento espantoso, fomos das 30 empresas do primeiro evento para mais de 130 em sua segunda edição, tornando a feira do Congresso Medvep de Especialidades na segunda maior feira do setor no Brasil.

Em 2015 o evento retorna a suas origens, voltando a acontecer em Curitiba, com grandes expectativas, mesmo antes do lançamento oficial de sua comercialização, já são mais de 1.000 inscritos e mais de 70% da feira comercializada. O que nos dá a certeza que mais uma vez teremos recordes batidos e mais um grande evento.

Para obter mais informações sobre o evento acesse diretamente o site.

Vacina: Prevenção ou Superdosagem?

Quando chega um novo paciente peludo na clínica, o médico veterinário faz a anamnese, examina e verifica as vacinas. Se o animal não tiver recebido todas as vacinas necessárias, o veterinário vai recomendar que sejam feitas, para segurança do próprio animal, certo? Qualquer aluno de 2º ano de medicina veterinária, que tenha feito imuno, sabe que a vacinação ainda é uma das melhores formas de prevenção de muitas doenças.

O que muitos estudantes e médicos veterinários formados não sabem é que há uma linha de profissionais que acredita que o excesso de vacinação é prejudicial (vide o sarcoma vacinal em felinos ou o aumento do caso de alergias). O protocolo individualizado não é uma novidade. Há cinco anos que alguns professores já falam sobre essa tendência mundial.

Enquanto estudantes, muitos se perguntam sobre o motivo de estudar imunologia. Muitas vezes é uma matéria ministrada juntamente com microbiologia e só faz o aluno perder noites em claro, para entender a diferença e funções dos linfócitos e monócitos. Todo esse esforço é desnecessário, quando a empresa de vacina já vende seu produto com o protocolo que deve ser usado. E o que fazer com todas aquelas noites em claro, jogar no lixo?

Quem deve decidir qual o protocolo deve ser usado é o próprio veterinário. As empresas de vacina fornecem os produtos que o profissional escolherá, de acordo com as necessidades de cada paciente. Exatamente pensando nisso, que a Zoetis continua produzindo a V10 e a V8. “Se o cão não tem contato com ratos ou ambientes que possam ter roedores, não há necessidade de vaciná-lo com a V10; a V8 já basta para as necessidades básicas. O mesmo vale para quíntupla, quádrupla e tríplice felina” comenta Tiago Papa, diretor da linha de animais de companhia da Zoetis. Outras empresas também apostam no protocolo diferenciado. “O programa Nobivac Sob Medida é feito para o médico veterinário decidir quais as vacinas e em que situações elas devem ser usadas”, afirma Andrei Nascimento, médico veterinário, Gerente Técnico da Linha de Animais da MSD Saúde Animal. “Para 2016, lançaremos outras vacinas, com menos sorovários, para que o veterinário possa escolher qual deve ministrar e em qual periodicidade”, complementa. A Merial não se manifestou até o fechamento dessa matéria.

De acordo com o médico veterinário Cérar Augusto Dinola Pereira, professor titular em imunologia e bem estar da Anhembi-Morumbi e Unisa, o protocolo individualizado é uma tendência mundial. “Eu não posso dar as mesmas vacinas, com a mesma periodicidade, para um gato de apartamento e um errante. Eles têm necessidades distintas e estão expostos a agentes diferentes” alerta Dr. César. “O médico veterinário deve ser capaz de decidir qual é o melhor protocolo a ser usado e se deve ou não aplicar a vacina naquele momento” complementa a médica veterinária Andrea Favero professora de imunologia e microbiologia da Universidade Anhembi-Morumbi.

Há estudos que mostram que algumas vacinas tem duração maior a um ano. “É obrigatório, por lei, vacinar anualmente cães e gatos contra raiva” lembra Renato Papa. “Apenas 17% da população brasileira de cães e gatos é vacinada. Enquanto houver animais morrendo por parvovirose e cinomose, devemos vacinar”, completa.

Faltam dados

O maior inimigo do médico veterinário é a falta de informação e dados. Como não há um levantamento exato de quantos casos de cada doença ocorrem nas diversas regiões do país, fica ainda mais difícil pensar em um plano de prevenção. O ideal seria que tivesse um banco de dados, para que os veterinários reportassem os casos de leptospirose, cinomose, parvovirose, entre outras doenças. “Essa deve ser uma iniciativa conjunta, entre profissionais, conselho, governo, universidades e as empresas de vacina” sugere Dr. César.

A maioria dos dados existentes vem das universidades e trabalhos científicos. Só com a união e um plano global poderá haver diminuição dos casos de óbito por doenças, que poderiam ser combatidas com vacinas.

E agora, como proceder?

Todos os citados concordam sobre a primovacinação: a primeira dose deve ser ministrada por volta da 6ª semana de vida do animal. “Fazer a primeira dose antes desse período, pode inviabilizar a total efetividade da vacina. Os anticorpos recebidos pela mãe, através do colostro, estarão ativos e poderão combater os princípios da vacina” lembra Dra. Andrea. A segunda dose deve ser feita 30 dias após a primeira. A terceira, a quarta dose e a dose anual são questionadas por alguns profissionais. Há uma linha que defende a verificação dos anticorpos por meio da sorologia. “Não há necessidade de aplicar mais vacinas se já houve resposta positiva e o número total de anticorpos, para uma determinada doença, já estiver suficiente” recomenda Dra. Andrea.

Já tem algumas empresas que vendem o kit com testes. O grande problema é que muitas vezes o veterinário abre o kit de 8 ou 15 testes para usar 4 ou 5. Por isso, o valor para o proprietário fica mais caro. Porém, se o médico veterinário explicar ao proprietário a importância de fazer a sorologia e mais testes forem feitos, o valor reduz. Incentivar esse novo protocolo é mais do que necessário. A MSD já ofereceu duas palestras com renomados pesquisadores internacionais que defendem a necessidade do protocolo individualizado. Se você quiser entender melhor sobre esse novo protocolo, pergunte ao representante da marca.

Socialização X vacinação

Um grande contraponto ao calendário de vacinação é a socialização de cães e gatos. Naquele momento crucial, que eles precisam ser apresentados a outros animais e situações, entre 2 e 5 meses, são proibidos de ir à rua, devido à imunização.

Para resolver esse dilema, e não colocar em risco a saúde do animal, foram criadas as aulas para filhotes. Em ambientes seguros e esterilizados, os filhotes podem socializar e aprender. Obviamente que todos passam por uma cautelosa seleção. Não é qualquer animal que está aprovado para participar das aulas. Assim, clínicos e comportamentalistas ficam tranquilos para poder melhor estimular cada fase dos animais, sem receios.

Por que muitos veterinários continuam utilizando o mesmo protocolo há 20 anos?

Quando questionados, todos os profissionais foram unânimes em dizer: falta de atualização! Muitas vezes, o médico veterinário aprende a vacinar, no estágio. Quem ensina é o veterinário mais velho, que aprendeu quando fez estágio, com outro veterinário mais velho. Ao não se atualizar sobre as pesquisas na área, padrões vão se repetindo, por ser “mais fácil”.

Pensar no bem estar do animal é fundamental. Apensar de essa ser uma área nova, que muitas faculdades não abordam, não podemos esquecer da importância em levar em consideração. Para que dar tantas vacinas, causando dor, estresse, febre e até efeitos mais severos, como o sarcoma vacinal em felinos? Fidelizar o cliente é extremamente importante, principalmente se for feito através da confiança.

A consulta anual continua sendo necessária. Será feita a sorologia e nova anamnese para observar se o animal teve mudanças em seus hábitos. Com esses dados em mãos será feita, ou não, a vacinação. O importante, que traz a confiança, é explicar para o proprietário o porquê e a importância de cada procedimento. O objetivo é mostrar para o proprietário, que o médico veterinário também está preocupado com o “filhinho peludo”. O estudo não termina ao final da faculdade ou especialização! “A nossa missão com o lançamento do Programa Nobivac Sob Medida e da vacina Nobivac DHPPi +L é promover a educação continuada do médico veterinário brasileiro e colocá-lo em sintonia com os avanços da medicina veterinária, para que ele possa oferecer o melhor para os seus clientes” ressalta Andrei Nascimento.

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Luiza Cervenka de Assis

Bióloga, com mestrado em psicobiologia (comportamento animal) e pós-graduação em jornalismo. Porém, sua paixão por animais vem desde sua infância. Há 5 anos trabalha como terapeuta de animais na sua empresa Bichoterapeuta. Já teve como pacientes golfinhos, tartarugas marinhas, cães, gatos e até galinhas. Assina o Blog Comportamento Animal do Estadão.

www.bichoterapeuta.com.br

luiza@bichoterapeuta.com.br

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/comportamento-animal/

Veterinário, um dia você ainda dará parecer científico frente a um júri.

M.V. e fundador da Associação Brasileira de Medicina Veterinária Legal (ABMVL) explica como veterinária e justiça estão cada vez mais ligadas. Um dia você ainda dará parecer científico frente a um júri.

Medicina veterinária e justiça caminhando lado a lado. Código de Processo Civil, Perícia veterinária, honorários periciais, petições, laudo pericial. Você sabia que o médico veterinário pode atuar como perito da justiça quando para tal for solicitado?

Processos contra médicos veterinários têm ocorrido com uma certa frequência e por isso é fundamental estarmos preparados para enfrentarmos não só a justiça como autores e/ou réus num processo judicial, mas principalmente como perito cível, já que para exercer esta atividade não é necessário concurso nem mesmo curso específico, mas sim ser de confiança de um juiz.

Pois bem, e se um dia, você médico veterinário for nomeado perito, assistente técnico e tiver que prestar informações técnicas perante um juiz, saberá agir como um profissional da área de saúde a serviço da justiça?

Vem aí o primeiro livro de perícia cível voltado somente para médicos veterinários

No próximo dia 27 de maio será lançado no Rio de Janeiro, o primeiro livro de perícia cível voltado somente para médicos veterinários (veja informações sobre o evento: http://tinyurl.com/lelnxn8).

O autor da obra é o Dr. Clifton Davis da Cruz Conceição, médico veterinário carioca, CRMV-RJ 6011 atuante na esfera das perícias judiciais em medicina veterinária desde 2002, e com larga experiência no ramo.

O colega ensina neste livro, com um linguajar ao mesmo tempo técnico, mas também nem tanto rebuscado, o que o médico veterinário (evidentemente não acostumado com a área de Direito), deve saber para atuar como perito em causas cíveis, ações indenizatórias que envolvem animais de todos os portes.

A ideia do profissional não é só auxiliar a capacitação dos médicos veterinários que porventura sejam intimados, indicados ou nomeados peritos de um juízo, mas sim difundir esta que é uma área privativa do médico veterinário, amparada pela Lei 5.517/1968.

A primeira edição do livro sai pela editora L.F. Livros de Veterinária e tem como temas abordados:
⇒ MEDICINA VETERINÁRIA LEGAL;
⇒ DINÂMICA DA PERÍCIA;
⇒ COMO ELABORAR UM LAUDO PERICIAL;
⇒ PETIÇÕES;
⇒ DOCUMENTOS DE INTERESSE PERICIAL (IMPORTANTES ANEXOS DE UM LAUDO MÉDICO VETERINÁRIO);
⇒ LEGISLAÇÃO.

Clifton Davis da Cruz Conceição, médico veterinário carioca, CRMV-RJ 6011 atuante na esfera das perícias judiciais em medicina veterinária desde 2002, e com larga experiência no ramo (https://www.facebook.com/periciasmedicasveterinarias).

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Conheça a Fadiga por Compaixão e Burnout em Medicina Veterinária. Saiba como evitá-los.

Recente pesquisa realizada no Reino Unido mostrou que a taxa de suicídio entre Médicos Veterinários é quatro vezes superior que no restante da população e duas vezes superior que entre outros profissionais de saúde. No Brasil muitos profissionais desistem da carreira, assolados por dúvidas, inseguranças, frustração e decepção.

Mas o que é tão específico na profissão do Médico Veterinário? Bem, lidamos com a morte cinco vezes mais que outros profissionais de saúde; independentemente de nossa especialidade provavelmente acompanharemos a morte de todos os nossos pacientes. Entretanto há muitos outros fatores; a falta de reconhecimento profissional, baixa remuneração, falta de espaço pessoal e o convívio com animais (e seus tutores) em sofrimento se somam podendo levar ao desenvolvimento da Síndrome da Fadiga por Compaixão e ao Burnout.

Neste artigo pretendo explorar as razões emocionais que muitas vezes levam à frustração profissional entre MVs, notadamente a Fadiga por Compaixão e o Burnout, como também como identificá-las e o que podemos fazer a respeito.
Fadiga por Compaixão x Burnout

O termo Fadiga por Compaixão ainda é pouco conhecido no Brasil e geralmente é confundido com o termo mais abrangente e popular Burnout. Afinal o que são e quais as diferenças?

O Burnout é resultante da insatisfação geral e crônica com o ambiente de trabalho. O termo foi criado no início dos anos 90 na tentativa de entender o adoecimento emocional e psicossomático entre enfermeiros, entretanto rapidamente foi estendido a outros profissionais, sem explicar o adoecimento específico dos profissionais de sáude.

Foi criado, então, o conceito de Fadiga por Compaixão, que abarca várias características do Burnout, mas também outras especificamente relacionadas ao trabalho de profissionais de saúde. Ou seja, enquanto o Burnout trata da exaustão daqueles que trabalham com o OUTRO, a Fadiga por Compaixão trata daqueles que trabalham com o OUTRO EM SOFRIMENTO. Assim, enquanto o Burnout é resultante da insatisfação com o ambiente de trabalho, a Fadiga por Compaixão refere-se à exaustão emocional (com reflexos psicossomáticos) decorrente do trabalho com indivíduos em sofrimento; decorre do peso de se importar, do estresse de dispensar compaixão. A Fadiga por Compaixão é então definida enquanto “uma síndrome de exaustão biológica, psicológica e social que pode acometer indivíduos que liberam energia psíquica, em forma de compaixão, a outros seres (humanos ou animais) por um período de tempo, sem se sentirem suficientemente recompensados.”

Para entendermos melhor o conceito é importante definirmos empatia e compaixão. Na empatia temos o compartilhamento de emoções com o outro mais a consciência da diferenciação entre o Eu e o Outro (o compartilhamento de emoções sem consciência é chamado de contágio emocional). Na empatia também temos a flexibilidade mental, ou seja a simulação cognitiva de como nos sentiríamos, pensaríamos, reagiríamos se estivéssemos no lugar do outro – este processo é controlado e resultante de esforço intencional.

Já a compaixão é uma conexão emocional, conexão essa que faz com que o sujeito aja no sentido de aliviar a dor do outro (aqui, além dos componentes da empatia, surge a necessidade de agir em prol do outro, do alívio de seu sofrimento).

Na prática clinica, nós MVs temos compaixão tanto em relação aos nossos pacientes em sofrimento quanto em relação aos tutores. O que torna específica a Fadiga por Compaixão em nossa profissão é que temos defesas muito mais elaboradas para lidar com o sofrimento de outro ser humano do que com o de um animal.

Todos nós somos regidos por 1 sistema internalizado de crenças pessoais:
Sou bom;
Sou dedicado;
Sou empático;
Sou competente;
Tenho conhecimento;
Posso ajudar meus pacientes;
Salvo vidas;
Etc…

No contato com o sofrimento alheio em geral sofremos danos constantes ao sistema de crenças pessoais; não gostamos de alguns clientes/pacientes; somos incompetentes em alguns casos que atendemos, ignorantes de algumas condições e falhamos muitas vezes em ajudar nossos pacientes e confortar nossos clientes. Além disto, muitas vezes somos mal remunerados e nossos esforços não são reconhecidos. Este abalo sistemático no nosso sistema de crenças pessoais vai cobrar seu preço ao longo do tempo.
Sinais da Fadiga por Compaixão

Temos sempre que ter em mente que as consequências da Fadiga por Compaixão não são óbvias, principalmente para o próprio indivíduo acometido. Lembrem-se que esta Síndrome tem consequências psicológicas, sociais e físicas. Dentre alguns dos sinais temos:

– Dificuldade de concentração
– Diminuição do rendimento profissional
– Sentir-se desencorajado ou abatido
– Sentimento de impotência para resolver todos os problemas
– Exaustão
– Irritabilidade
– Conflito com outros (dentro e fora do ambiente profissional)
– Deterioração das relações interpessoais
– Diminuição do estado de saúde geral
– Diminuição da compaixão pelos outros
– Problemas gastrointestinais
– Dores de cabeça
– Cansaço
– Insônia
– Desesperança
– Questionamentos sobre a vida, a profissão e a importância e competência pessoais
– Ceticismo
– Culpa excessiva
O que fazer?

Não temos que esperar que o quadro de Fadiga por Compaixão se instale para só então tomarmos alguma atitude. Na verdade há algumas atitudes simples que podemos adotar de imediato. Dentre estas as mais importantes é fazermos algo – mensurável, que envolva uma rotina – para nós mesmos; por exemplo pararmos para almoçar todos os dias (e fazermos deste tempo um momento prazeroso, sem interrupções), entrarmos numa academia x vezes por semana, irmos todas as quartas-feiras ao cinema, etc… O importante aqui é tornar estes momentos pessoais rotineiros e não desistir deles, mesmo que tenhamos inúmeras coisas mais urgentes a fazer, estarmos cansados, sem vontade…

Outro fator importante é que muitas vezes a prática clínica é solitária e temos poucas oportunidades de compartilhar nossos casos mais complicados e frustrantes. Compartilhe, compartilhe, compartilhe, seja com colegas do próprio ambiente de trabalho como com outros amigos. Pode ser uma ótima idéia falar com antigos colegas da faculdade.

Lembre-se sempre:

Você é um herói realizando alguns dos trabalhos mais difíceis e mais importantes para animais. Sinta-se orgulhoso de você está fazendo a diferença. Saiba e reconheça que você é parte ativa da solução.

Dê uma olhada no porquê você é tão dedicado a ajudar os animais. Certifique-se de que você não está colocando o bem-estar dos pacientes antes de seu próprio. Você precisa se cuidar primeiro. Se você não cuidar de si mesmo, você não terá nada restando para oferecer.

Cuide de você. Se você não estiver bem poderá fazer muito menos.

Pratique criar limites emocionais. Você precisa se proteger contra as toxinas da dor emocional dos outros. Quando você assume problemas e dor alheios como se fossem seus, você é muito menos capaz de ajudar o Outro em sua dor e sofrimento, justamente o que originalmente se propôs a fazer. Lembre-se, isto não é empatia nem compaixão, é contágio emocional!

Encontre tempo em sua vida para relaxar e se divertir. Pode parecer infactível, mas é imperativo para o seu bem estar. Você tem algum hobby? Cultive as atividades e interesses que nada têm a ver com seu trabalho. Você precisa recarregar suas baterias e rejuvenescer a sua alma.

Todos nós temos nossos próprios problemas. Trabalhe na identificação dos seus; é importante enfrentar nossa própria dor e ter o cuidado de não tornar-se viciado em ajudar a curar os outros em vez de nós mesmos.Está tudo bem buscar ajuda profissional!

Estabeleça limites; você não tem que necessariamente estar disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano!

Você pode lidar com emoções fortes. Você não precisa evitá-las, mas sim processá-las. Angústia, tristeza, raiva e culpa estarão sempre presentes em seu trabalho.Você pode ter estes sentimentos – eles não vão transbordar e destruí-lo. Se você negá-los, vão “infeccionar” e levá-lo ao Burnout.

Aceite tanto a sua realidade quanto suas próprias limitações. Mesmo que vc queira, não pode salvar todos os animais que atende. Cada um de nós pode fazer a diferença, um animal de cada vez, e você provavelmente está fazendo um trabalho incrível nesse sentido todos os dias.

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Alexandre Bastos Baptista – Médico Veterinário CRMV-SP 31972 e Psicólogo Clínico CRP-SP 42197-8. É membro do Psiconvet – Estudos em Psico-Oncologia Veterinária. É Endocrinologista Veterinário, atuando em São Paulo, Alphaville e ABC e Webmaster dos sites endocrinologiaveterinaria.com e psiconvet.org.

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Qual é a diferença entre trabalho, emprego e serviço? Como quantificar nosso valor?

Se olharmos os dicionários, teremos muitas definições e sinônimos porém, apesar de trabalho, emprego e serviço estarem relacionados, no fundo têm significados diferentes.

O trabalho pode ser qualquer atividade, remunerada ou não, voluntária ou obrigatória, braçal ou mental. E como se diz, o “trabalho dignifica o homem” mas nem sempre paga as contas ou põe ração no pote. Nesta visão, o trabalho do médico veterinário é maravilhoso, complexo e apaixonante, mas sem o devido valor comercial.

O emprego tem a conotação de vínculo empregatício, ou seja, gera dividendos e denota o valor comercial da ação esperada do empregado, mas não necessariamente exige o vínculo emocional.

Já o serviço, que também pode ser voluntário ou não, muitas vezes é relacionado a duas coisas diferentes: a prestação de serviços, essa sim, com caráter bastante comercial ou ainda o servir, do serviçal, do que oferece serviço público e/ou gratuito.

Nestes pontos de vista, talvez sejamos profissionais mais passionais do que racionais em nossa relação com a medicina veterinária e essa mentalidade pode, mesmo que inconscientemente, colaborar com a desvalorização comercial do profissional médico veterinário. Talvez nossa formação seja muito mais médica e humanista e muito menos comercial e mercantilista, por isso muitas vezes não sabemos efetivamente cobrar pelos nossos serviços, pelo nosso trabalho ou mesmo pelo nosso emprego. Talvez a filosofia não seja o melhor campo para discutir com veterinários, mas se não pensarmos profundamente nossa relação com a medicina veterinária, que caminhos teremos para valorizar nossa profissão, nosso trabalho e nosso serviço?

Minha proposta inicial é sempre parecida. Temos que nos organizar, seja através das Sociedades, das Associações, dos Sindicatos ou quaisquer órgãos que possam reunir veterinários e, havendo a organização inicial, as propostas devem ser discutidas, documentadas e levadas a organizações superiores. Em alguns estados do Brasil a SOMVET (em Santa Catarina), Anclivepa (Paraná), CRMV (Mato Grosso) e outras siglas mais oferecem a tabela de honorários profissionais, sugerindo um piso para o serviço prestado (veja bem e pense bem: serviço prestado). Muitos estados ainda não têm essas sugestões e os preços são praticados conforme o entendimento do profissional e quando não há um “mínimo” estabelecido ou sugerido, a lei do comércio fala mais alto que a lei do coração e sim, serão praticados valores baixos porque o veterinário precisa pagar as contas – e infelizmente muitas vezes o baixo valor é diretamente proporcional à qualidade do serviço prestado. Neste ciclo vicioso vêm os processos, as onerações, as perdas de clientes e, como pior consequência, a perda de pacientes.

Não há uma receita mágica para a valorização do veterinário e de seu trabalho ou serviço. O que há, urgente, é a necessidade de nos organizarmos como profissionais, elaborarmos propostas concisas e cobrar das organizações superiores o nosso valor. Emocional, racional e, claro, financeiro.

Sobre a autora

Sou professora de várias disciplinas, mas a deontologia veterinária talvez seja uma das poucas em que é possível abrir a mente dos ‘quase profissionais’ sobre o futuro que os aguarda após o curso de graduação. Nesta disciplina apresento normas e mais normas (ética profissional, noções de direito, responsabilidade profissional, civil, criminal e administrativa, leis, portarias, resoluções, medicina veterinária legal e assuntos correlatos) e tento gerar conteúdo racional, estimulando o pensar. Uma das aulas mais polêmicas trata de honorários veterinários. Perguntas como “por que temos um piso determinado em Resolução e nos concursos públicos ninguém paga esse piso?” ou ainda “pra quê fazer residência, se o mercado de trabalho não me pagará a mais por isso?” são ao mesmo tempo as melhores e as piores para um professor responder…

Devo esclarecer algumas coisas: não trabalho na área do direito e não tenho formação alguma específica na área de deontologia veterinária – não sou da deontologia mas, como médica veterinária, a deontologia está em mim. Também não atuo como médica veterinária e sim como professora universitária, ou seja, o pré-requisito mínimo para meu concurso era ter diploma de Médica Veterinária (e as benditas pós-graduações). Desta forma, atuo na área acadêmica, em universidade pública e não tenho empregos adicionais, portanto não vivo a questão dos honorários veterinários e sim dos (des)honorários da educação, que não vêm ao caso agora. Então o leitor se pergunta: o que essa pessoa pode falar sobre tudo isso, se não é da área? Essa é mais fácil de responder que as questões da aula. Falo porque me preocupo muito com a profissão que escolhi e amo tanto. A preocupação é tanta que resolvi me dedicar ao ensino e trabalhar o máximo possível para que os egressos tenham uma profissão digna, que sejam aptos a enfrentar o mundo além dos muros da academia e que tenham a mente aberta para as mudanças que acontecem o tempo todo. E me preocupo porque os que se formam voltam para conversar comigo e fico sabendo das dificuldades, sobretudo financeiras. Não posso regular preços (e infelizmente a cri$e veterinária não é recente), mas posso provocar os formandos a se tornarem “novos veterinários” e galgarem seus valores como pessoas e como profissionais.

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Juliana Arena Galhardo CRMV4626-MS é professora de zoonoses e saúde pública na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Desde 2011 coordena o Projeto de Extensão Universitária ‘LeishNão: para prevenção e controle da leishmaniose visceral’ que atua em instituições de ensino públicas e privadas levando atividades paradidáticas sobre educação em saúde em leishmaniose e posse responsável. Conheça o projeto (leishnao.blogspot.com) e compartilhe a educação em saúde (facebook.com/leishnao)

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