Enfermidades transmitidas por vetores: leishmaniose visceral canina no Brasil

Empresa

Bayer

Data de Publicação

31/12/2000

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Dra. Ingrid Menz

Graduação pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (USP). Doutorado em Virologia e Diagnóstico pela Faculdade de Medicina Veterinária de Hannover, Alemanha. Consultorias em Imunobiológicos e Medicamentos contra a Leishmaniose Visceral Canina.

Introdução

Enfermidades transmitidas por vetores são aquelas que não passam diretamente de uma pessoa ou de um animal para outro; requerem a participação de agentes transmissores, geralmente, insetos. Portanto, são doenças infecciosas não contagiosas. Os vetores são os responsáveis pela veiculação biológica de parasitos e microrganismos ao homem e a animais domésticos. No Brasil, inúmeras doenças são transmitidas por vetores aos humanos, com destaque para dengue, malária, doença de Chagas, leishmaniose, febre amarela e esquistossomose.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença mais letal causada por vetor é a malária. Entretanto, a patologia que mais vem crescendo, em número de vítimas no mundo, é a dengue, cuja incidência aumentou 30 vezes nos últimos 50 anos. Há poucas opções de tratamento disponíveis para essas patologias e parte dos medicamentos apresenta toxicidade, podendo causar lesões hepáticas e renais, além de morte. Daí a importância de diagnosticar e iniciar o tratamento precocemente, o que nem sempre é realizado devido à confusão com outras enfermidades, de sintomas semelhantes.

Na área veterinária, há grande empenho por parte de empresas farmacêuticas em buscar soluções que evitem que animais se infectem ou transmitam a enfermidade, caso sejam suspeitos de terem sido contaminados.

Nos animais, os principais vetores de enfermidades são carrapatos, pulgas e os flebotomíneos, transmissores de enfermidades importantes, sendo algumas zoonoses. Os parasitas mais comumente transmitidos são Anaplasma platys, Babesia canis vogeli, Bartonella spp., Hepatozoon canis, Ehrlichia canis, Dipylidium caninum e Leishmania sp.

Carrapatos

No Brasil, o carrapato mais comum encontrado em cães é o Rhipicephalus sanguineus, também chamado de carrapato vermelho do cão, sendo o maior responsável pela transmissão da Ehrlichia canis. O R. sanguineus também já foi descrito como causador de parasitismo humano em Recife, Pernambuco.1 Também pode transmitir Coxiella burnetii, Rickettsia conorii e Rickettsia rickettsii, tendo, assim, caráter zoonótico.

O gênero Ehrlichia atualmente compreende cinco espécies válidas: E. canis, E. chaffeensis, E. ewingii, E. muris e E. ruminantium. São bactérias Gram negativas, parasitas intracelulares obrigatórios, principalmente monócitos e macrófagos.

No Brasil, a E. canis, responsável pela erliquiose monocítica canina, é considerada endêmica, principalmente nas áreas urbanas, onde há grande quantidade do carrapato vetor, R. sanguineus, principalmente nas regiões Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste. O R. sanguineus sobrevive em regiões tropicais e subtropicais, refugiando-se principalmente em áreas abrigadas como muros e paredes com frestas e rachaduras, onde, preferencialmente, coloca seus ovos. Essa espécie de carrapato realiza seu desenvolvimento em um só hospedeiro, mas excepcionalmente pode se adaptar a outros, comprovando a adoção de diferentes estratégias de sobrevivência. Seus locais preferidos de fixação no cão são a cabeça, principalmente a região interna da orelha, o espaço interdigital, as regiões lombar e inguinal e as axilas. Permanece fixado, alimentando-se, de dois dias a várias semanas, conforme o estádio de desenvolvimento. Sua fixação no hospedeiro é menos intensa do que a dos carrapatos das espécies Amblyomma e Ixodes.

A erliquiose e a babesiose são comuns no Brasil, ambas transmitidas pelo R. sanguineus. Babesia canis é um parasita intraeritrocítico e causa uma enfermidade hemolítica, enquanto Ehrlichia canis é, obrigatoriamente, intracitoplasmático, replicando-se nos linfonodos em macrófagos mononucleares, assim como Leishmania (Leishmania) infantum. Comprovou-se, também, uma alta taxa de coinfecção das três enfermidades,2 apesar da possibilidade de alguma reação cruzada em alguns testes diagnósticos sorológicos.

A prevenção de carrapatos em cães deve incluir a pulverização de muros, casinhas e todo o ambiente onde eles vivem, além do uso de inseticida tópico, como pipetas, sprays e coleiras impregnadas. Em gatos, é raro observar a presença de carrapatos, pelo hábito de limpeza, pois lamber o próprio pelo reduz ou elimina totalmente os insetos de seu corpo. Gatos que apresentam carrapatos não se lambem, o que geralmente leva a supor que sejam portadores de enfermidades crônicas, como insuficiência renal, ou infecciosas graves, como imunodeficiência felina (FIV), leucemia felina (FeLV), entre outras.

Pulgas

As pulgas, mais comumente Ctenocephalides felis, e os piolhos, como o Trichodectes canis, são um achado relativamente frequente em animais silvestres, de produção, cães e gatos, espoliando, estressando e veiculando enfermidades entre os animais e o homem. Na fase parasitária, as pulgas permanecem sobre os hospedeiros realizando a hematofagia e a postura. As do gênero Tunga penetrans apresentam, como particularidade, o fato de as fêmeas penetrarem no tecido cutâneo quando da realização da postura de ovos, ocasionando o vulgarmente conhecido “bicho de pé”. As pulgas (Ctenocephalides spp.) acometem principalmente cães e gatos, podendo veicular biologicamente o Dipylidium caninum, helminto (verme chato – cestódeo) que apresenta, em uma de suas fases de desenvolvimento, uma larva cisticercoide no tecido muscular da pulga, que, uma vez ingerida pelo cão ou gato, quando este se coça ou se lambe, possibilita a infecção intestinal de cães e crianças.

Pulgas também transmitem bactérias para humanos e animais, como Yersinia pestis, Rickettsia felis, Rickettsia typhi e Bartonella henselae, esta causadora da doença da arranhadura do gato.

A prevenção, com o uso de inseticidas no cão, é a maneira mais eficaz de diminuir e até de eliminar totalmente os vetores dos animais. O ambiente sempre deve ser tratado com frequência, pois é o local onde os insetos se reproduzem e onde estão 95% dos parasitos transmissores.

O uso de uma nova coleira inseticida com indicação para gatos é recomendado, pois há testes de segurança e eficácia realizados nessa espécie animal, especificamente.

Nota: No Brasil, o carrapato mais comum encontrado em cães é o Rhipicephalus sanguineus, também chamado de carrapato vermelho do cão, sendo o maior responsável pela transmissão da Ehrlichia canis.

Flebotomíneos: vetores das leishmanioses visceral e tegumentar

Apesar de serem moscas, os flebotomíneos também são conhecidos como mosquito-palha, cangalhinha ou birigui, dependendo da região. As fêmeas alimentam-se geralmente ao anoitecer. Mais de 900 espécies de flebotomíneos já foram descritas no planeta, sendo aproximadamente 500 as que ocorrem no Novo Mundo. Habitam diferentes ambientes, de campos, savanas e desertos a florestas tropicais, onde se encontra a maior biodiversidade desse grupo de insetos. Utilizam como abrigos locais protegidos de variações climáticas, estando associados a tocas de animais, fendas de rochas, cavernas, ocos de árvores e o peridomicílio humano, sempre com umidade elevada, pouca circulação de ar, pouca luz e riqueza de matéria orgânica. São insetos holometábolos, com larvas terrícolas, fêmeas hematófagas e fitófagas e machos exclusivamente fitófagos, os quais, na fase adulta, vivem em média de 20 a 30 dias.

A leishmaniose visceral canina (LVC), no Brasil, é transmitida pela Lutzomyia longipalpis e pela Lutzomyia cruzi, que são zoofílicas e antropofílicas, dependendo da presença do hospedeiro, sendo excelentes transmissores de patógenos como Leishmania infantum chagasi, interligando o ciclo com o homem. Têm baixa dispersão de voo, tendo as espécies do Novo Mundo um alcance médio menor do que 100 metros, e as do Velho Mundo, ao redor de 500 metros.3

Cão apresentando dermatite necrolítica de extremidades e linfadenomegalia, causadas pela leishmaniose visceral canina

As leishmanioses são enfermidades infecciosas não contagiosas de quadros clínicos cutâneos e/ou viscerais, causadas por protozoários tripanossomatídeos do gênero Leishmania sp., que parasitam células do sistema fagocítico mononuclear de mamíferos, onde as formas amastigotas se reproduzem. Os protozoários atingem órgãos como fígado, baço, medula óssea, entre outros, estando presentes também em linfonodos e na pele, local em que o flebotomíneo se infecta com amastigotas do hospedeiro durante o repasto sanguíneo. No tubo digestivo do inseto vetor, as leishmânias passam à forma promastigota e, após 7 a 14 dias, são transmitidas a outro hospedeiro quando do segundo repasto sanguíneo.

A leishmaniose visceral e a forma tegumentar afetam populações humanas em diferentes partes do mundo tropical, subtropical e temperado provavelmente há séculos, especialmente nas regiões mais pobres do planeta. As formas cutâneas são endêmicas em 88 países, sendo 72 destes em desenvolvimento, com cerca de 1,5 a 2 milhões de novos casos anuais. As formas viscerais têm 90% de seus novos casos humanos originados em Bangladesh, Índia, Nepal, Sudão e no Brasil, causando aproximadamente 500 mil novos casos e em geral 60 mil mortes por ano.

Leishmaniose tegumentar americana em humano

Existem mais de 30 espécies distintas de Leishmania descritas no mundo. O subgênero Leishmania está presente no Velho e no Novo Mundo, enquanto o subgênero Viannia é exclusivo das Américas. No Brasil, as leishmanioses eram, originalmente, zoonoses de mamíferos selvagens, mas vêm se adaptando perfeitamente ao meio urbano, infectando cães, humanos, gatos e outros animais silvestres que convivem em área urbana, como as cuícas (Didelphis spp.).4

As principais espécies de Leishmania, em relação ao número de casos humanos no Brasil, são a Leishmania (Viannia) braziliensis, principal agente etiológico da leishmaniose tegumentar americana (LTA), além de L. amazonensis, L. guyanensis, L. braziliensis e a Leishmania (Leishmania) infantum chagasi, agente causador da leishmaniose visceral americana (LVA).5

As alterações ambientais, como os desmatamentos, com posterior ocupação humana do entorno, aproximam o ser humano de ciclos enzoóticos selvagens, facilitando a transmissão de Leishmania via flebotomíneos que se adaptam ao meio ambiente alterado, chegando, inclusive, a manterem transmissões em áreas estabelecidas há décadas, como muitos dos casos de LTA causados por Leishmania (Viannia) braziliensis. A LVA, caracterizada por estar originalmente ligada ao meio rural do Nordeste brasileiro, vem expandindo sua distribuição e número de casos humanos em direção ao centro-sul do país, com ciclos de transmissão de Leishmania (Leishmania) infantum chagasi, registrados de forma crescente em grandes centros urbanos dos estados do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, chegando à região Sul do Brasil, no município gaúcho de São Borja, e ainda ao Paraguai e à Argentina.

Cão com leishmaniose tegumentar – úlcera e crostas estáveis na face interna das orelhas, causada por Leishmania (Viannia) braziliensis

Nota: Com relação ao cão, as medidas profiláticas incluem o uso individual de pipetas, spray e coleiras impregnadas com inseticidas, telas antiafídeo em canis individuais e coletivos, além da condução das políticas municipais de controle reprodutivo e populacional de animais.

Os hospedeiros animais, no caso da LTA, são principalmente mamíferos selvagens, sendo os registros de animais domésticos parasitados, como o cão e equídeos, considerados hospedeiros terminais de infecções acidentais sem importância significativa na manutenção do parasita e na transmissão para o humano. Portanto, no diagnóstico da leishmaniose tegumentar, não é exigida a eliminação do cão. No caso da LVA, doença emergente e em expansão territorial no Brasil e ausente no estado de São Paulo até 1998, o cão é hospedeiro altamente suscetível à doença e considerado o principal reservatório do agente etiológico para o homem, embora outras espécies de animais selvagens e domésticas já tenham sido reportadas infectadas.

Acredita-se que a rota de expansão e disseminação da LVA nesse estado ocorreu do sentido leste, onde se situa Corumbá, na divisa com a Bolívia, ao oeste, onde se situa Três Lagoas, na divisa com o estado de São Paulo.

Medidas preventivas contra as leishmanioses humanas incluem o uso de repelentes; a colocação de telas antiafídeo (< 1 mm); a não exposição nos horários de maior atividade do vetor; a limpeza e o manejo ambiental de quintais e terrenos com retirada de matéria orgânica; a poda de árvores e o recolhimento de frutos em decomposição para aumentar a insolação do solo, combatendo eventuais criadouros de flebotomíneos; o distanciamento de abrigos de animais domésticos do domicílio, principalmente galinheiros; e a instalação de residências a mais de 400 metros de áreas de vegetação preservada e matas. Galinhas são consideradas hospedeiros finais, portanto não transmitem, mas são, geralmente, o alimento preferido dos insetos vetores da LVC, que se reproduzem nos excrementos e materiais em decomposição da cama dos galinheiros.

Em áreas endêmicas, casos de febre persistente, principalmente em crianças e idosos, devem ser relatados imediatamente ao médico. Se a LVA não for tratada precocemente, haverá comprometimentos hepático, esplênico e renal e morte. Além disso, o uso de antimoniais pode ser um tratamento bastante agressivo que, em casos graves, também pode matar.

Com relação ao cão, as medidas profiláticas incluem o uso individual de pipetas, spray e coleiras impregnadas com inseticidas, telas antiafídeo em canis individuais e coletivos, além da condução das políticas municipais de controle reprodutivo e populacional de animais. O uso de vacinas contra a LVC também deve ser realizado rotineiramente, com a frequência indicada na bula dos produtos.

Com base nesses princípios, o controle da LVC no Brasil é regulamentado pelo Decreto Federal no 51.838, de 14 de março de 1963, que estipula normas técnicas para o combate às leishmanioses, propondo a eliminação de cães doentes.

Falhas na eficácia dos programas de controle da LVC incluem o longo período entre o diagnóstico e a eliminação do cão reservatório, a baixa sensibilidade dos testes sorológicos, a reposição dos cães eliminados,6 o acesso parcial à população canina infectada (OMS, 2010), a oposição do proprietário na remoção do animal e, muitas vezes, a exigência de contraprova e de testes parasitológicos para a confirmação do resultado, além da existência de outros reservatórios animais que não o cão.

Embora exista há mais de 50 anos, o programa brasileiro de controle da LVA é ineficaz, sendo que o número de casos humanos da doença cresce no país, além da expansão territorial marcante observada na última década por diferentes estados da nação.

Os cães e canídeos selvagens podem apresentar parasitismo cutâneo por amastigotas de Leishmania, mesmo sem apresentar qualquer sintoma clínico da doença, o que aumenta a possibilidade de transmissão. Mas a presença do inseto vetor é primordial, sem o qual não há possibilidade de transmissão. O uso de inseticidas tópicos, spray ou coleiras impregnadas em cães saudáveis e também em cães suspeitos ou em tratamento é importante para evitar a aproximação (efeito repelência) e a alimentação (efeito inseticida) das fêmeas de Lutzomyia. O uso de produtos com poder inseticida evita que as fêmeas de flebotomíneo se ingurgitem e que haja transmissão ao cão e a partir do cão. Machos não têm importância na transmissão, por não se alimentarem de sangue.

A doença, quando introduzida em área indene, acomete primeiramente o cão, sendo uma etapa prévia à aquisição da enfermidade pelo ser humano e a prevalência de infecção no cão maior do que no homem. Um dos pontos cruciais no combate à LVA é a detecção dos animais infectados. O diagnóstico da infecção canina é complexo, baseado em aspectos clínicos e laboratoriais, incluindo provas parasitológicas indiretas e diretas de detecção do parasita.

No cão, a leishmaniose visceral é uma doença multissistêmica com sinais clínicos variados, o que dificulta seu diagnóstico, especialmente em áreas onde a doença não é endêmica. Os sinais clínicos mais comuns são emagrecimento, atrofia muscular generalizada, linfadenomegalia, crescimento excessivo das unhas (onicogrifose, perionique) e dermatites ulcerativas, esfoliativas, nodulares e pustulares. Esplenomegalia, artrite, lesões oculares (ceratites, uveítes, blefarites e outras) e hemorragias (trombocitopenia, anemia, pancitopenia) também são observadas.7

Cão jovem com dermatite

Cão com lesões oculares diversas

Cão com lesões no focinho

Devido à imunossupressão, cães podem apresentar sarna demodécica, que, mesmo tratada, retorna em pouco tempo. O uso de corticosteroides pode agravar as dermatites, e enfermidades concomitantes, como a erliquiose, são bastante comuns. Outros sinais clínicos podem confundir-se com diferentes enfermidades, como o endurecimento do coxim plantar, diarreias crônicas, distúrbios locomotores, distúrbios neurológicos e insuficiência renal.

O grande desafio no diagnóstico da infecção pela Leishmania (Leishmania) infantum chagasi é a utilização de um método que seja 100% sensível na detecção dos cães infectados, específico o suficiente para conferir resultado positivo aos infectados pelo parasita sem reações cruzadas com outros agentes etiológicos, que tenha 100% de repetibilidade, que seja de fácil execução, que seja conduzido com materiais biológicos de fácil coleta, que seja possível de ser conduzido em massa e que seja barato para uso em campanhas públicas e em grande escala.

Mas esse método diagnóstico idealizado atualmente não existe.

Os métodos utilizados para o diagnóstico da infecção canina em inquéritos epidemiológicos baseiam-se no uso dos kits oficiais ELISA Bio-Manguinhos e DPP (Dual Path Platform) – antígeno recombinante K28 (rK26 e rK39) de L. chagasi – teste imunocromatográfico de fácil leitura e possibilidade de realização na frente do proprietário. Sempre confirmar com testes parasitológicos.

A RIFI (reação de imunofluorescência indireta) Bio-Manguinhos não está em uso desde o final de 2012 por ser um exame subjetivo e demorado para leitura. Todos esses testes estão registrados junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Tanto o ELISA quanto a RIFI são produzidos com antígenos completos, o que possibilita reações cruzadas, em especial com os antígenos da leishmaniose tegumentar, o que não obriga a eliminação do cão infectado. Não há, em laboratórios privados, testes que diferenciem a LVC da LTA, mas alguns métodos sorológicos têm evoluído com o passar dos anos, utilizando antígenos purificados e/ou recombinantes, o que certamente aumenta a qualidade deles, mas reações cruzadas com outros protozoários tripanossomatídeos, como Leishmania causadora de quadros cutâneos e Trypanosoma, ainda ocorrem.

Nota: Os sinais clínicos mais comuns são emagrecimento, atrofia muscular generalizada, linfadenomegalia, crescimento excessivo das unhas (onicogrifose, perionique) e dermatites ulcerativas, esfoliativas, nodulares e pustulares.

São também preconizadas técnicas diretas de visualização do parasita por meio de esfregaços de aspirados de linfonodos e medula óssea, principalmente do esterno. Um resultado citológico positivo combinado a sinais clínicos da LVC, em conjunto com a sorologia positiva, pode fechar o diagnóstico.8 Mesmo assim, lesões ulcerativas de pele em área de leishmaniose tegumentar podem ser positivas nos três métodos e devem ser diferenciadas com testes moleculares específicos.

Vários pontos frágeis podem ser identificados nos elos da cadeia que culminam com o resultado final de uma prova diagnóstica: o fator humano que processa a coleta, a identificação, o armazenamento e o transporte de uma amostra biológica do campo para o laboratório; a conservação, identificação da amostra, seu processamento, leitura, registro do resultado e emissão do laudo no laboratório; o tempo transcorrido entre a coleta da amostra, a emissão do laudo final e o retorno ao local de residência do animal, com a sua correta identificação no domicílio. Neste último ponto, a remoção dos animais infectados deveria ser realizada alguns dias após a coleta das amostras biológicas, e não semanas ou meses, como ocorre na realidade brasileira. Mesmo assim, deveriam ser realizados contraprova e exame citológico para confirmação definitiva da enfermidade, principalmente quando o cão é assintomático. O diagnóstico da enfermidade deve ser feito de forma complementar, entre os achados clínicos, os métodos sorológicos e as provas diretas.9

Equipes de campo e de laboratório motivadas, treinadas de forma adequada, com conhecimento sobre a epidemiologia da doença e humanizadas, utilizando equipamentos de proteção individual, aparelhos e materiais descartáveis são peças-chave para um programa de controle adequado de qualquer zoonose. A equipe de campo deve ser capaz de realizar uma correta abordagem dos proprietários, uma correta contenção dos animais, bem como a coleta, a identificação e o transporte das amostras biológicas. No laboratório, a identificação das amostras e a leitura correta dos resultados são fundamentais, especialmente em provas de caráter subjetivo como a RIFI, em que o fator humano influencia a sensibilidade e a especificidade final do método.

A qualidade do método diagnóstico é um ponto-chave no diagnóstico da doença. A quantidade de resultados falsos positivos, em que se eliminam cães saudáveis, e falsos negativos, em que se conservam os infectados,10 influencia a eficácia do programa em reduzir as incidências da doença nos animais e no ser humano e, como consequência, a credibilidade das ações junto à sociedade, em especial pelo fato de envolver questões de laço afetivo das pessoas com os cães, muitas vezes considerados membros da família.

Os métodos parasitológicos diretos são considerados a prova-ouro para o diagnóstico da infecção (BRASIL, 2006), com a visualização de amastigotas em amostras de linfonodo, medula óssea, baço, fígado e pele. Algumas dessas técnicas, porém, são invasivas e necessitam de técnicos experientes.

As técnicas de diagnóstico molecular foram, e ainda são, recebidas com grande entusiasmo pela comunidade científica. Técnicas que detectam o DNA do parasita, em quantidades por vezes correspondentes a menos do que uma célula amastigota na amostra, mostram alta sensibilidade e especificidade, possibilitando inclusive a identificação ao nível específico da Leishmania infectante. Apesar da alta qualidade das técnicas de diagnóstico molecular, os custos elevados relacionados a elas ainda as tornam impraticáveis para uso no diagnóstico em massa para os inquéritos epidemiológicos preconizados pelo Programa Nacional de Controle da Leishmaniose Visceral. O fato de encontrar DNA em amostras de cão de área endêmica não demonstra, necessariamente, que esse animal desenvolverá a enfermidade ou que ele seja obrigatoriamente transmissor. Só demonstra que o animal foi picado e tem DNA presente, que pode ser viável ou não, ou seja, teve contato com um flebotomíneo infectado.

Na prática, o veterinário, quando em consulta com um cão suspeito, originário de área endêmica, deve realizar primeiramente um teste sorológico (ELISA, DPP ou, ainda, RIFI com diluição total). Se positivo, deve coletar medula óssea ou linfonodo para teste parasitológico direto e confirmar o diagnóstico, sempre levando em conta os sinais clínicos e o histórico do cão. Geralmente, não é necessário realizar a PCR. Na Europa, onde a LVC também é endêmica, os veterinários clínicos enviam amostras de medula óssea ou linfonodos para a realização da qPCR (também chamada PCR quantitativa ou PCR em tempo real), para acompanhar a melhora ou a piora da enfermidade e os resultados do tratamento, permitido naquele continente. No Brasil, o tratamento com produtos específicos leishmanicidas (Glucantime® e anfotericina B) de uso humano é proibido, além do uso de produtos de uso veterinário não licenciados pelo MAPA (Portaria Interministerial no 1.426, de 11 de julho de 2008).

Nota: O uso de repelentes e inseticidas, em diversas apresentações, deve ser a primeira opção para reduzir a população de vetores. A repelência é importante para impedir que o inseto se aproxime, pouse e consiga picar o animal

Estudos com produtos leishmanicidas de uso veterinário são incentivados pela OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde), portanto espera-se que as publicações sobre tratamentos de cães no Brasil, com produtos com indicação para essa espécie, sejam passíveis de aprovação e obtenção de registro no MAPA.

A eliminação de cães positivos sorologicamente é polêmica do ponto de vista dos proprietários de cães infectados e dos clínicos veterinários, enquanto guardiões da saúde dos animais de companhia.

Um estudo de modelagem matemática aponta que o controle do vetor é a ferramenta mais importante e rápida na redução da transmissão e no controle da enfermidade; a vacinação canina e humana é a segunda medida mais importante na redução da incidência da doença em humanos; o tratamento com drogas leishmanicidas é a terceira em importância; e a eutanásia de cães soropositivos deveria ser, em escala de importância, a última a ser adotada como medida única.11

O veterinário clínico é colocado diante de um dilema profissional, pessoal e ético quando se encontra diante de um animal doente em que a suspeita clínica de LVC é confirmada pelos testes sorológicos e parasitológicos. A legislação vigente indica que o médico veterinário realize a eutanásia do animal em nome da saúde pública. Por outro lado, também deve zelar pela saúde dele, não medindo esforços para tal. Outra situação bastante delicada é quando o resultado do teste sorológico de um cão, aparentemente sadio, é reagente a antígeno de Leishmania sp. Ou, ainda, dois testes divergentes que confundem proprietário e veterinário. O que fazer em situações como essas? Inúmeras questões são levantadas, como a confiabilidade do resultado, a necessidade de testes adicionais, a conduta clínica a ser adotada caso o diagnóstico esteja correto. Os clínicos compartilham com os responsáveis pelos animais a angústia da incerteza quanto ao destino do cão, a ser imposto pelas autoridades sanitárias.

O uso de repelentes e inseticidas, em diversas apresentações, deve ser a primeira opção para reduzir a população de vetores. A repelência é importante para impedir que o inseto se aproxime, pouse e consiga picar o animal. O poder inseticida é muito importante, pois o vetor morre ao encostar ou picar o animal. Esse fato reduz significantemente a população de vetores do ambiente, levando-se em conta que o controle ao flebotomíneo é realizado com mais sucesso nas formas adultas. A prevenção deve ser incentivada sempre, em áreas não endêmicas e endêmicas.12

A vacinação de cães é uma ferramenta que deve ser associada às demais medidas já adotadas para o controle da doença, para que se possa alcançar o máximo de eficácia no controle da infecção no cão e no homem, por tratar-se de prevenção.13