Nutrição funcional

Empresa

Bayer

Data de Publicação

31/12/2000

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Dr. Luís Fernando de Moraes CRMV-SP 14.347

Coordenador do Curso de Nutrologia Veterinária e Nutracêuticos da Sociedade Paulista de Medicina Veterinária

Dr. Leandro Pellegrini CRMV-SP 14.516

Médico Veterinário Clínico de Pequenos Animais.

Definição

A nutrição funcional é uma ciência interativa, com fundamento científico, que visa aos aspectos bioquímicos a fim de promover o equilíbrio fisiológico, endócrino e bioquímico. Sua aplicação clínica busca os sistemas de base do funcionamento do corpo por meio de sinais e sintomas que forneçam as ferramentas para o organismo expressar o seu estado de saúde por intermédio da nutrição e da suplementação. A importância da nutrição funcional é conhecida há muito tempo. Hipócrates, 400 a.C., dizia que “o remédio era o que comíamos e o que comíamos era o nosso remédio”. Em 1955, Roger Williams declarava que “a origem molecular das doenças ocorria por variações anatômicas e fisiológicas individuais com respostas únicas de cada indivíduo em relação aos aspectos ambientais envolvidos”. Mais recentemente, em 1993, Jeffrey Bland concretizou o termo “nutrição funcional”, que resgatou conceitos bioquímicos e nutricionais unidos aos conhecimentos farmacológicos, patológicos e fisiológicos, formando uma estratégia única e ampla de saúde.

Esse conhecimento nutricional, com a descoberta do genoma, proporcionou aos animais de companhia maior expectativa e qualidade de vida. Por meio dos nutrientes ingeridos, os genes podem ser expressos ou inibidos, modificando as características do fenótipo. A nutrição é o fator que mais interfere na epigenética, ou seja, o alimento pode ser veneno ou remédio. A genômica nutricional estuda esses mecanismos, sendo composta pela nutrigenética e pela nutrigenômica. A nutrigenética analisa as variações genéticas individuais na resposta à dieta e nutrição, enquanto a nutrigenômica avalia o efeito dos componentes bioativos da dieta na expressão de genes e suas consequências nas funções bioquímicas e fisiológicas. Diante dessa nova realidade nutricional, temos um novo conceito de atuação médica com relação à prevenção e ao tratamento de doenças crônicas degenerativas e pacientes geriátricos, visando ao reequilíbrio da saúde por meio de técnicas que resgatem conhecimentos da bioquímica, fsiopatologia, endocrinologia e nutrição. A mudança no estilo de vida com reprogramação alimentar, suplementação, exercícios físicos e combate a disbiose (desequilíbrio da microbiota gastrintestinal), oxidação, glicação e inflamação crônica demonstra cientificamente a melhora dos pacientes como um todo, rejuvenescendo-os e retardando a evolução das diversas doenças crônicas degenerativas.

Essa terapia atua como um importante complemento terapêutico, propiciando aos nossos pets melhores resultados em diversas situações clínicas, como cardiopatias, artroses, hepatopatias, diabetes, disfunção cognitiva, câncer, disbioses, dermatopatias, alergias, viroses felinas, disfunções neurológicas, disfunções endócrinas e pacientes críticos, entre outras.

Funcionalidade

A saúde do organismo depende diretamente dos nutrientes ingeridos, e esse processo envolve inúmeras etapas que irão garantir a biodisponibilidade deles e nas quais estão envolvidas a ingestão, a digestão, a absorção, o transporte, a utilização e a excreção. Qualquer alteração em um desses processos resulta em mudanças nas necessidades diárias de cada nutriente, e as carências poderão ser ajustadas por meio da suplementação adequada de nutrientes, de forma individual.

Quadro 1 - Principais estratégias abordadas pela nutrição funcional

Considerar a individualidade bioquímica e histórica familiar quando possível
Verificar a integridade intestinal
Investigar a presença de alergias ou de intolerâncias alimentares que contribuem para o processo de inflamação crônica
Manter o equilíbrio imunológico
Correlacionar os desequilíbrios metabólicos detectáveis
Identificar e tratar as causas, e não apenas os sintomas das doenças
Disponibilizar os nutrientes para a absorção e a utilização
Promover melhora geral na saúde por meio do equilíbrio nutricional

Manutenção

Para a manutenção da saúde, os cães e os gatos devem receber, no mínimo, os nutrientes essenciais, que estão divididos em seis grupos: água, proteínas (aminoácidos), carboidratos, lipídios, minerais e vitaminas. Qualquer alteração nesse equilíbrio pode predispor o aparecimento de doenças.

Água

A água é absolutamente vital e está envolvida em praticamente todas as reações do organismo, como manutenção da temperatura corpórea, lubrificação dos tecidos, fluido dos sistemas sanguíneo e linfático e integridade do DNA. Mas nem toda água é igual, diferindo entre si por meio do pH, da capacidade de redução ou oxidação, da tensão superficial, do perfil eletrolítico e da condutividade elétrica.

Proteínas

As proteínas apresentam inúmeras funções no organismo, principalmente estruturais, como crescimento e manutenção muscular, reparo tecidual, enzimas, hormônios, imunoglobulinas, equilíbrio do pH sanguíneo, transporte de oxigênio, manutenção do pelame e fonte energética. Existem mais de 20 aminoácidos envolvidos na síntese proteica, entre essenciais (Quadro 2), que devem ser fornecidos na dieta, e os não essenciais, que podem ser sintetizados por meio de outros nutrientes e metabólitos presentes na alimentação ou suplementação. Os aminoácidos não são armazenados no organismo, como as gorduras e os carboidratos, e, em situa- ções de estresse, infecções, catabolismo, geriatria, podem ser suplementados para suprir sua maior demanda. São 10 aminoácidos essenciais nos cães e 11 nos gatos, desempenhando funções específicas. Os aminoácidos podem ser suplementados para favorecer a manutenção da musculatura, reduzindo a sarcopenia (perda muscular), principalmente entre os pacientes geriátricos que apresentam difculdade na síntese de enzimas digestivas que digerem a proteína dos alimentos. Quando suplementados em excesso, servem como fonte energética, entrando no ciclo de Krebs. Na carência de carboidratos e lipídios na dieta, também são utilizados como substrato energético.

Carboidratos

Os carboidratos também são conhecidos como hidratos de carbono, e suas principais fontes são açúcares, fibras e amidos. Os açúcares simples são facilmente absorvidos e digeridos; em contraste, os hidratos de carbono complexo são combinações de açúcares simples que formam longas cadeias, sendo difíceis de serem absorvidos. Já as fibras também são carboidratos que não são digeridos por cães e gatos e estão divididas em dois grupos básicos: as solúveis fermentadas pelas bactérias benéficas do cólon apresentando ação prebiótica e as insolúveis não fermentadas e que aumentam o volume fecal. O principal local de digestão e absorção dos carboidratos ocorre no intestino delgado, onde são decompostos em glicose, principal fonte energética das células do corpo, principalmente os neurônios. O excesso de hidratos de carbono da dieta é armazenado no fígado, na forma de glicogênio, e também pode ser convertido em triacilgliceróis.

Quadro 2 - Aminoácidos essenciais em cães e gatos e suas principais funções

Lipídios

Os lipídios constituem-se na forma mais concentrada de obtenção energética, contendo cerca de duas vezes e meia a quantidade de energia por grama em relação aos carboidratos e às proteínas (mesmo valor energético). Além do processo energético, algumas gorduras são fontes de ácidos graxos, sendo apenas dois considerados essenciais. O ômega-6 e o ômega-3 não podem ser sintetizados, devendo provir da alimentação, desempenhando importantes funções na modulação dos processos inflamatório e imunológico, na agregação plaquetária e no crescimento e na diferenciação celular. Os ácidos graxos essenciais são precursores dos eicosanoides, sendo substratos para as cicloxigenases, lipoxigenases e o citocromo P450. Dentre os ácidos graxos derivados do ômega-6, apenas o ácido gamalinolênico (GLA) apresenta potente ação anti-inflamatória; já os ácidos graxos derivados do ômega-3, eicosapentaenoico (EPA) e docosa-hexanoico (DHA), competem com o ácido araquidônico, originando as prostaglandinas e os leucotrienos, menos inflamatórios. O uso na medicina veterinária é preconizado em doenças dermatológicas pela capacidade de modular o processo inflamatório e promover melhor hidratação cutânea decorrente da estimulação na síntese de ceramidas na epiderme. Desta forma, a utilização de ácidos graxos pode modular o processo inflamatório em inúmeras doenças, como câncer, doenças autoimunes, atopias, cardiopatias, nefropatias e muitas outras em que o processo de inflamação crônica está presente

Minerais

Os minerais são moléculas relativamente simples quando comparadas com outros nutrientes. Os problemas nutricionais a eles relacionados incluem o valor de cada um na dieta, o equilíbrio e a biodisponibilidade. Existem inúmeras funções executadas pelos minerais no organismo, como formações óssea e dentária, reações enzimáticas, equilíbrio de fluidos, transporte de oxigênio, função imunológica e produção de hormônios. Os minerais são divididos em duas categorias: macrominerais (Quadro 3), que necessitam de maiores quantidades na dieta, e microminerais (Quadro 4), presentes em menores quantidades.

Quadro 3 - Macrominerais

Quadro 4 - Microminerais

Vitaminas

As vitaminas, comparadas com outros nutrientes, são necessárias em menores quantidades na dieta. Mas, ao contrário dos minerais, são substâncias bastante complexas, que atuam em conjunto e cuja falta ou carência podem prejudicar a função de outras vitaminas e nutrientes. A suplementação é importante, principalmente em patologias que aumentam a sua demanda, como estresse, alterações digestivas, diabetes, insuficiência renal, desnutrição, disfunções metabólicas e muitas outras. As vitaminas são divididas em dois importantes grupos: lipossolúveis (Quadro 5) que são armazenadas no corpo e hidrossolúveis (Quadro 6), que não são armazenadas. Mas existem duas exceções a essa regra: a vitamina K é lipossolúvel, não sendo armazenada, e a B12 é a única hidrossolúvel que pode ser armazenada. As vitaminas hidrossolúveis são fundamentais para o metabolismo de proteínas, carboidratos e gorduras, o que resulta em energia para as funções orgânicas, e devem ser consumidas diariamente. Alterações orgânicas, como nefropatias, cardiopatias, estresse, diabetes ou condições de poliúria aumentam as suas necessidades diárias.

Quadro 5 - Vitaminas lipossolúveis

Quadro 6 - Vitaminas hidrossolúveis

Suplementação

A suplementação é necessária em inúmeras condições clínicas, devendo sendo ser analisada pelo médico veterinário com o intuito de promover todos os nutrientes para a manutenção da saúde em cães e gatos. Dentre as condições clínicas está o estresse, atualmente muito comum nesses animais. Ele eleva a necessidade de diversos nutrientes, como vitaminas, minerais, antioxidantes e aminoácidos, favorecendo o aumento dos níveis de cortisol, que podem reduzir a ação do sistema imunológico e promover maior catabolismo proteico. Outra condição clínica são as doenças articulares. Na osteoartrose, por exemplo, ocorre o aumento dos fatores catabólicos da cartilagem MMPs (metaloproteinases de matriz) e diminuição dos fatores anabólicos TIMPs (inibidores teciduais de metaloproteinases). Esse desequilíbrio contribui para a degradação patológica da cartilagem. A suplementação com nutrientes precursores dos proteoglicanos, como sulfato de condroitina, sulfato de glucosamina, minerais, vitaminas, antioxidantes e aminoácidos, estimula os fatores anabólicos da articulação. Tanto a glucosamina quanto o sulfato de condroitina inibem o catabolismo de proteoglicanos, modulando a ação das interleucinas inflamatórias e metaloproteinases, reduzindo a necessidade de medicações analgésicas e anti-inflamatórias.

Os ácidos graxos também exercem funções importantes nas doenças articulares, principalmente EPA, DHA e GLA, pois estimulam os eicosanoides menos inflamatórios, reduzindo o catabolismo articular. Para os animais alimentados com dietas caseiras, a suplementação deve ser realizada principalmente com cálcio, outros minerais, vitaminas, ácidos graxos e aminoácidos. Naqueles com caquexia, há necessidade de suplementação para acelerar a recuperação clínica com aminoácidos, vitaminas, minerais e ácidos graxos. Nos casos de caquexia decorrente de alterações metabólicas de origem tumoral, a suplementação deve ser restrita a tiamina e carboidratos. Em contrapartida, deve-se aumentar a ingestão de gorduras (especialmente ricas em EPA, DHA e GLA) e proteínas. Aos portadores de doenças renais, a suplementação com EPA e DHA é benéfica por reduzir o componente inflamatório. Também é indicada a suplementação com antioxidantes e vitaminas do complexo B. Nas fases 3 e 4 da insuficiência renal crônica, os cães e os gatos não conseguem sintetizar o calcitriol (forma ativa da vitamina D), por isso, nessas situações, a suplementação com colecalciferol (vitamina D3) não é eficaz. Cães e gatos com alterações cutâneas e alergias devem ser suplementados com ácidos graxos, especialmente EPA, DHA e GLA, que estimulam a síntese de eicosanoides com ação anti-inflamatória, além de promoverem a síntese de ceramidas na epiderme, permitindo maior proteção e hidratação cutânea. Vitaminas e minerais como biotina, vitamina A, ácido pantotênico e zinco também são importantes para a saúde cutânea.

Portanto, em inúmeras situações, a suplementação é necessária e altamente eficaz para a melhora clínica, sendo o médico veterinário muito importante para julgar e intervir da melhor forma, sempre considerando cada situação, como preconizam a medicina e a nutrição funcional.

Para os animais alimentados com dietas caseiras, a suplementação deve ser realizada principalmente com cálcio, outros minerais, vitaminas, ácidos graxos e aminoácidos.

Conclusão

Pelo exposto, a Nutrologia surge como um dos mais importantes mecanismos de prevenção e tratamento de inúmeras patologias, despertando cada vez mais o interesse da classe médica veterinária. A suplementação funcional também representa uma nova visão, indo muito além do conceito de complementação da dieta, promovendo saúde, equilíbrio e bem-estar aos pacientes.

Referências


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