Erliquiose Canina - Eficácia da Doxiciclina Comprimido no tratamento de cães naturalmente infectados

Empresa

UCBVET Saúde Animal

Data de Publicação

04/11/2016

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Eficácia da Doxiciclina Comprimido no tratamento de cães naturalmente infectados

Gisele Maria de Andrade
(gisele@ucbvet.com.br)
M.V., Dra. em Medicina Veterinária pela UNESP/Jaboticabal
Depto. de PD&I Técnico, UCBVet Saúde Animal

RESUMO: A erliquiose monocítica canina é uma doença infecciosa grave, de caráter zoonótico, causada pela bactéria Ehrlichia canis. O presente estudo avaliou a eficácia da administração de doxiciclina em cães naturalmente infectados. Foram divididos em dois grupos de 7 cães cada: Grupo 1controle positivo (GI) recebeu 5,0 mg/kg de doxiciclina (produto comercial), via oral, a cada 12 horas, por sete dias consecutivos e o grupo 2 (GII) recebeu doxiciclina seguindo mesmo protocolo do GI. Exames clínicos, esfregaços sanguíneos e exames laboratoriais foram realizados nos dias D0, D+7, D+14, D+21 e D+28. A melhora no quadro clínico em 100% dos animais foi observadaa partir de D+7. As plaquetas retornaram aos valores de referencia a partir de D+7. Esfregaços negativos para E. canis foram obtidos a partir de D+7 persistindo até D+28. Os resultados mostraram que o produto doxiciclina (Doxymax Pet) foi eficaz no tratamento dos cães naturalmente infectados por E. canis.

Unitermos: bactéria, doxiciclina, erliquiose monocítica, infecção

Introdução

Doença infecciosa de importância mundial, a erliquiose monocítica canina é causada pela bactéria Ehrlichia canis, Gram-negativa e intra celular obrigatória, que é transmitida aos cães domésticos pelos carrapatos infectados do gênero Rhipicephalus e espécie sanguineus, conhecido como o carrapato marrom dos cães21. A infecção ocorre durante o repasto sanguíneo, ocorrendo a inoculação de secreções salivares contaminadas pelo parasito28. O período de incubação da doença varia entre 8 e 20 dias. Durante este período a bactéria invade o citoplasma dos monócitos circulantes, se multiplica por fissão binária formando os clusters de células, conhecidas como mórulas antes de se disseminar por todo o organismo do animal23. A erliquiose pode estar na forma aguda, subclínica/subaguda e na forma crônica. Estes 3 estágios podem não ser fáceis de distinguir em animais naturalmente infectados, uma vez que os sinais clínicos da doença são amplos e inespecíficos e podem ser confundidos com outras doenças21 como: febre, letargia, anorexia, linfonodos infartados, perda de peso, trombocitopenia, anemia, hipergamaglobunemia, pancitopenia, hemorragia, epistaxes, alterações oculares e sinais músculo esqueléticos6,23. A erliquiose é uma zoonose que pode ser transmitida ao homem da mesma forma que é transmitida ao cão, tendo, portanto, uma importância relevante na saúde humana. Os sinais clínicos em humanos incluem febre, dor de cabeça, mialgias e sintomas gastrointestinais. O tratamento com antibiótico a base de tetraciclina confere resultados satisfatórios2.

A doxiciclina é a droga de eleição para o tratamento da E. canis16 pois alcança uma elevada concentração sanguínea e tecidual, penetrando rapidamente na maioria das células28. É uma tetraciclina de amplo espectro e de longa ação, derivada da oxitetraciclina, que tem sido estudada como uma inibidora não especifica da matrix metalo proteinase (substância intercelular) que é responsável pela degradação da matriz extracelular no aneurisma aórtico abdominal, uma ação não relacionada com os seus efeitos na síntese de proteína bacteriana17,4.

Com característica lipofílica, a doxiciclina pode atravessar a bicamada lipídica da bactéria e se ligar reversivelmente a subunidade 30-S ribossômica e possivelmente a subunidade 50-S, bloqueando assim a ligação do RNA transportador (RNAt) ao RNA mensageiro (RNAm), e consequentemente, inibindo a síntese proteica bacteriana13. Adicionalmente, a doxiciclina resulta em menor taxa de recidiva comparativamente às outras tetraciclinas, quando utilizada por via oral5. A dosagem recomendada é de 5 a 10 mg/kg, via oral, por 28 dias, e pode ser administrada uma ou duas vezes ao dia, com intervalo de 12 ou 24 horas23. A dose de 10 mg/kg pode ser usada uma vez ao dia ou dividida em 5 mg/kg com intervalos de 12 horas.

No presente estudo, a eficácia terapêutica do produto Doxiciclina comprimido* administrado via oral na dose de 5 mg/kg a cada 12 horas durante 7 dias consecutivos foi avaliada no tratamento da E. canis em cães naturalmente infectados.

Material e Métodos

Animais Experimentais

Quatorze cães, de proprietários, de diversas raças e sem raça definida (SRD), atendidos no Hospital Veterinário da Universidade Federal de Uberlândia (UFU/MG), no período de agosto a novembro de 2012, e com diagnóstico clínico e laboratorial comprovado de infecção por E. canis, foram selecionados para compor os dois grupos experimentais deste estudo. Foram incluídos animais com idades entre 1 e 11 anos, sendo 6 fêmeas e 8 machos. Os animais foram identificados através do nome e ficha clínica, e mantidos nas residências de seus proprietários, recebendo alimentação habitual e água à vontade. Todos os cães foram vermifugados no inicio do experimento. O protocolo experimental do presente estudo foi aprovado pela Comissão de Ética no Uso de Animais da Empresa Gaia Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde Animal (CEUA no. 026/03-2012).

Tratamento

Os cães foram randomizados em dois grupos experimentais com 7 animais cada, sendo que no Grupo I (Grupo Controle Positivo) os cães foram medicados com a doxiciclina (produto comercial), 5,0 mg/kg de peso corpóreo via oral, a cada 12 horas, por 7 dias consecutivos. O Grupo II (Grupo Tratado), cães que foram medicados com a doxiciclina (Doxymax Pet*), 5,0 mg/kg de peso corpóreo via oral, a cada 12 horas, por 7 dias consecutivos. Os animais foram avaliados clinicamente (temperatura retal, frequência cardíaca, frequência respiratória e palpação de linfonodos) e submetidos às coletas de amostras de sangue para exames laboratoriais (hemograma, bioquímica sérica e esfregaço sanguíneo) nos dias: D0 (inicio do tratamento), D+7, D+14, D+21 e D+28.

Análise dos Parâmetros Hematológicos e Bioquímicos

Foram analisados os seguintes parâmetros hematológicos: contagem de hemácias, contagem de leucócitos, volume celular, volume corpuscular médio (VCM), hemoglobina corpuscular média (HCM), concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM), contagem diferencial de células brancas e plaquetas. E para bioquímica sérica foram dosadas: ureia, creatinina, aspartato aminotransferase (AST) e alanina aminotransferase (ALT).

Coleta de Dados e Análise Estatística

Para a análise dos dados obtidos foi utilizado um delineamento inteiramente casualizado, com parcelas subdivididas no tempo para um dos tratamentos (GI versus GII), com sete repetições por tratamento, avaliados em cinco tempos. Os dados foram submetidos à análise de variância e ao teste de Tukey ao nível de 5% através do software INSTAT10. Para a constatação de eficácia do produto a porcentagem de cura dos animais tratados do GII foi comparada aos animais do GI.

Resultados e Discussão

A doxiciclina é a droga de eleição para o tratamento da E. canis22,23,25,16,18. O tratamento é muito eficaz em casos agudos da doença, mas o sucesso do tratamento em casos crônicos e subagudos da doença é considerado controverso21, porque depende de fatores como tempo de tratamento, patogenicidade da amostra e estado imunológico do animal principalmente.

No presente estudo não foi observada diferença significativa (p≥0,05) nos parâmetros frequência cardíaca, frequência respiratória e temperatura retal entre os cães dos grupos I e II durante todo o período de avaliação. Os valores médios encontrados estavam dentro dos valores de referência para a espécie canina: 60 a 160 bpm, 18 a 36 mpm e de 37,5 a 39,2oC, respectivamente7, embora, dois animais de cada grupo apresentaram temperaturas acima de 39,20oC nos momentos D0 e D+7. As médias dos valores das temperaturas corpóreas registradas durante o período de estudo são apresentadas na Figura1.

Figura 1: Valores médios de tempeartura retal (oC) dos animais dos grupos GI e GII durante o período experimental

No exame clínico dos animais no dia D0 (início do tratamento), foi observado que 80% (11) dos cães apresentaram mucosas hipocoradas, anorexia, apatia, aumento dos linfonodos mandibulares, hepato e esplenomegalia, sendo seis animais de GI e cinco de GII. O aumento dos tecidos fagocitários mononucleares é característico na fase aguda da doença, período no qual há a multiplicação da E. canis, levando a hiperplasia das células linforeticulares do fígado e baço8. Já no dia D+7 observou-se melhora no quadro clínico em 100% dos animais, os quais apresentaram mucosas róseas, úmidas e normorrexia, ao passo que os linfonodos, fígado e baço ainda se encontravam discretamente aumentados à palpação em alguns animais, porém, apresentando tamanho normal a partir do dia D+14. A recuperação clínica da doença erliquiose pode ser observada dentro de poucos dias após tratamento, e a maioria dos cães infectados pela E. canis geralmente se recuperaram da fase aguda e subclínica quando tratados com produtos derivados das tetraciclinas ou as doxiciclinas que podem ser eficazes na eliminação da parasitemia em infecções agudas11,12,3. Na literatura, existem várias indicações de dosagens e tempo de duração do tratamento da Erliquiose utilizando-se a doxiciclina. Os critérios para o tratamento variam de acordo com a precocidade do diagnóstico, da severidade dos sintomas clínicos e da fase da doença em que o paciente se encontra. Quando do início da terapia, recomenda-se nas fases agudas, a dosagem de 5 mg/kg, 2 vezes por dia, via oral, durante 7 a 10 dias e, nos casos crônicos 10 mg/kg, via oral, durante 7 a 21 dias27. Os resultados do presente estudo confirmaram a eficácia da doxiciclina pela melhora dos sinais clínicos durante o tratamento e acompanhamento dos cães.

No quadro hematológico, os valores encontrados encontravam-se dentro da faixa de normalidade para a espécie canina14,9, com exceção para o número de hemácias e hemoglobina em D0 e volume globular ou hematócrito em D0 e D+7. Alguns animais apresentaram anemia normocítica, normocrômica, alteração essa comum na erliquiose canina, que concordam com os resultados encontrados por Fujii e Albernaz8,1. Os quadros anêmicos observados neste estudo se assemelha aos obtidos por Mendonça, Albernaz e Menezes19,1,20, que apresentaram alterações hematológicas comuns e sugestivas para o diagnóstico de erliquiose canina. Os valores de VCM, HCM, CHCM, permaneceram dentro da faixa de normalidade para a espécie canina durante todo o período experimental, para ambos animais de GI e GII, não sendo observada diferença estatística entre os grupos avaliados.

Nos resultados apresentados no leucograma, pode-se observar que não houve diferença estatística entre os grupos e os momentos avaliados para os parâmetros: leucócitos totais, neutrófilos, eosinófilos, monócitos e linfócitos. Embora sejam relatadas alterações comuns de leucopenia, eosinopenia e linfopenia em animais acometidos por Ehrlichia sp, há discordância nos achados do presente estudo, embora os valores encontrados estavam dentro da normalidade para a espécie, provavelmente justificados por outros fatores inerentes à patogenicidade da cepa, da fase/ curso da infecção, presença concomitante de outros agentes infecciosos e principalmente pela resposta individual de cada animal19.

Já em relação ao número de plaquetas, foi observado que os valores médios no D0 (Figura 2), estavam abaixo da faixa de normalidade (200.000 a 500.000 ml) segundo Garcia-Navarro9, sendo que esses valores retornaram aos valores de referência a partir de D+7 até D+28 em ambos os grupos, porém não havendo diferença estatística nos dados avaliados. Verificou-se melhora dos parâmetros hematológicos analisados em todos os animais dos grupos I e II, com destaque o número de plaquetas (Tabela 1), para ambos os grupos confirmando os achados anteriores de Sainz24.

Figura 2: Valores médios das Plaquetas dos animais dos grupos I e II, durante o período experimental

Tabela 1: Valores médios e desvios padrão das Plaquetas/mL dos grupos experimentais mensurados durante o estudo nos momentos D0, D+7, D+14, D+21 e D+28

Após avaliar os resultados dos parâmetros eritrograma, leucograma e plaquetograma, pode-se observar que a eficácia do produto no grupo II foi satisfatória no tratamento da erliquiose canina nos 7 animais que receberam essa formulação, o que pode ser observado através da melhora do quadro hematológico obtido em comparação aos animais do grupo I. Também foi observado que o produto utilizado no grupo controle positivo, GI se apresentou eficaz, entretanto, ao se comparar os valores de hemácias, volume globular ou hematócrito e plaquetas de ambos grupos, uma discreta melhora foi observada a partir do D+14 no animais de GII em comparação aos animais de GI (Figura 2), porém não se observando diferença estatística em nenhum momento avaliado.

As dosagens de AST, ALT, creatinina e ureia séricas realizadas antes e durante o experimento mostraram que os resultados obtidos estavam dentro da faixa de normalidade para a espécie em todos os cães de GI e GII15, não havendo diferença estatística alguma entre os grupos estudados durante todo o período experimental. Entretanto, foi observado que 4 cães, sendo 2 de GI e 2 de GII apresentaram valores de AST e ALT superiores aos limites normais da espécie, fato esse que pode ser explicado pelo comprometimento hepático ou pelo estresse sistêmico provocado por doenças como a erliquiose26. Já em D+14 todos os valores das enzimas AST e ALT dos animais de GI estavam dentro da faixa de normalidade para a espécie, sendo que esses parâmetros se normalizaram em todos os animais de GII no D+21.

A detecção microscópica de mórulas de E. canis em esfregaços de amostras de sangue periférico de todos os 14 cães inclusos no experimento foi observada no D0 (Figura 3). Já em D+7, não foram mais detectadas mórulas ou inclusões sugestivas de corpúsculos elementares de Ehrlichia spp nos animais de GI e GII, resultado negativo que persistiu até a última avaliação dos animais em D+28.

Figura 3: Mórulas de Ehrlichia spp em esfregação sanguíneo de cão em D0, visualizadas no microscópio óptico (100x).

Conclusões

A doxiciclina permanece como uma das principais drogas de escolha no tratamento da erliquiose canina. A partir da avaliação dos valores encontrados dos perfis hematológicos, bioquímicos e esfregaços sanguíneos de todos os 14 cães do presente estudo, pode-se concluir que a formulação Doxymax Pet (UCBVet Saúde Animal), administrada durante 7 dias consecutivos na dosagem de 5 mg/kg, com intervalo de 12 em 12 horas nos 7 cães naturalmente infectados por E. canis foi eficaz na eliminação da parasitemia não sendo encontrados nos esfregaços sanguíneos após o sétimo dia de tratamento, resultado semelhante ao medicamento do grupo controle positivo.