Os desafios do intensivismo na Medicina Veterinária

Nos últimos anos, sucessivos avanços da Medicina Veterinária têm resultado em evidente ganho de qualidade nos cuidados dispensados aos animais de companhia, que hoje são, sem dúvida, membros de muitas famílias brasileiras.

Claro que os avanços decorrem, em parte, de inovações tecnológicas. Mas não é só isso. Há evidente aprimoramento técnico dos profissionais do setor, que buscam, de forma cada vez mais precoce, escolher uma área de atuação e a ele se dedicar. É nesse contexto que surge, de forma bastante clara, um interesse crescente pela medicina intensiva desde a graduação.

Há alguns anos, as internações eram dominadas por anestesistas e por alguns clínicos dispostos a mergulhar na hemodinâmica dos pacientes críticos. Nem se falava em UTI veterinária. Hoje, o cenário é outro. Há serviços especializados em atendimento intensivo, com equipes cada vez mais multidisciplinares, que congregam cardiologistas, nefrologistas, cirurgiões, dermatologistas, entre outras.

Quem não se lembra quando o médico veterinário Rodrigo Rabelo começou a falar de lactato como marcador para prognóstico? Poucos sabiam do que se tratava. Hoje, o lactato está estabelecido na nossa rotina.

Pessoalmente, tive o privilégio de integrar a Equipe da Vet Intezivet, que pertence a dois dos melhores intensivistas que conheço, os médicos veterinários Alessandro Carvalho de Martins e André Chen Shih. E foi com eles que entendi que para um paciente crítico, cada hora vale OURO.

Trabalhar em UTI é lutar contra o tempo. Assim que o paciente crítico é admitido no serviço é preciso definir metas e planejar o caminho para alcançá-las. É muito diferente do atendimento clínico ambulatorial e exige do profissional ainda mais sensibilidade e experiência, pois mecanismos compensatórios podem fazer com que o paciente tenha uma condição aparente que não condiz com sua saúde real.

Existem UTIs veterinárias que se assemelham, em estrutura e capacidade técnica, ao que é oferecido pelos grandes hospitais de referência da medicina humana. São unidades que trabalham com a Medicina baseada em Evidências, métodos diagnósticos e terapêuticos sofisticados, intervenções precoces capazes de salvar vidas.

Lembro de um plantão em que estávamos aguardando o técnico que configuraria o software do novo aparelho de ventilação mecânica. Quando o rapaz chegou, olhou em volta e perguntou se aquela estrutura era para animais. Diante de nossa confirmação, ele se mostrou surpreso, afirmando que fazia a manutenção do mesmo aparelho no Albert Einstein e no Sírio Libanês e que “muita gente morre porque os hospitais não têm essa estrutura”. De fato, infelizmente a tecnologia não está ao alcance de todos, nem em medicina humana nem em medicina veterinária. E esse é um desafio diário.

Recursos tecnológicos e humanos requerem investimento, o que eleva o valor cobrado pelos serviços. Mas não é fácil convencer os proprietários a arcar com o custo de manter os pacientes internados pelo tempo necessário para sua recuperação. Alguns não querem pagar. Outros não têm os recursos e, apesar de terem buscado um serviço de ponta, já chegam listando suas restrições e não autorizam a realização dos exames necessários ao bom diagnóstico.

Além do custo financeiro, esses proprietários terão de enfrentar o custo emocional da internação de seus companheiros (para muitos, de seus filhos). E os veterinários terão de lidar com isso, administrando crises, rompantes de choro, confidências. “Doutor, salve-o”, é um pedido comum. Diante da enorme responsabilidade de lidar com tanta esperança e, o bom intensivista não é apenas aquele que tem sólidos conhecimento técnicos, mas também o que tem uma boa dose de inteligência emocional.

Portanto, calma e agilidade são características que devem andar juntas. É preciso correr contra o tempo, mas sem ignorar a demanda do proprietário por um minuto a mais de atenção. Essa postura requer treinamento, liderança, equipes organizadas, protocolos claros. Caso contrário, o resultado será o indesejado incremento da mortalidade em nosso serviço.

Sobre a autora:

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Valéria Silva Ferro CRMV- SP 18621

Formada em 2005 pelo Centro Universitário Monte Serrat. Pós Graduação Lato Sensu em Doenças Infecciosas dos animais domésticos pela Unesp/Botucatu, em 2007; Pós Graduação Lato Sensu em Cirugia de Tecidos Moles, em 2007 e Pós Graduação em UTI pela Anclivepa/SP, em 2015.

Atualmente, Intensivista do Hospital Veterinário Dr. Hato, Unidade São Bernado do Campo. Anterioremente atuou como intensivista na Vet Intenziv (Ufape) na UTI do Pet Care; foi Coordenadora da Internação do Hospital Público Unidade Tatuapé e Zona Norte e intensivista nos Hospitais Veterinário Santa Inês e Vet Quality.