O papel do clínico na prevenção da leishmaniose canina no Brasil

Empresa

MSD

Data de Publicação

31/12/2000

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O papel do clínico na prevenção da leishmaniose canina no Brasil

Mary Marcondes
- Professora Adjunto de Clínica Médica de Pequenos Animais da Faculdade de Medicina Veterinária – UNESP – Campus de Araçatuba
- Bolsista de Produtividade em Pesquisa nível 2 – CNPQ

A leishmaniose visceral (LV) é uma das principais doenças tropicais negligenciadas. Representa um sério problema de saúde pública, sendo o Brasil responsável por cerca de 90% dos casos humanos da América Latina. Além dos elevados índices de letalidade e mortalidade, a leishmaniose visceral americana (LVA) vem apresentando grande expansão geográfica no território brasileiro, atingindo inclusive a região sul do país, considerada área indene para LV até 2008. Enquanto no ano de 2000, 83% dos casos de LVA estavam concentrados na região nordeste, 7,5% na região norte, 6,5% no sudeste e 3% no centrooeste, com a expansão territorial da doença em 2013 a distribuição de casos humanos passou a ser de 58%, 17,8%, 14,9%, 9,2% e 0,07%, respectivamente, nas regiões nordeste, norte, sudeste, centro-oeste e sul.

De todos os animais identificados como reservatórios da LV o cão, do ponto de vista epidemiológico, é considerado o reservatório doméstico mais importante, sendo, por essa razão, um dos alvos do programa de controle da doença no Brasil. No entanto, as estratégias de controle atuais não tem sido suficientes para conter a expansão da mesma. Além do cão, outros elementos estão envolvidos no ciclo da doença e contribuem para o avanço da mesma, tais como animais selvagens e da fauna sinantrópica, mudanças no meio ambiente e falta de saneamento. A ocorrência de leishmaniose visceral canina (LVC) precede ou está correlacionada com a infecção em seres humanos. Desta forma, o cão age como sentinela, e a doença em cães pode ser um importante indicador de uma epidemia eminente na população humana. A importância do cão na epidemiologia da doença reside também no elevado número de animais assintomáticos, que pode chegar a 80% de uma população infectada. Os casos clínicos em áreas endêmicas são apenas o topo de um iceberg, uma vez que a maioria da população está exposta e torna-se infectada sem apresentar evidências clínicas da doença ou anticorpos anti-Leishmania sp. Estes cães podem servir de fonte de infecção para o vetor.

Ações direcionadas para o vetor são medidas importantes para controlar a doença, entretanto, o controle de flebotomíneos é uma tarefa árdua. Em áreas endêmicas a maior parte da população desconhece os meios de transmissão da doença, e não são implementadas medidas rígidas para evitar a disseminação dos flebotomíneos. Por essa razão, o médico veterinário deve orientar proprietários sobre medidas para proteger individualmente cães, que incluem mantê-los dentro de casa ou em canis telados no período de maior atividade do vetor (a partir do entardecer), e a utilização de inseticidas de forma tópica (em várias formulações) ou incorporados a coleiras. Um dos problemas enfrentados no controle de doenças transmitidas por vetores é a utilização de produtos testados em condições de desafio distintas daquelas onde serão utilizados. Fatores tais como o tipo de vetor, a densidade populacional dos vetores, a imunocompetência dos cães expostos, o habitat e as condições climáticas e sanitárias, podem afetar a eficácia de um inseticida. Por esta razão, é de responsabilidade do médico veterinário conhecer a gama e representatividade dos estudos previamente publicados de cada produto antes de optar por um ou outro. Em se tratando de zoonoses, é importante avaliar também se o produto utilizado como medida de proteção individual pode reduzir o risco de transmissão do agente para seres humanos. Os inseticidas tópicos são geralmente aplicados a cada três ou quatro semanas, enquanto as coleiras possuem a vantagem de uma duração de efeito maior, com intervalos de vários meses a cada troca. Além da proteção individual, estudos conduzidos com uma das coleiras impregnadas com deltametrina evidenciaram que esta pode ser uma ferramenta para auxiliar no controle não somente da leishmaniose visceral em cães, mas também em humanos.

É imprescindível que sejam implementadas medidas de educação em saúde em áreas endêmicas. Contudo, o risco de estabelecimento da doença em novas áreas reforça a necessidade de atenção por parte de médicos veterinários na identificação de novos casos. Cabe ainda, a este profissional, orientar proprietários sobre os riscos, formas de infecção, sintomas e meios de prevenção da leishmaniose canina. Mesmo não estando diretamente ligado a um órgão de saúde pública, o clínico deve participar do controle e vigilância de zoonoses.

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