Por dentro da Leptospirose Canina

Empresa

MSD

Data de Publicação

31/12/2000

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Por dentro da Leptospirose Canina

Mitika K. Hagiwara
Professor Senior
Departamento de Clínica Médica d FMVZ-USP

Os Clínicos Veterinários de Pequenos Animais estão de um modo geral, familiarizados com os aspectos clínicos e epidemiológicos da leptospirose canina, as várias opções de tratamento para os animais doentes e o modo de prevenir a doença e sua disseminação a outros cães e aos humanos. Entretanto, a leptospirose é uma doença complexa e embora a vacinação contra a leptospirose esteja incluída no protocolo vacinal, são freqüentes os casos em que, pelo histórico e pelas manifestações clínicas apresentadas, suspeita-se de leptospirose. O teste de soroaglutinação microscópica (SAM), utilizado para a confirmação do diagnóstico de leptospirose, muitas vezes fornece resultados nos quais se observa a presença de anticorpos para mais de um sorovar de leptospiras patogênicas, as vezes em títulos bastante expressivos. A vacina confere proteção adequada? Trata-se de infecção por outros sorovares não incluídos na vacina? Quais os sorovares que podem infectar o cão?. Há necessidade de vacinas contra esses sorovares? São algumas das questões frequentemente formuladas pelos clínicos veterinários e pelos proprietários dos animais. No sentido de esclarecer essas dúvidas abordaremos de forma sucinta o que se conhece sobre a leptospirose entre os cães.

A leptospirose é uma doença infcciosa causada por leptospiras, bactérias finas, flexíveis, filamentosas (0,1 a 0,2 μm de largura e 6 a 12 , a qual μm de comprimento), espiraladas, com extremidades em gancho, pertencentes à Familia Leptospiraceae, gênero Leptospira. São conhecidas na atualidade oito espécies de leptospiras patogênicas, isto é, aquelas que são capazes de colonizar os rins dos mamíferos: Leptospira interrogans senso strictu, Leptospira kirschneri, Leptospira borgpeterseni, L. santarosai, L. noguchi, L.weilii , Leptospira alexanderi e Leptospira alstoni. Essas espécies são geneticamente distintas e englobam múltiplos sorovares , que diferem entre si na composição da membrana externa, composta de lipopolissacarídeos (LPS) e proteínas (Greene et al, 2011). (Ciceroni, 2002.) A variação da composição de carboidratos que compõe os LPS é responsável pela diferença antigênica entre os sorovares. Os sorovares que apresentam antígenos em comum e que se superpõem compõem os sorogrupos (Evangelista e Coburn, 2010). São conhecidos na atualidade mais de 200 sorovares de leptopiras patogênicas, distribuídos em 24 sorogrupos pertencentes majoritariamente a espécie Leptospira interrogans e em menor escala as epécies Leptospira grippotyphosa, e Leptospira borgpeterseni.

Hospedeiros de manutençãopiras patogênicas se adaptam e sobrevivem por longo período de tempo, sem que os animais apresentem os sinais clínicos decorrentes da infecção, em funçao do equilíbrio biológico natural entre o agente infeccioso e o hospedeiro. Em geral, os pequenos roedores, silvestres ou peridomiciliares, são os reservatórios dos diferentes sorovares já identificados. Os ratos são importantes reservatórios dos sorovares Icterohaemorrhagiae, Copenhageni, Pyrogenes entre outros, identificados ao redor do mundo. Aparentemente o sorovar Canicola se encontra adaptado ao cão, os sorovares Hardjo e Pomona aos bovinos e os sorovares Pomona e Tarassovi aos suinos. Virtualmente todas as espécies conhecidas de roedores, marsupiais ou mamíferos, incluindo o homem ( Ganosa et al, 2010) podem atuar como hospedeiro de manutenção para diversas leptospiras patogênicas (Schüller et al, 2015).

Hospedeiros acidentais Uma vez excretadas na urina dos animais infectados, as leptospiras sobrevivem em terrenos úmidos, pântanos, córregos, lagos e estábulos com excesso de detritos e umidade por um longo período de tempo, de semanas a meses. Multiplicam-se bem em pH 7,2 a 7,4 e em temperaturas de 10 a 34ºC. São muito sensíveis ao pH ácido e a dessecação. Nessas condições, os animais suscetíveis que entram em contato com as leptospiras patogênicas podem ser infectados. A infecção pode cursar silenciosamente, sem que haja manifestações clínicas ou resultar em grave doença fatal, na dependência da patogenicidade do sorovar Infectante e da resistência do hospedeiro.

O cão pode ser infectado por diversos sorovares de leptospiras como os sorovares Icterohaemorrhagiae e Copenhageni, em geral associados ao desenvolvimento de icterícia e grave comprometimento renal e o sorovar Canicola, cuja infecção pode resultar em doença renal aguda ou crônica. Outros sorovares como Grippotyphosa, Pomona, Bratislava, Pyrogenes causando nos cães infectados síndromes clínicas semelhantes ou em alguns casos grave hemorragia pulmonar associada a infecção leptospírica.

O isolamento e a caracterização sorológica e molecular de leptospiras a partir de fragmentos de rim ou da urina dos cães doentes constitui-se no modo de comprovar de forma inequívoca a etiologia da doença. No Brasil foram isolados os sorovares Copenhageni, Icterohaemorrhagiae, Canicola e Pomona de cães doentes ou de cães de rua, aparentemente hígidos. Mais recentemente, foi relatado o isolamento a partir de um cão doente que havia desenvolvido icterícia e doença renal aguda a espécie Leptospira noguchi, caracterizado sorologicamente como pertencente ao sorogrupo Australis.

Apesar de haver poucos isolamentos de leptopspiras, comprovando a infecção de cães, existem evidências de infecções por outros sorovares patogênicos fornecidas pela reação de SAM, utilizada nos inquéritos sorológicos. Diversos inquéritos sorológicos realizados no Brasil nos últimos anos, revelam a presença de anticorpos aglutinantes contra uma ampla variedade de sorovares, com maior prevalência dos sorogrupos Icterohaemorrhagiae, (Sorovar Icterohaemorrhagiae e Copenhageni) Canicola e Pyrogenes nas regiões sul e sudeste. Em menor proporção, também foram encontrados cães reagentes a outros sorogrupos como, Bratislava, Autumnalis, Grippotyphosa, Tarassovi, Australis, Cynopteri, Butembo . Já nas regiões norte, nordeste e centro oeste foram encontrados reagentes aos sorogrupos Autumnalis, Pyrogenes, Canicola, Hardjo, Grippotyphosa, Copenhageni, Pomona.

O amplo espectro de sorovares de leptospiras contra os quais há o desenvolvimento de anticorpos aglutinantes, ainda que em títulos baixos (100 a 400, na maioria dos casos), indica a exposição dos cães a diversos sorovares de leptospiras no meio onde vivem, sem que necessariamente adoeçam, já que na maioria das vezes, tratavam-se de cães aparentemente sadios. Nos cães doentes, os principais sorovares envolvidos são, aparentemente os sorovares Copenhageni, Icterohaemorrhagiae e Canicola, porém também foram encontrados reagentes a Grippotyphosa, Pomona, Autumnalis, Bratislava e Pyrogenes.

A interpretação dos resultados do teste sorológico é complicada, devido a reações cruzadas entre os diferentes sorogrupos, as reações paradoxais e a variação da resposta em um mesmo animal em diferentes momentos. De um modo geral considera-se que títulos >800 correspondem ao sorogrupo infectante, com as devidas ressalvas. Para fins de diagnóstico, a recomendação geral é a de que o teste sorológico seja realizado em amostras pareadas de soro, coletadas no momento da apresentação inicial e na fase de convalescença, com intervalo de duas semanas. O aumento do titulo em quatro vezes (por exemplo de 200 para 800) indica o provável sorovar (sorogrupo) infectante. O resultado da reação de SAM indica o provável sorogrupo no qual o sorovar infectante está incluído, não especificando o sorovar infectante. Porém, o valor preditivo da sorologia como indicador do sorogrupo infectante também é baixo, principalmente na fase aguda da infecção.

Do ponto de vista clínico é de pouca utilidade conhecer o sorovar infectante, haja vista a necessidade de instituição do tratamento antimicrobiano quando houver suspeição clínica de leptospirose, antes mesmo dos resultados do teste de SAM, com vistas a recuperação do animal e para evitar a eliminação das leptospiras na urina, contibuindo para a contaminação do meio ambiente. Do ponto de vista epidemiológico, é importante se conhecer o sorovar prevalente na região, para o planejamento das medidas de prevenção, com a inclusão desse sorovar na composição das vacinas. A identificação do sorovar infectante só é possível com o cultivo bacteriano e isolamento da leptospira e sua caracterização sorológica.

Há mais de cinqüenta anos as bacterinas produzidas com os sorovares Icterohaemorrhagiae e Canicola foram associadas aos antígenos do vírus da cinomose e da hepatite infecciosa canina, e incluída na principal vacina dos cães para promover a proteção contra a leptospirose. Nos Estados Unidos e no Canadá, as melhores condições de saneamento ambiental e a vacinação sistemática resultou na diminuição dos casos de leptospirose canina causada por aqueles sorovares, entretanto outros sorovares como Grippotyphosa ou Pomona passaram a ser identificados como causa da infecção e da doença nos cães. Para promover a proteção contra esses sorovares, a vacina contra a leptospirose passou a contar com mais dois antígenos, além dos componentes clássicos: Icterohaemorrhagiae, Canicola, Grippotyphosa e Pomona.

No Brasil ainda não existem evidências de que os sorovares Grippotyphosa e Pomona, apesar do último ter sido isolado de um cão de estado sanitário desconhecido há mais de 30 anos, sejam importantes como causa da doença nos cães. Portanto, ainda não se comprovou a necessidade e a indicação específica para o uso dessas vacinas no cão. Em relação a vacina contra a leptospirose, tanto o grupo de “experts” da AAHA (American Animal Hospital Association) quanto do WSAVA (World Small Animal Veterinary Association) consideram que se trata de uma vacina que deve ser utilizada apenas em animais expostos ao risco da infecção, não se constituindo em vacina recomendada para todos os cães. Mais ainda, que os componentes vacinais contra a lepstopirose sejam constituídos pelos sorovares mais prevalentes na região de maior significado epidemiológico e clínico.

Por outro lado, o cão é considerado hospedeiro de manutenção do sorovar Canicola. Quando infectados, podem adoecer, como comprova o fato de que é o sorovar mais frequentemente isolado dos cães doentes no Brasil. Podem também se tornar portadores, mantendo a infecção por período prolongado de tempo e eliminando as leptospiras na urina. Cães mantidos em abrigos coletivos ou em agrupamentos são potenciais candidatos a disseminarem e perpetuarem a infecção por esse sorovar. Neses grupos de cães, a vacinação sistemática dos cães é de fundamental importância, além da identificação dos portadores e a aplicação de adequadas medidas sanitárias ambientais. Isto se aplica também aos cães mantidos isoladamente e que possuem o hábito de ter acesso a rua e ambientes onde se encontram outros cães.

  • Na dependência do estilo de vida, local onde vive e da presença de roedores silvestres ou peridomiciliares que albergam leptospiras patogênicas no tecido renal, os cães podem ser infectados por leptospiras eliminadas por esses roedores para o meio ambiente. Podem também adquirir a infecção pelo hábito predatório de caça. A infecção pode ser benigna, resultando na produção de anticorpos aglutinantes detectados por meio da reação de SAM. Nos inquéritos sorológicos, as reações sorológicas positivas, em baixos títulos, podem sugerir apenas infecção passada.
  • O isolamento e identificação do sorovar infectante a partir de animais doentes ou de portadores de leptospiras patogênicas é a forma mais concreta de se comprovar a relação causal entre o agente e o hospedeiro, no caso o cão.
  • A reação de SAM não permite identificar o sorovar infectante, indicando apenas o sorogrupo ao qual pertence o sorovar infectante. As reações cruzadas entre os sorogrupos e reações paradoxais, em que títulos maiores de anticorpos nem sempre correspondem ao sorovar infectante muitas vezes não permitem concluir pelo sorogrupo infectante.
  • A vacinação anual dos cães contra a leptospirose ainda se constitui uma necessidade para todos os cães no Brasil (vacinas bivalentes sorovares Icterohaemorrhagiae/Copenhageni e Canicola). A real necessidade dos componentes Grippotyphosa e Pomona ainda não foi comprovada de forma inequívoca.