Hemoparasitoses em cães e gatos

Empresa

Agener União

Data de Publicação

16/03/2016

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Profa. Dra. Simone Gonçalves

Docente da Faculdade de Medicina Veterinária da UNISA

- Título de Doutor pela FMVZ-USP - Responsável pelo HEMOVET - laboratório e centro de hemoterapia veterinária

MV, Msc. Karin Denise Botteon

Departamento Técnico Pet Agener União


- Graduada pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Londrina.
- Residência em Clínica Médica de Pequenos Animais pela FMVZ/UNESP – Campus de Botucatu.
- Mestrado pelo Depto de Cirurgia e Anestesiologia na área de Banco de Sangue na FMVZ/USP

INTRODUÇÃO

Os hemoparasitas são organismos que parasitam as células do sistema hematopoiético. Podem ser bactérias atípicas como as Rickettsias e Mycoplasmas ou ainda protozoários como as Babesias. Quando há suspeita de hemoparasitose, o clínico enfrenta alguns desafios que podem mascarar o diagnóstico final. Dentre esses desafios estão as semelhanças entre as sintomatologias clínicas, as alterações laboratoriais e o decurso das doenças.

Além da gravidade das manifestações clínicas nos cães e gatos, algumas dessas doenças são consideradas zoonoses e, portanto, uma preocupação para saúde pública, principalmente porque os animais de estimação vivem em estreita relação com seus tutores.

ERLIQUIOSE CANINA

A erliquiose canina é uma importante doença infecciosa de distribuição mundial, transmitida pela picada do carrapato. Embora o carrapato da espécie Rhipicephalus sanguineus seja o principal responsável pela transmissão, experimentalmente também se comprovou que o Dermacentor variabilis é um possível vetor para esta hemoparasitose. Os microorganismos responsáveis pela erliquiose canina são as rickettsias, bactérias atípicas, intracelulares obrigatórias e gram negativas. Estes microorganismos também podem causar doenças em gatos e humanos. As rickettsias podem ser monocitotrópicas, quando parasitam os monócitos e os macrófagos, ou granulocitotrópicas, quando parasitam os neutrófilos ou os eosinófilos.

Nos cães as espécies de maior importância são: Ehrlichia canis (monocitotrópica) e Ehrlichia ewingii (granolucitotrópica). No Brasil a E. canis é a espécie de maior prevalência. Entretanto a E. ewingii, cuja ocorrência é grande na América do Norte, já foi identificada no país. A severidade da doença dependerá da cepa que infecta o animal, pois estudos mostram diferenças antigênicas entre as cepas ao redor do mundo. Coinfecções com outras hemoparasitoses também podem ser um fator determinante na gravidade da infecção. Devido a sua maior prevalência, a E. canis será o foco de discussão nesta revisão. Após a picada do carrapato, o cão passará por um período de incubação que pode durar entre 8 e 20 dias. Ocorrerá então a multiplicação do parasita nos macrófagos e a sua distribuição no organismo do animal, caracterizando a fase aguda da doença. Na ausência de tratamento nesta fase ou ainda quando ocorre falha terapêutica, dois tipos de evolução podem ocorrer: o cão poderá evoluir para uma fase assintomática da doença (também denominada subclínica) ou ainda para a doença crônica, na dependência da sua resposta imunológica.

Manifestações clínicas e alterações laboratoriais

As manifestações clínicas nem sempre são perceptíveis ou diferenciadas entre as 3 fases. Alguns animais passam por uma fase aguda muito rápida e acabam ficando em fase assintomática, que pode perdurar por anos, ou ainda podem evoluir diretamente para a fase crônica. Na fase aguda as manifestações clínicas são muito variáveis, podendo ocorrer apenas apatia ou febre, ou até linfoadenomegalia, esplenomegalia e secreção óculo-nasal. Sinais de sangramento, como epistaxe e petéquias, também são comuns quando ocorre trombocitopenia grave. Manifestações oculares como uveíte, coriorretinite, hemorragia retiniana podem ocorrer, resultando até em descolamento de retina e portanto cegueira súbita. Alteração de sistema nervoso central em consequência de meningite, vasculite e sangramento cerebral é passível de ocorrer. Trombocitopenia e, ocasionalmente, leucopenia leve e uma anemia não regenerativa ocorrem em 1 a 4 semanas após a infecção por E. canis.

Nas situações em que os animais são assintomáticos (evoluem para fase subclínica), as manifestações clínicas são raras e algumas alterações laboratoriais podem estar presentes como trombocitopenia de grau leve e hiperglobulinemia caracterizada pela elevação da proteína total. Alguns cães evoluem para a fase crônica da doença cuja fisiopatologia não está completamente elucidada, embora a predisposição genética represente um importante papel, a exemplo da suscetibilidade maior da raça Pastor Alemão. Essa fase é considerada a mais severa e com pior prognóstico. As manifestações clínicas são mais graves e caracterizadas por perda de peso, letargia, anorexia, tendência a sangramentos, mucosas pálidas, febre, linfoadenopatia, esplenomegalia, distrição respiratória, uveíte, hemorragia retiniana, poliúria e polidipsia.

As alterações hematológicas geralmente são mais intensas, com anemia profunda, trombocitopenia e leucopenia, caracterizando um quadro de pancitopenia muitas vezes associado à hipoplasia ou aplasia de medula óssea como resultado da invasão do microorganismo e do processo imunomediado. Hipoalbuminemia, hiperglobulinemia e hipergamaglobulinemia são achados comuns. Alterações de enzimas hepáticas principalmente ALT e FA também podem ocorrer, especialmente na fase aguda devido à sobrecarga do sistema mononuclear fagocitário. A deposição de imunocomplexos nos rins pode levar ao desenvolvimento de glomerulonefrite e consequentemente aumento da pressão arterial sistêmica. Portanto a mensuração da função renal (ureia e creatinina) e da relação proteína/creatinina urinária podem ser exames úteis durante o acompanhamento da doença, aumentando a chance de sucesso terapêutico.

O diagnóstico da E. canis constitui um desafio devido às diferentes fases de infecção e à variedade de manifestações clinicas. O conhecimento do comportamento do agente e da sensibilidade e especificidade de cada exame, bem como da fase de evolução clínica da doença, é importante no momento de escolha do método diagnóstico. A observação da mórula de erliquia em lâmina, apesar de possível, ocorre somente em cerca de 4% dos casos. Além disso exige treino por parte do profissional que avalia o exame, pois a mórula pode ser confundida, por exemplo, com resquícios de material fagocitado. Os exames sorológicos são muito úteis na rotina clínica. Os anticorpos podem ser detectados entre 7 e 28 dias após o início da infecção, ou seja, cães com infecção aguda podem apresentar resultados falso negativos com esses testes. O E.L.I.S.A, na forma de “snap test” ou teste rápido, tem a vantagem de ser de fácil manipulação e é relativamente barato, com boa sensibilidade e especificidade. Resultados negativos devem ser interpretados com cautela pois, em estudos comparativos, foi demonstrado que as detecções de animais positivos ocorrem em titulações próximas de 1:320. Em outras palavras, animais positivos com titulações de anticorpos inferiores a esta poderão resultar em teste falso negativo. Nestes casos recomenda-se repetir o teste em 1 a 2 semanas.

O exame de imunofluorescência indireta (RIFI) detecta anticorpos IgG. É considerado o exame sorológico padrão ouro para exposição ao agente. É um exame sorológico muito mais sensível por ser quantitativo e não somente qualitativo como o E.L.I.S.A. O teste RIFI detecta titulação de anticorpos a partir de 1:80, resultado considerado como positivo para exposição ao agente. Este teste é considerado de eleição em animais suspeitos em fase assintomática (subclínica) ou crônica. O exame de PCR (reação em cadeia polimerase) é outra categoria de exame utilizada para diagnóstico da erliquiose. O PCR baseia-se na busca de sequenciamento de DNA do microorganismo. Resultados falso positivos podem ocorrer principalmente devido a contaminantes, sendo necessária a escolha de laboratórios de referência para a realização do exame. O resultado negativo significa que, naquela amostra específica, o DNA do organismo não foi detectado, porém não exclui completamente a infecção. Um outro tipo de PCR, quantitativo ou em tempo real (disponível no Brasil), tem a vantagem de quantificar o agente causador, o que confere uma sensibilidade maior além de ser menos sujeito a contaminantes. É um dos exames preferidos na detecção da erliquiose e utilizado com frequência para acompanhamento da carga parasitária de animais em tratamento. Algumas das vantagens do exame de PCR são: 1. Detecção do agente em fases agudas, antes que a soroversão aconteça; 2. É um excelente teste para fins confirmatórios da infecção; 3. Um resultado positivo tem a maior probabilidade de indicar uma infecção ativa e não somente uma exposição ao agente como ocorre nos testes sorológicos.

A interpretação dos resultados dos exames deve ser cautelosa. Assim o conhecimento do significado de cada teste é importante na hora da escolha entre eles, levando-se em consideração também a história clínica do paciente e a evolução da enfermidade.

O fármaco de eleição para o tratamento contra a erliquiose é a doxiciclina. Recomenda-se a dose de 5 mg/kg a cada 12 horas ou 10 mg/kg a cada 24 horas. O tratamento mínimo é de 28 dias podendo ser estendido para 6 a 8 semanas, principalmente em pacientes com infecção crônica. Reinfecção e recidiva da enfermidade são comuns. Assim sendo, os cães precisam ser monitorados a cada 3 meses após a normalização clínica e laboratorial.

Pontos chave:


• A erliquiose canina é uma doença de distribuição mundial. No Brasil a espécie mais prevalente é a E. canis.
• Os sinais clínicos são muito variáveis mas apatia, febre, linfoadenomegalia, esplenomegalia e secreção óculo-nasal são as alterações mais frequentes. Trombocitopenia e ocasionalmente leucopenia leve com anemia não regenerativa são as alterações laboratoriais comuns.
• A doença pode ser dividida em 3 fases que podem ser indistinguíveis entre si: aguda, subclínica (ou assintomática) e crônica. A fase assintomática nem sempre cursa com sintomatologia clínica e pode perdurar durante anos. A fase crônica é a mais grave e com pior prognóstico, principalmente em animais com aplasia de medula ou processos imunomediados.
• O diagnóstico pode ser sorológico com os exames de E.L.I.S.A. e RIFI ou ainda molecular, com o uso de PCR.
• O exame sorológico RIFI apresenta uma maior sensibilidade e deve ser considerado especialmente em animais suspeitos de infecção crônica ou assintomática (subclínica). O PCR convencional ou PCR em tempo real tem a vantagem de detectar o agente na fase aguda, antes que ocorra a soroversão, além de ser um melhor indicativo de infecção ativa.
• O tratamento de eleição é com a doxiciclina (5 mg/kg a cada 12 horas ou 10 mg/kg a cada 24 horas) por um período mínimo de 28 dias, podendo a terapia ser estendida até 8 semanas em casos crônicos.

A anaplasmose ou trombocitopenia cíclica é uma hemoparasitose causada pela rickettsia Anaplasma platys, agente trombocitotrópico (parasita as plaquetas) e é transmitida pelo carrapato Rhipicephalus sanguineus.

Após o contágio, a incubação pode variar entre 8 e 15 dias. O primeiro episódio de parasitemia geralmente cursa com trombocitopenia grave (< 20.000/µL) no início da infecção, mas o número de plaquetas tende a voltar aos valores normais em 3 ou 4 dias conforme o ciclo do parasita. Novos ciclos de parasitemia e trombocitopenia ocorrem em intervalos de 1 a 2 semanas e, embora a porcentagem de plaquetas infectadas geralmente seja menor, a trombocitopenia pode ser tão grave quanto a do primeiro ciclo.

Manifestações clínicas e alterações laboratoriais

A maioria dos cães é assintomática. Quando presentes, os sinais clínicos incluem febre, letargia e tendência a sangramentos, principalmente hematoquezia. Geralmente casos mais graves estão associados a coinfecções com outros hemoparasitas. No entanto, cepas mais patogênicas já foram descritas causando sinais como palidez de mucosas, petéquias, perda de peso e linfoadenomegalia. Trombocitopenia é a alteração laboratorial mais comum, mas anemia e leucopenia também podem estar presentes. Além da injuria direta às plaquetas, pode ocorrer processo imunomediado, agravando o quadro de trombocitopenia e diminuindo a resposta ao tratamento.

Tommasi et al. (2014) relataram inclusão desse agente em precursores das plaquetas na medula óssea de dois cães provenientes de um canil com histórico de diversos patógenos transmitidos por carrapatos, indicando assim que a A. platys pode infectar megacariócitos e promegacariócitos, fato até então não comprovado.

Diagnóstico

Apesar de ser possível o diagnóstico pela visualização em lâmina do parasita nas plaquetas, sua confiabilidade não é alta pois a parasitemia, além de cíclica, pode cursar com baixo número. Portanto nem sempre é possível a identificação das células parasitadas. Também é importante diferenciar o parasita de inclusões plaquetárias como núcleos remanescentes de megacariócitos ou granulações. Embora o exame sorológico importado de E.L.I.S.A esteja disponível no Brasil e detecte anticorpos para a espécie A. phagocytophilum e não para a A. platys, a reação cruzada entre as espécies valida seu uso como meio diagnóstico. No Brasil não há relatos da A. phagocytophilum possivelmente porque sua transmissão ocorra pelo carrapato Ixodes ricinuspersulcatus que não é prevalente no país. Um estudo realizado por Stillman et al. (2014) com o teste multivalente E.L.I.S.A (4DX Iddex) mostrou que a sensibilidade e a especificidade foram de 89,2% e 99,2% respectivamente para anaplasmose, validando esse teste para uso na rotina clínica. O RIFI também pode ser utilizado e apresenta uma sensibilidade maior, detectando titulações mais baixas e em situações de ausência de parasitemia. Apresenta entretanto reação cruzada com a A. phagocytophilum, devendo a amostra ser submetida ao exame de DNA para identificação da espécie. É importante ressaltar que não há reação cruzada entre A. platys e E. canis.

O uso de PCR convencional ou em tempo real também é útil e segue as mesmas recomendações do diagnóstico para E. canis. Deve-se ter cautela na escolha do laboratório e do primer (fitas de DNA) utilizado já que alguns primers para A. phagocytophilum também amplificam a A. platys.

Tratamento

Pontos chave:


• A anaplasmose ou trombocitopenia cíclica é causada pela Anaplasma platys.
• É um parasita trombocitotrópico que tem um comportamento de parasitemia cíclica.
• A maioria dos cães é assintomática, mas febre e tendência a sangramentos podem ocorrer e os sintomas podem se agravar dependendo da presença de coinfecções com outros hemoparasitas como a E. canis.
• O exame sorológico pelo E.L.IS.A. pode ser utilizado para diagnóstico por apresentar reação cruzada entre A. phagocytophilum e A. platys.
• O fármaco de escolha para tratamento é a doxiciclina (5 mg/kg a cada 12 horas ou 10 mg/kg a cada 24 horas) por um período de 28 dias.

A babesiose canina é causada por hemoprotozoários que parasitam as hemácias. As espécies de maior importância para os cães são: Babesia canis (mais comum no Brasil) e a Babesia gibsoni. Os carrapatos da espécie Rhipicephalus sanguineus são os principais transmissores mas, experimentalmente, os carrapatos da espécie Dermacentor spp também foram identificados como vetores da doença em cães.

Manifestações clínicas e alterações laboratoriais

A babesiose pode se manifestar como uma doença branda ou complicada na dependência da cepa infectante e da imunocompetencia do hospedeiro. A doença pode ser dividida em algumas fases de acordo com as manifestações clínicas. A fase hiperaguda raramente ocorre e é caracterizada por extensos danos teciduais, sendo mais relacionada com cepas patogênicas como a B. canis rossi. A doença aguda se caracteriza por letargia, febre, icterícia, vômito, linfoadenomegalia e esplenomegalia. Animais infectados com cepas mais fracas, como B. canis vogeli, podem inclusive não apresentar manifestações clínicas aparentes. Quanto às alterações laboratoriais, anemia hemolítica, trombocitopenia e hematúria são os achados mais comuns. As manifestações clínicas da fase crônica também podem não ser aparentes e em alguns casos os animais serem considerados assintomáticos. Quando presentes, os sinais clínicos nesta fase incluem febre intermitente, perda de peso, linfoadenopatia e hiporexia.

Em babesioses brandas, as manifestações clínicas podem se agravar dependendo da evolução da anemia hemolítica e da presença concomitante de coinfecções com outros parasitas ou de processos imunomediados secundários, que cursam com o agravamento do quadro hemolítico. Nas babesioses complicadas, tipicamente causadas pela B. canis rossi, os sinais clínicos podem ser muito variados, acometendo os sistemas cardiovascular, ocular e gastrointestinal. Manifestações neurológicas devido a hemorragias focais e sequestro de hemácias parasitadas em leitos vasculares podem ocasionar incoordenação, paresia de posteriores, convulsões e vocalização. Insuficiência renal aguda com sinais de anúria ou oligúria e uremia podem ocorrer, mas é incomum. Injúrias secundárias à hipóxia ou inflamação podem resultar em hepatopatia, com elevação de enzimas hepáticas (ALT e FA).

Trombocitopenia é uma alteração laboratorial comum mas nem sempre sinais de sangramentos são aparentes. Quando presentes podem ser indicativos do desenvolvimento de coagulopatias como coagulação intravascular disseminada (CID) em fase de hipocoagulação. Na fase de hipercoagulabilidade o prognóstico é ruim, resultando na disfunção de múltiplos órgãos. Anemia discreta e arregenerativa é percebida nos primeiros dias da infecção podendo evoluir para uma anemia macrocítica e hipocrômica regenerativa conforme a evolução da doença. Alterações leucocitárias são incomuns, mas pode ocorrer leucocitose (com ou sem desvio à esquerda), leucopenia, neutrofilia, neutropenia, linfocitose e/ou eosinofilia.

Anemia e trombocitopenia são sinais clínicos comuns a diversas hemoparasitoses. Considerando-se também que coinfecções são frequentes, deve-se buscar sempre o diagnóstico definitivo mesmo após a instituição do tratamento (enquanto a suspeita é presuntiva).

Diagnóstico

É possível a identificação do parasita nas hemácias através do esfregaço sanguíneo, porém nem sempre é viável principalmente em infecções pela B. canis que cursam com parasitemias mais baixas. A coleta de sangue de capilares de extremidades, como ponta de orelha, pode aumentar as chances das células parasitadas serem encontradas. O diagnóstico sorológico com a RIFI é considerado com boa especificidade, mas pode haver reação cruzada entre B. canis e B. gibsoni. A sensibilidade é grande, sendo capaz de detectar títulos maiores ou iguais a 1:80. O teste de E.L.IS.A. não está disponível no Brasil e, embora tenha grande sensibilidade, tem menor especificidade que o RIFI. A detecção do parasita por método de PCR é bastante válida, sendo considerado o melhor teste quanto ao quesito especificidade. Quanto à sensibilidade valem as mesmas considerações mencionadas para as outras hemoparasitoses, ou seja, o resultado negativo não exclui uma infecção.

Tratamento

Existem várias opções terapêuticas para o tratamento da babesiose, havendo variação da eficácia na dependência do agente transmissor. Terapia com dipropionato de imidocarb na dose de 5 a 6,6 mg/kg pela via intramuscular em 2 doses com intervalo de 14 dias entre as aplicações é indicada e tem uma excelente ação contra a B. canis e ação leve contra a B. gibsoni. Apesar dos efeitos colaterais serem raros, a medicação pode ocasionar salivação, vômito, diarreia, tremores musculares e bradicardia, possivelmente pelo efeito anticolinérgico do fármaco. O uso de atropina (0,05 mg/kg pela via subcutânea) antes ou após a aplicação do imidocarb pode minimizar esses efeitos. O aceturato de diminazene também consititui uma boa escolha de tratamento tendo ação eficaz contra a B. canis e ação branda contra a B. gibsoni. A medicação pode ser utilizada em dose única de 3,5 a 5 mg/kg pela via intramuscular. Dor e edema no local de aplicação, distúrbios gastrointestinais e neurológicos são efeitos adversos possíveis com o uso deste princípio ativo. Tratamento suporte com transfusão sanguínea em animais muito anêmicos ou ainda terapia imunossupressora em casos de processos imunomediados graves pode ser necessário. Deve-se no entanto avaliar os riscos e benefícios, principalmente no caso de uso de imunossupressores no início da terapia anti-babesiose, pois o sistema mononuclear fagocitário é importante no controle da parasitemia e sua inibição nesta fase pode resultar em piora do quadro.

Pontos chave:


• A babesiose canina é causada por hemoprotozoários que parasitam as hemácias. No Brasil as espécies de maior importância são aquelas do grupo Babesia canis.
• A babesiose pode se manifestar como uma doença branda ou complicada na dependência da cepa infectante e da imunocompetência do hospedeiro.
• Os sintomas mais comuns em infecções por B.canis são letargia, febre, icterícia, vômito, linfoadenomegalia e esplenomegalia. Cepas mais fracas como B.canis vogeli podem não ocasionar alterações clínicas.
• Trombocitopenia e anemia são os achados laboratoriais mais comuns. Leucocitose com ou sem desvio ou ainda leucopenia podem ocorrer.
• O diagnóstico pode ser sorológico com o RIFI, porém reação cruzada entre as Babesias spp. pode ocorrer.
• O diagnóstico por PCR é um melhor indicativo de infecção ativa além de identificar a espécie do agente causador.
• O tratamento pode ser feito com as medicações dipropionato de imidocarb (5 a 6,6 mg/kg/IM em duas doses com intervalo de 14 dias) ou aceturato de diminazene (3,5 a 5 mg/kg/IM em dose única).

FEBRE MACULOSA

A febre maculosa é uma doença causada pela Rickettsia rickettsii, uma das rickettsias mais patogênicas. A doença é uma zoonose emergente e bastante grave, inclusive para os seres humanos que a contraem. Embora carrapatos da espécie Rhipicephalus sanguineus sejam implicados na infecção, aqueles da espécie Amblyomma cajennense, Amblyomma aureolatum e Dermacentor spp. também participam da transmissão. Por motivos não elucidados a infecção de um hospedeiro geralmente só ocorrerá em períodos mínimos de 5 a 20 horas após o carrapato ter se alimentado no mesmo. Após a transmissão, o agente se multiplica em células endoteliais dos vasos sanguíneos levando a uma intensa vasculite, aumento da permeabilidade vascular e hemorragia microvascular, resultando num agravamento progressivo da doença.

A febre maculosa é uma zoonose emergente e representa um grande risco à saúde pública. O médico veterinário exerce um importante papel para o diagnóstico definitivo dos casos suspeitos, alertando os tutores sobre os riscos de exposição aos vetores.

Manifestações clínicas e alterações laboratoriais

Apesar do período de incubação da doença variar de 2 a 14 dias, febre (que geralmente é a primeira manifestação clínica) pode ocorrer entre 2 a 3 dias após a exposição ao carrapato contaminado. Letargia, anorexia, vômito, diarreia, linfoadenomegalia, esplenomenomegalia também são achados comuns. Lesões cutâneas podem acontecer na fase aguda e se caracterizam principalmente por hiperemia e edema de extremidades como lábios, narina e orelhas. Relutância em caminhar também pode ocorrer principalmente em cães com poliartrite e miosite secundárias ao processo inflamatório. Igualmente pode aparecer uveíte e sinais de sangramento ocular. Necrose cutânea, equimose, hepatomegalia são achados mais comuns em animais severamente afetados. Cerca de 40% dos animais infectados desenvolvem alteração neurológica, que pode variar desde vestibulopatia até sinais mais graves relacionados a encefalomielite e meningite.

Os cães podem vir a óbito devido à formação de microtrombos em órgãos vitais ou ainda processo hemorrágico ou CID. Animais severamente afetados podem morrer em decorrência da progressão dos sinais neurológicos, choque cardiovascular e insuficiência renal aguda. As alterações laboratoriais variam de leve leucopenia até leucocitose por neutrofilia, desvios à esquerda e granulação tóxica. Trombocitopenia leve a moderada é comum devido à vasculite e destruição imunomediada. Anemia não regenerativa de grau leve também pode estar presente. As alterações bioquímicas mais comuns são hipoalbuminemia devido à vasculite ou nefropatia secundária. Enzimas hepáticas (principalmente ALT) e renais podem estar elevadas na dependência da afecção destes órgãos, secundárias às injurias de vasculite ou hipóxia. Hematúria e proteinúria também podem surgir devido a coagulopatias ou injuria glomerular e tubular renal. Os animais podem ainda apresentar hiponatremia e discreta hiperbilirrubinemia. As alterações na coagulação podem ser caracterizadas por prolongamento do TTPA e aumento do fibrinogênio.

Diagnóstico

Diversos métodos sorológicos foram sugeridos para o diagnóstico da febre maculosa como microimunofluorescência indireta, E.L.I.S.A. e aglutinação em látex. Estes testes tem a vantagem de ter uma alta sensibilidade, porém a titulação de IgG pode demorar até 3 semanas para ser detectável na dependência do teste escolhido. Resultados falso negativos são comuns na fase aguda da doença. O exame de PCR é o de eleição para o diagnóstico, entretanto a sensibilidade clínica é baixa (cerca de 60%) porque os microorganismos circulam no sangue periférico em baixas quantidades e de forma intermitente na fase aguda. Desta forma, resultados negativos não excluem a possibilidade de infecção.

Tratamento

O tratamento da febre maculosa é realizado com a doxiciclina, sendo este antibiótico efetivo para eliminar a infecção além de tratar outras comorbidades comumente associadas como A. platys e Ehrlichia spp. A dose é 5 mg/kg a cada 12 horas ou 10 mg/kg a cada 24 horas por 14 dias. Recomenda-se prolongar o tratamento para 28 dias devido a outras infecções que podem estar associadas.

Pontos chave:


• A febre maculosa é uma doença causada por uma das rickettsias mais patogênicas, a Rickettsia rickettsii
• Febre geralmente é a primeira manifestação clínica, mas sinais como hiperemia e edema de extremidades como lábios, narina e orelhas podem estar presentes.
• A doença pode ter uma evolução bastante grave com sinais neurológicos, coagulopatias como CID e nefropatia.
• O exame de PCR é o de eleição para o diagnóstico, porém como a parasitemia é baixa e intermitente, o exame tem uma baixa sensibilidade e resultados negativos não excluem a infecção.
• O fármaco de escolha é a doxicilina (5 mg/kg a cada 12 horas ou 10 mg/kg a cada 24 horas) por 14 dias, mas como coinfecções com outros hemoparasitas são comuns, recomenda-se estender o tratamento por no mínimo 28 dias.

MICOPLASMOSE FELINA

A micoplasmose felina ou hemoplasmose felina, até recentemente denominada hemobartonelose, teve seu nome alterado devido à reclassificação do agente causador (antes Haemobartonella haemofelis) para Mycoplasma haemofelis. As micoplasmas que parasitam as hemácias são denominadas micoplasmas hemotrópicas ou hemoplasmas. É importante saber dessa particularidade pois existe um grupo de micoplasmas não-hemotrópicas que podem ser responsáveis por infecções do trato respiratório em felinos. As hemoplasmas são bactérias atípicas, gram negativas, que parasitam as hemácias, podendo levar a um quadro de anemia hemolítica. Diversas espécies já foram detectadas nos gatos: Mycoplasma haemofelis, Candidatus Mycoplasma haemominutum, Candidatus Mycoplasma turicensis e Candidatus Mycoplasma haematoparvum.

A M. haemofelis é a mais patogênica e responsável pelos quadros mais clássicos de anemia hemolítica. Já a M. haemominutum é a hemoplasma mais comum entre os felinos. Aparenta ter um comportamento mais oportunista pois a maioria dos gatos apenas se apresenta no estado de portador assintomático.

Gatos com acometidos por M. haemofelis manifestam um quadro de anemia hemolítica que ocorre devido à destruição direta das hemácias pelo agente, pelo sistema mononuclear fagocitário (no baço e fígado) e eventualmente por fatores imunomediados que podem contribuir com a gravidade da doença.

A transmissão das hemoplasmas não está bem elucidada e, embora sempre tenha-se associado o processo a vetores como as pulgas da espécie Ctenocephalides felis, estudos recentes falharam em provar esta via de transmissão. Existe a hipótese de que a interação agressiva (brigas) entre gatos sadios e contaminados seja o provável método de transmissão.

Manifestações clínicas e alterações laboratoriais

Felinos que se infectam com a M. haemofelis manifestam sinais clínicos de anemia que pode variar de grau moderado a grave. Anorexia, perda de peso, febre, letargia, esplenomegalia e palidez de mucosas ou mucosas ictéricas são os achados mais comuns. Aumento de enzimas hepáticas principalmente ALT e FA também pode ser observado, especialmente em quadros mais graves de anemia devido à sobrecarga do sistema mononuclear fagocitário ou ainda por injúria hepática relacionada a hipóxia. A anemia esperada nos casos das hemoplasmoses por M. haemofelis deve mostrar sinais de regeneração como macrocitose e hipocromia. Reticulocitose com aumento do número de agregados também é esperado com a evolução da anemia, como resposta medular.

As espécies M. haemominutum e M. turisencis ocasionam uma anemia arregenerativa leve e a maioria dos animais é assintomática. Em quadros de agravamento da anemia recomenda-se investigar outras causas intercorrentes, principalmente doenças infecciosas virais como leucemia viral felina (FeLV) ou vírus da imunodeficiência felina (FIV), que podem levar a alterações medulares, prejudicando assim a resposta do organismo ao quadro anêmico.

Diagnóstico

O exame de escolha para as micoplasmas hemotrópicas é o de PCR, se possível em tempo real, devido à sua maior sensibilidade. Os exames de PCR também são os únicos capazes de diferenciar as espécies envolvidas. A identificação do parasita através do esfregaço sanguíneo também é válida, mas deve-se ter cuidado para diferenciar o achado de corpúsculos de Howel Jolly ou ainda de precipitados de corantes. Deve-se levar em consideração que a parasitemia é cíclica e que o animal geralmente se apresenta anêmico, com poucas hemácias circulantes, ou seja, um resultado negativo não excluirá o diagnóstico.

É importante elucidar que exames de PCR positivos para micoplasmose indicam infecção pelo parasita e não necessariamente confirmam o agente como causa principal da anemia.

Tratamento

O tratamento de eleição é a doxiciclina (10 mg/kg a cada 24 horas) durante 21 dias. Estudos recentes utilizando PCR em tempo real para acompanhamento das infecções sugerem tempos maiores de terapia para eliminação do agente, podendo ser necessárias portanto terapias tão longas quanto 8 semanas. Deve-se ter um cuidado especial com a administração da doxiciclina para gatos pois existe a possibilidade de esofagites e, consequentemente, risco de estenose esofágica. Como prevenção recomenda-se oferecer água ou alimento pastoso em uma seringa imediatamente após a administração da medicação. Dentre as fluorquinolonas, a marbofloxacina (2,75 a 5,5 mg/kg a cada 24 horas) e pradofloxacina (5 a 10 mg/kg a cada 24 horas) demonstraram eficácia e aparentemente são seguras, sem evidências de ocasionar degeneração de retina em gatos nas doses terapêuticas citadas.

O tratamento suporte com prednisolona pode ser necessário para o controle de processos imunomediados. Nestes casos recomenda-se a dose de 2 mg/kg a cada 24 horas até que haja resposta satisfatória. No entanto a maioria dos gatos se recupera sem o uso desta medicação. Transfusão sanguínea deve ser considerada apenas em casos mais graves de anemia, avaliando-se os riscos e benefícios envolvidos. Gatos utilizados para transfusão devem ser testados para doenças infecciosas, como FIV, FeLV e hemoplasmas, além de serem preferencialmente tipados. O procedimento de transfusão deve sempre ser precedido do teste de compatibilidade sanguínea, pois reações hemolíticas por incompatibilidade podem ser fatais na espécie.

Pontos chave:


• A M. haemofelis é a hemoplasma mais patogênica para os felinos, mas as espécies M. haemominutum e M. turisencis também podem ser responsáveis por anemias. São oportunistas e sua pesquisa faz parte do diagnóstico diferencial de anemia em gatos.
• A sintomatologia clínica da infecção pela M. haemofelis inclui anorexia, perda de peso, febre, letargia, esplenomegalia e palidez de mucosas ou mucosas ictéricas. Animais carreadores das hemoplasmas M. haemominutum e M. turisencis podem ser assintomáticos ou apresentarem leve anemia arregenerativa.
• Embora a visualização do parasita em lâminas de esfregaço sanguíneo seja possível, o diagnóstico definitivo das hemoplasmas felinas deve ser pelo exame de PCR.
• O tratamento de escolha é com a doxiciclina na dose de 10 mg/kg a cada 24 horas, tendo-se o cuidado de oferecer água ou alimento após administração do antibiótico para evitar o risco de esofagite.
• Em casos de falhas terapêuticas ou em processos anêmicos não regenerativos que se estendem por longo período mesmo na presença de tratamento adequado, deve-se considerar coinfecções por retroviroses como FeLV ou FIV.
• O prognóstico da micoplasmose felina de um modo geral é bom, com remissão completa do quadro para os gatos sem infecções ou doenças intercorrentes.

BARTONELOSE FELINA

A bartonelose felina é uma doença infecciosa que raramente causa alterações significativas nos gatos, mas tem grande importância para saúde pública por se tratar de uma zoonose, conhecida como “doença da arranhadura do gato”. Embora muitas espécies de Bartonella spp possam infectar humanos e animais domésticos como os gatos, a Bartonella henselae é a responsável por esta doença. As bartonelas são bactérias gram negativas intracelulares que infectam as hemácias e células endoteliais. O gato se infecta através da ingestão das fezes das pulgas da espécie Ctenocephalides felis. A transmissão direta entre gatos é improvável, mesmo pela via transplacentária. A bacteremia geralmente tem caráter crônico ou intermitente raramente ocasionando sintomatologia clínica. Os seres humanos se infectam pela inoculação da bactéria no foco da arranhadura e geralmente manifestam linfoadenopatia regional, próxima ao local da ferida.

Sendo difícil eliminar a condição de portadores, o melhor é prevenir a bartonelose em gatos através do controle dos ectoparasitas (pulgas).

Manifestações clínicas e alterações laboratoriais

A maioria dos gatos portadores não manifesta sintomatologia clínica. Entretanto alguns indivíduos podem apresentar manifestações clínicas que variam de grau leve, com febre e letargia, até sintomas bastante graves como endocardite (murmúrio cardíaco, tosse, taquipnéia), dores articulares e sinais neurológicos. Embora estudos demonstrem que a doença pode ter uma manifestação clínica mais importante em humanos imunocomprometidos, a patogenia em gatos infectados por retroviroses como FIV e FeLV parece não demonstrar o mesmo comportamento. Mais estudos são necessários para elucidar este aspecto da doença nos felinos.

Diagnóstico

A investigação nos felinos deve sempre ser realizada na vigência de contactantes humanos acometidos. A identificação do agente em lâmina de esfregaço sanguíneo não é viável e portanto considerado um método insensível para diagnóstico. Os métodos diagnósticos utilizados são o de cultura do agente e o de identificação por PCR. A cultura em meio especial exige um laboratório preparado para identificação do agente bem como a disponibilidade do meio de cultura adequado. Portanto o uso de PCR para identificação do agente é o método mais viável. Neste caso deve-se ter em mente o caráter intermitente da parasitemia, determinando a necessidade de coletas pareadas para um diagnóstico confiável.

Tratamento

Devido ao caráter intermitente e de resistência do agente, o tratamento da bartonelose e da eliminação do estado de portador nos felinos é um desafio. Recomenda-se iniciar o tratamento com a doxiciclina (10 mg/kg a cada 24 horas) ou amoxicilina com clavulanato de potássio (12,5 a 25 mg/kg a cada 8 horas) por pelo menos 4 a 8 semanas. Caso não haja resposta, pode-se considerar o uso de azitromicina (5 a 10 mg/kg a cada 24 horas) ou marbofloxacina (2,75 a 5,5 mg/kg a cada 24 horas).

Pontos chave:


• A Bartonella henselae é a bactéria responsável pela doença da arranhadura do gato, uma importante zoonose.
• A transmissão da bactéria para os felinos ocorre pela ingestão de fezes contaminadas da pulga da espécie Ctenocephalides felis.
• A maioria dos animais é assintomática mas alguns gatos podem desenvolver doença grave com presença de endocardite e sinais neurológicos.
• O diagnóstico pode ser por cultura do agente ou por PCR e deve ser considerado na vigência de contactantes humanos infectados.
• O tratamento é difícil, podendo ser necessário mais do que um ciclo de antibióticoterapia. Pode-se iniciar com a doxicilina (10 mg/kg a cada 24 horas) ou amoxicilina com clavulanato de potássio (12,5 a 25 mg/kg a cada 8 horas)

O número de casos documentados de erliquiose felina vem aumentando no Brasil. A patogenia não está totalmente elucidada. Acredita-se que a transmissão da doença aconteça através de infecção natural por artrópodes ou ingestão de roedores infectados, durante a caça. As manifestações clínicas mais comuns são febre, inapetência, perda de peso e letargia, dispneia, esplenomegalia, linfonodomegalia, descolamento de retina, petéquias e mucosas hipocoradas. As alterações laboratoriais mais comuns são anemia não regenerativa, leucopenia ou leucocitose, neutrofilia, linfocitose, monocitose, trombocitopenia e hiperglobulinemia. O diagnóstico definitivo é baseado na identificação da mórula do agente no esfregaço sanguíneo (raro) e PCR para Ehrlichia sp. O tratamento consiste na administração de doxiciclina na dose de 10 mg/kg durante 28 dias.

Pontos chave:


• Embora a erliquiose felina não seja tão frequente quanto a canina é uma doença emergente que deve ser considerada como causadora de morbidade para a espécie.
• Os sinais clínicos mais comuns são febre, perda de peso, dispneia, esplenomegalia, linfoadenomegalia, palidez de mucosas, descolamento de retina e petéquias.
• As alterações laboratoriais incluem anemia não regenerativa, leucopenia, trombocitopenia e heperglobulinemia.
• O diagnóstico deve ser pelo exame de PCR e o tratamento coma doxicilcina (10 mg/kg a cada 24 horas) durante 28 dias.

As hemoparasitoses são causas importantes de morbidade e mortalidade entre os cães e gatos e constituem um desafio aos médicos veterinários, pois as manifestações clínicas e laboratoriais são muito semelhantes entre si. Exames sorológicos como o E.L.I.S.A. e o RIFI são muito úteis na busca diagnóstica, sendo que este último apresenta uma sensibilidade muito maior e é particularmente útil na identificação de animais assintomáticos ou em fase subclínica. Entretanto alguns hemoparasitas como as hemoplasmas não são passíveis de serem diagnosticados por essas técnicas. O exame de PCR tradicional ou em tempo real tem uma maior probabilidade de refletir o estado de infecção ativa nos animais, mas acaba sendo mais sensível nas fases agudas das infecções. Apesar das hemoparasitoses serem tratáveis, muitos animais podem sofrer com as sérias consequências dessas doenças, precisando de acompanhamento para o resto da vida. Assim sendo a prevenção, através do controle dos vetores, é fundamental.


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