Diabetes mellitus em cães: insulinização e monitorização do tratamento

Empresa

MSD

Data de Publicação

31/12/2000

PDF

Produtos Relacionados

AUTORES:
Alessandra M. Vargas, MV, MSc, Endocrinovet®
alessandra@endocrinovet.com.br
André Luís S. Santos, MV, MSc, Doutorando, Endocrinovet®

Segundo a American Diabetes Association, o diabetes mellitus (DM) inclui um conjunto de transtornos metabólicos de diferentes etiologias, caracterizados por hiperglicemia crônica resultante da diminuição da sensibilidade dos tecidos à ação da insulina e/ou da deficiência de sua secreção.

De acordo com a etiopatogenia, pode-se classificar o DM em tipo I (decorrente da destruição imunomediada do pâncreas) e tipo II (decorrente da resistência insulínica). A doença também pode ser classificada de acordo com a necessidade terapêutica em insulino-dependente e não insulino-dependente. Na prática clínica tal classificação não é muito útil visto que teoricamente todos os cães diabéticos necessitam de insulina exógena para a sobrevivência. É importante destacar que os termos DM insulino-dependente e DM tipo I não devem ser utilizados como sinônimos. Da mesma forma, também é incorreto afirmar que DM não insulino-dependente e DM tipo II são sinônimos.

Uma outra classificação proposta, leva em consideração a etiologia da doença: diabetes insulino-deficiente (caracterizado pela perda primária e progressiva de células B pancreáticas, sem a presença de resistência à ação da insulina) e diabetes insulino-resistente (caracterizado pelo antagonismo da ação da insulina por aumento na concentração séria de hormônios hiperglicemiantes, tais como progesterona, glicocorticoides, hormônio do crescimento, o que levará a falência pancreática).

As manifestações clínicas clássicas do DM incluem poliúria, polidpsia, polifagia e perda de peso. Caso o paciente apresente anorexia e/ou vômito deve-se investigar a presença de cetoacidose diabética (acidose metabólica decorrente de hiperglicemia e acúmulo de corpos cetônicos).

O diagnóstico baseia-se na presença das manifestações clínicas clássicas e na constatação de hiperglicemia (glicemia em jejum acima de 200mg/dL) e de glicosúria persistentes. Em cães cuja suspeita diagnóstica é o DM, a glicemia pode ser realizada mesmo que não estejam em jejum. Nestes casos, confirma-se o diagnóstico de DM se a glicemia for superior a 273 mg/dL.

O tratamento do DM consiste em administrações diárias de insulina, manejo dietético e eliminação dos fatores de resistência (caso estejam presentes).

As insulinas podem ser classificadas de acordo com a duração de seu efeito:

- AÇÃO CURTA: efeito imediato. Por exemplo, insulina Regular. Pico de ação entre 30 e 120 minutos. Administração por via intravenosa (IV), intramuscular (IM) ou subcutânea (SC). Indicada no tratamento da cetoacidose diabética.

- AÇÃO INTERMEDIÁRIA: início de ação 30 a 120 minutos após a aplicação. Pico de ação entre 2 e 10 horas. Administração apenas por via SC. Por exemplo, Caninsulin® e insulina NPH. Ambas indicadas no tratamento crônico do DM em cães, sendo a Caninsulin® a única insulina veterinária registrada no Brasil com indicação também para gatos.

- AÇÃO LONGA: início de ação 30 minutos a 8 horas após a aplicação. Pico de ação entre 4 e 16 horas. Administração apenas por via SC. Por exemplo, insulinas ultralenta e PZI. Nota: insulinas não disponíveis no Brasil, devido à sua pouca utilização.

O frasco de insulina deve ser armazenado na posição vertical, em local refrigerado (temperatura entre 2ºC e 8ºC), protegido da luz, fora de embalagem térmica ou isopor e distante do congelador. As injeções são administradas no gradil costal do paciente, por via subcutânea, sendo recomendado alternar o local de aplicação entre o lado direito e esquerdo do paciente.

Para o tratamento crônico do DM em cães utiliza-se insulina de ação intermediária (Caninsulin® ou NPH). Preferencialmente utilizamos a insulina porcina Caninsulin® , uma vez que a insulina de origem suína é idêntica à insulina do cão, o que reduz a probabilidade de desenvolvimento de anticorpos anti-insulina, o que poderia causar resistência à ação da insulina, enquanto que a insulina NPH (recombinante humana) difere em 1 aminoácido da insulina canina.

Na maioria dos casos, a insulina deve ser administrada a cada 12 horas (BID) e menos frequentemente a cada 24 horas. A aplicação de insulina a cada 12 horas leva a um melhor controle da glicemia ao longo do dia e reduz o risco de hipoglicemias. A dose inicial sugerida pela literatura é de 0,25 UI/kg/BID (para cães com peso corpóreo superior a 10kg) a 0,5 UI/kg/BID (para cães com peso corpóreo inferior a 10kg). Da mesma forma, o manejo alimentar mais adequado consiste na administração das refeições a cada 12 horas, no mesmo horário em que são realizadas as aplicações de insulina. Com relação à dieta do paciente diabético, a quantidade e a composição das refeições devem ser constantes, ou seja, sempre as mesmas e em horários pré-determinados. Preconiza-se o uso de alimentos coadjuvantes para pacientes diabéticos, os quais apresentam baixo teor de carboidratos solúveis e alto teor de fibras, o que reduz a hiperglicemia pós-prandial. Recomenda-se que o médico veterinário calcule a quantidade de ingestão calórica diária para cada paciente, com o objetivo de se evitar a ocorrência de obesidade, e consequentemente, a resistência à ação da insulina.

O objetivo do tratamento é eliminar as manifestações clínicas do diabetes mellitus além de evitar as complicações crônicas associadas à doença. Cães diabéticos bem controlados não precisam apresentar normoglicemia (80 a 120 mg/dL). Os pacientes se apresentarão saudáveis e assintomáticos se os valores de glicemia estiverem entre 100 e 250 mg/dL na maior parte do dia.

Os ajustes na dose da insulina devem ser feitos a cada sete a 14 dias, sendo fundamental levar em consideração a opinião do tutor sobre a intensidade das manifestações clínicas bem como do estado geral do paciente, a estabilidade do peso corporal (pacientes com mau controle glicêmico perdem peso), os achados do exame físico do paciente e a mensuração das glicemias, cujo objetivo é identificar o nível glicêmico mais baixo e a duração do efeito da insulina. Recomenda-se proceder à mensuração da glicemia em jejum, antes da aplicação da insulina (cães com bom controle apresentam glicemia entre 126 e 288 mg/dL) e da glicemia no pico de ação da insulina, seis a oito horas após aplicação da insulina (cães com bom controle apresentam no pico de ação da insulina, glicemia entre 70 e 160 mg/dL).

Caninsulin® é uma insulina de uso veterinário e consiste em uma suspensão aquosa de insulina-zinco que contém 40 UI de insulina suína de alta purificação em 1mL, sendo composta por 30% de insulina de zinco amorfa e 70% de insulina de zinco cristalina. Para se proceder à transição da insulina NPH (uso humano) para a Caninsulin® (uso veterinário) deve-se administrar a mesma dosagem para o paciente. Por exemplo, um cão recebendo 10 UI de insulina NPH deverá receber 10 UI de Caninsulin®, desde que seja utilizada a seringa exclusiva para aplicação da Caninsulin®. É muito importante utilizar seringas específicas, de acordo com a concentração da insulina.

Concentração de NPH = 100 UI/mL ---> ERA utilizada a seringa U-100
Concentração de Caninsulin® = 40 UI/mL ---> SERÁ utilizada a seringa U-40

Com relação à administração da insulina, deve-se manter a mesma frequência, ou seja, se antes da transição o paciente recebia, por exemplo, a insulina NPH a cada 24 horas, após a transição deverá receber a Caninsulin® também a cada 24 horas. O mesmo se aplica para pacientes tratados com insulina a cada 12 horas.

O prognóstico para o paciente diabético dependerá do correto diagnóstico e posterior instituição do tratamento pelo médico veterinário, da presença ou não de doenças concomitantes bem como da dedicação dos tutores na realização do tratamento. Geralmente o prognóstico é bom e o paciente diabético pode apresentar qualidade de vida semelhante a de um paciente saudável.

AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Diagnosis and classification of diabetes mellitus. Diabetes Care. v. 37, suplemento 1, p. S81-90, 2014.
BLUWOL, K.; DUARTE, R.; LUSTOZA, M. D.; SIMOES, D. M. N.; KOGIKA, M. M. Avaliação de dois sensores portáteis para mensuração da glicemia em cães. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia. v. 59, n. 6, p. 1408-11, 2007.
CALAMARI, C. V.; SILVA, R. D.; DE MARCO, V.; VARGAS, A. M.; FURTADO, P. V. Validação dos monitores portáteis Breeze®2 e Contour TS® para a mensuração da glicemia em cães. In: 2º CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA VETERINÁRIA, 2012, Búzios, Proceedings... Rio de Janeiro, CIABEV, 2012. p. 30.
CATCHPOLE, B.; RISTIC, J. M.; FLEEMAN, L. M.; DAVIDSON, L. J. Canine diabetes mellitus: can old dogs teach us new tricks? Diabetologia. v. 48, n. 10, p. 1948-56, 2005.
CATCHPOLE, B.; KENNEDY, J.; DAVIDSON, L. J.; OLLIVER, W. E. R. Canine diabetes mellitus: from phenotype to genotype. Journal of Small Animal Practice. v. 49, n. 1, p. 4- 10, 2008.
FALL, T.; HAMLIN, H. H.; HEDHAMMAR, A.; KÄMPE, O.; EGENVALL, A. Diabetes mellitus in a population of 180,000 insured dogs: incidence, survival, and breed distribution. Journal of Veterinary Internal Medicine. v. 21, n. 6, p. 1209-16, 2007.
FLEEMAN, L. M.; RAND, J. Beyond insulin therapy: achieving optimal control in diabetic dogs. Waltham Focus The worldwide jornal of the companion animal veterinarian. v. 15, n. 3, p. 12-9, 2005.
GRAHAM, P. A.; MASKELL, E. RAWLINGS, J. M.; NASH, A. S.; MARKWELL, P. J. Influence os a high fibre diet on glycaemic controlo f life in dogs with diabetes mellitus. Journal of Small Animal Practice. v. 43, n. 2, p. 67-73, 2002.
GUPTILL, L.; GLICKMAN, L.; GLICKMAN, N. Time trends and risk factors for diabetes mellitus in dogs: analysis of veterinary medical data base records (1970-1999). The Veterinary Journal. v. 165, n. 3, p. 240-7, 2003.
HOENIG, M. Comparative aspects of diabetes mellitus in dogs and cats. Molecular and Cellular Endocrinology. v. 197, n. 1-2, p. 221-9, 2002.
MATTIN, M.; O'NEILL, D.; CHURCH, D.; MCGREEVY, P. D.; THOMSON, P. C.;
BRODBELT, D. An epidemiological study of diabetes mellitus in dogs attending first opinion practice in the UK. The Veterinary Record. v. 174, n. 14, p. 349, 2014.
NELSON, R. W. Canine diabetes mellitus. In: Canine and Feline Endocrinology. 4ª Ed.: Elsevier Saunders, 2015, p. 213-257.
NELSON, R. W.; LEWIS, L. D. Nutritional management of diabetes mellitus. Seminars in Veterinary Medicine and Surgery (Small Animal). v. 5, n. 3, p. 178-86, 1990.
HESS, R. S. Insuline resistance in dogs. The Veterinary Clinics of North America. Small Animal Practice. v. 40, n. 2, p. 309-16, 2010.
VARGAS, A. M.; BARROS, R. P.; ZAMPIERI, R. A.; OKAMOTO, M. M.; DE CARVALHO PAPA, P.; MACHADO, U. F. Abnormal subcellular distribution of GLUT4 protein in obese and insulin-treated diabetic female dogs. Brazilian Journal of Medical and Biological Research. v. 37, n. 7, p. 1095-101, 2004.
VARGAS, A. M.; SANTOS, A. L. S. Cetoacidose diabética: fisiopatogenia, diagnóstico e tratamento. Clínica Veterinária: Revista de educação continuada do clínico veterinário de pequenos animais. Ano XIV, n. 79, p. 20-8, 2009.
VARGAS, A. M. Conhecendo melhor o diabetes mellitus em cães. Vets Today Nº22 - Julho/2014. Material técnico publicado pela Royal Canin.