Dor crônica em gatos: pouco frequente ou subestimada?

Empresa

Agener União

Data de Publicação

16/04/2018

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Alexandre G. T. Daniel

  • • MV, Msc., DipABVP (Feline Practice)
  • • Gattos – clínica especializada em medicina felina
  • • Consultoria e atendimento especializado em medicina felina

Nos últimos quinze anos, houve um crescente aumento nas pesquisas, desenvolvimento e conhecimento sobre características dos processos geradores de dor na espécie felina.

No entanto, o número de fármacos autorizados para a espécie, bem como sua aplicabilidade clínica, ainda deixam muito a desejar, quando comparados aos existentes para a espécie canina.

Embora essas diferenças venham diminuindo, muitas das informações referentes à analgesia em gatos provêm de estudos sobre o uso de analgésicos peri-operatórios, bem como da avaliação de efetividade analgésica para processos causadores de dor aguda.

Em contraste com as condições geradoras de dor aguda (ou adaptativa), as condições geradoras de dor crônica (ou mal-adaptativa) em gatos são ainda pouco identificadas e/ou pesquisadas.

Com o crescimento da população felina como espécie de estimação, além do desenvolvimento de melhores cuidados veterinários, protocolos vacinais, dietas equilibradas e medicina preventiva, a expectativa de vida de nossos gatos aumentou muito nos últimos anos.

Em consequência, a população de animais nas faixas Sênior e Geriátrica vem gradualmente aumentando nas casas dos proprietários e, consequentemente, nas clínicas veterinárias.

Os processos de dor crônica são incrivelmente comuns nos pacientes geriátricos (mas não restritos somente a eles), e afetam significativamente a qualidade de vida.

Saber orientar os proprietários se na avaliação e reconhecimento de processos de dor crônica, bem como diferenciar as manifestações clínicas ocorrentes na espécie felina, são de fundamental importância, sendo cada vez mais exigidos pelos proprietários de gatos na atualidade.

Diversas são as razões pelas quais os processos de dor crônica em gatos não são reconhecidos e/ou tratados:

  • • O não reconhecimento da enfermidade existente como causadora de dor crônica na espécie;
  • • Dificuldade em identificar (ou mensurar) a dor na espécie felina;
  • • Ausência de fármacos aprovados ou estudados para a espécie;
  • • Medo de efeitos colaterais.

Exemplos de enfermidades causadoras de dor crônica em gatos:

  • Doença articular degenerativa (figura 1)
  • Neuropatia diabética (figura 2)
  • Pancreatite crônica
  • Alterações medulares
  • Gengivoestomatite crônica (figura 3)
  • Lesões reabsortivas dentárias
  • Cistite intersticial
  • Hipocalemia
  • Dor pós-amputações ou excisões neoplásicas extensas (como os sarcomas de sítio de aplicação e as mastectomias)
  • Queimaduras extensas
  • Avulsões teciduais
  • Uveítes

Figura 1. Paciente com displasia coxofemoral bilateral. Arquivo pessoal do autor.

Figura 2. Neuropatia diabética, condição crônica usualmente associada com dor, na qual o manejo analgésico é fundamental. Arquivo pessoal do autor.

Figura 3. Paciente com gengivoestomatite crônica e calicivirose associada. Esta condição é bastante frequente na clínica de felinos, com um manejo analgésico pré, trans e pós-operatório sendo crucial. Arquivo pessoal do autor.

Não se pode tratar o que não se reconhece

Muitos proprietários podem não perceber que seu gato tem dor crônica, em virtude das diferenças no reconhecimento da dor nesta espécie.

A avaliação, reconhecimento e manejo da dor crônica são tão importantes quanto outros procedimentos médicos e/ou cirúrgicos na manutenção de qualidade de vida e no aumento do tempo de sobrevida.

Gatos evoluíram como predadores solitários na natureza, sendo bastante independentes e territorialistas, fatores que explicam a notória habilidade em ocultar processos dolorosos.

A anamnese detalhada é uma das principais ferramentas na avaliação de dor crônica em gatos, visto que as principais alterações manifestadas pela espécie podem ser confundidas com “senilidade” e “idade avançada”.

A dor crônica costuma gerar diversas alterações comportamentais, de hábitos alimentares e eliminação, higiene de pelame e mobilidade.

Alterações comportamentais

Gatos com dor crônica podem apresentar alterações comportamentais e/ou de mobilidade, que podem passar despercebidas pelo proprietário, ou ainda pior, ser consideradas como alterações relacionadas à “velhice” (velhice não é doença!).

As principais alterações comportamentais e de mobilidade estão resumidas na tabela ao lado:

Alterações comportamentais

  • Redução de atividade
  • Irritabilidade
  • Mudança dos locais de sono/descanso
  • Diminuição da higienização do pelame
  • Redução da ingestão alimentar/hídrica
  • Lambedura excessiva de sítios álgicos (figura 4)
  • Eliminação inapropriada
  • Constipação
  • Diminuição da arranhadura

Alterações da mobilidade

  • Dificuldade em achar posição confortável para dormir
  • Redução dos saltos
  • Dificuldade em transpor obstáculos
  • Relutância em subir ou descer de locais habituais
  • Perda da agilidade/leveza
  • Andar relutante/arqueado
  • Modificação postural (figura 5)

Figura 4. Alopecia em abdome ventral em paciente com artrose lombo-sacra, de origem autoinduzida. Arquivo pessoal do autor.

Figura 5. Paciente com doença articular degenerativa lombo-sacra, com postura que evidencia desconforto em encontrar posição para se sentar.

Doença articular degenerativa: uma causa comum de dor crônica na espécie!

A doença articular degenerativa (DAD) vem sendo cada vez mais descrita e estudada na espécie felina, sendo considerada a causa mais comum de dor crônica em gatos.

A maioria dos modelos terapêuticos, bem como protocolos de analgesia multimodais na dor crônica, são aplicados principalmente na DAD.

Gatos não são cães pequenos, e a DAD é um excelente exemplo disso, com as manifestações clínicas bem diferenciadas e, na maioria dos casos, sendo interpretadas como “envelhecimento” pelos proprietários.

Alguns estudos sugerem que 20 a 90% dos gatos podem ter DAD, sendo mais frequente em animais idosos, os quais as manifestações clínicas mais relatadas são aquelas relacionadas à mobilidade e alterações comportamentais.

Opções de tratamento da dor crônica

É de fundamental importância reconhecer muitos processos patológicos comumente encontrados na clínica, não somente como causadores de dor aguda, mas também como geradores de dor crônica.

O reconhecimento e diagnóstico são fundamentais para um correto manejo terapêutico.

Embora com poucos protocolos e fármacos validados para a espécie, o manejo farmacológico continua sendo a forma mais importante no tratamento da dor crônica em gatos.

Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) continuam como a primeira linha terapêutica, não somente pelo fato de serem os fármacos mais estudados e com comprovação de eficácia em gatos, mas também em virtude de que a maioria das causas de dor crônica em gatos tem origem inflamatória.

Alguns fármacos, como o meloxicam, já possuem protocolos bem estudados e validados para uso a longo prazo em gatos, com excelente eficácia, inclusive em pacientes com doença renal crônica em estágios II e III, desde que corretamente estabilizados e avaliados.

Os corticoides devem ser evitados, pelo fato de reduzirem a síntese de proteoglicanos e por promoverem a degeneração cartilagínea; também é contraindicado seu uso concomitante com os AINEs.

Fármacos como a gabapentina, tramadol e a amantadina também possuem excelente aplicabilidade.

Outras opções terapêuticas (não farmacológicas) envolvem acupuntura e reabilitação física, manejo e adaptação ambiental e uso de suplementos com características teóricas de atividade anti-inflamatória (como o ômega-3, por exemplo).

Tabela – Fármacos utilizados para manejo de dor crônica em gatos