Doença Renal Crônica em gatos – diagnóstico precoce, estadiamento e terapêutica nefroprotetora

Empresa

Nestlé PURINA

Data de Publicação

22/12/2016

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Alexandre G. T. Daniel, MV, Msc.

Consultoria e atendimento especializado em medicina felina Universidade Metodista de São Paulo

Gattos – Clínica Especializada em Medicina Felina

Aprimoramento e Pós Graduação em Medicina Felina - CETAC

A doença renal crônica (DRC) é uma enfermidade comum na espécie felina, sendo considerada a doença mais comum de gatos idosos e a segunda maior causa de óbito em pacientes geriátricos. É diagnosticada duas a três vezes mais frequentemente em gatos que cães, sendo caracterizada clinicamente pelo desenvolvimento de lesões intra-renais irreversíveis, com consequente perda de filtração glomerular. Possui prevalência variada de acordo com a faixa etária do indivíduo, chegando a acometer aproximadamente 49% dos gatos com mais de 14 anos de idade.

Algumas afecções específicas (doença policística em Persas e correlatos, amiloidose em abissínios), doenças infecciosas (PIF, FIV, FeLV), sequelas de uropatias obstrutivas e neoplasias, podem levar à doença renal crônica nos felinos. No entanto, mais de 75% dos gatos nefropatas crônicos apresentam nefrite túbulointersticial como quadro histopatológico existente no momento do diagnóstico. No entanto, este achado somente reflete um padrão lesional comum frente a diversos fatores incitantes diferentes. Na maioria das vezes, a causa incitante da lesão renal e de sua perpetuação são desconhecidas.

Reconhecimento e diagnóstico precoce

Embora incurável, a DRC pode ser controlada, visando a aumentar a qualidade e a expectativa de vida dos animais acometidos. Não há dúvida da real importância do reconhecimento precoce da doença renal, sendo que cada vez mais esta é suspeitada e/ou diagnosticada em programas de avaliação periódica, cada vez mais frequentes nas clínicas e hospitais na atualidade.

Questionamentos sobre hábitos de ingestão hídrica e uso de caixa de areia costumam ser os primeiros pontos de mudança observados pelos proprietários. Perda de peso progressiva, disorexia e vômito crônico também são alterações observadas frequentemente.

Com a progressão da doença, anorexia, piora da perda de peso e da poliúria/polidipsia, anemia não regenerativa, diminuição do tamanho dos rins à palpação, hálito urêmico e úlcera urêmica podem ocorrer.

No geral, a abordagem ao paciente nefropata visa a:

  • caracterizar a doença renal, pesquisando possíveis causas associadas;
  • estadiar o processo, avaliando a perda de função;
  • pesquisar os problemas associados à DRC, realizando o manejo clínico;
  • quando a causa for conhecida, investir no tratamento direto da causa (p.e., pielonefrite).

Classificação e a importância do diagnóstico precoce

No passado, a DRC era classificada em discreta, moderada e importante, além de possuir outras nomenclaturas, como “insuficiência renal crônica” e “falência renal”. As diversas classificações e terminologias geravam divergências e diferentes condutas de classificação frente a um mesmo caso. Visto isso, a International Renal Interest Society (IRIS) criou um sistema de classificação uniforme, baseado primariamente em valores séricos de creatinina, e com subclassificações baseadas na proteinúria e na pressão arterial sistêmica. Este sistema de estadiamento é o padrão utilizado na atualidade, tanto para a definição de manejo e diagnóstico clínico, quanto em pesquisas (www.iris-kidney.com).

Os animais são classificados em:

  • Estágio 1: Neste estágio, não azotêmico, o animal já apresenta algum marcador de dano/lesão renal: alguma anormalidade renal macroscópica (alteração no tamanho à palpação), alteração em exames de imagem (tamanho, ecogenicidade, forma), proteinúria renal, alteração histológica ou perda de capacidade de concentração urinária (usualmente densidade urinária < 1,035). Valores de creatinina menores que 1,6 mg/dL.
  • Estágio 2: Nesta fase, com a progressão da doença, o animal já possui diminuição da taxa de filtração glomerular e possui azotemia discreta, bem como manifestações clínicas brandas. Perda de cerca de 3/4 da função renal. Valores de creatinina entre 1,6 mg/dL e 2,8 mg/dL.
  • Estágio 3: Animal com azotemia renal moderada, com diversas manifestações clínicaspresentes.Valoresdecreatininaentre2,8mg/dLe5,0mg/dL.
  • Estágio 4: Azotemia importante, síndrome urêmica. Valores de creatinina maiores que 5,0 mg/dL.

É importante ressaltar que, embora o sistema de estadiamento seja baseado nos valores séricos de creatinina, este não pode ser aplicado a animais com azotemia pré e pós renal ou com nefropatia descompensada. O animal deve estar estabilizado e corretamente hidratado para a correta aplicação deste sistema de classificação. Recomenda-se, ao menos, duas mensurações intervaladas de creatinina, antes do estadiamento definitivo do mesmo.

Figura 1 – Algoritmo para direcionamento e estadiamento da DRC em gatos.
(RPCU - Relação proteína:creatinina urinária; PA - Pressão arterial)

Os estágios discernidos são complementados com a pesquisa de proteinúria (relação proteína:creatinina urinária – RPCU)e a valiação da presença de hipertensão arterial sistêmica (risco de lesão em órgão alvo – LOA), da seguinte forma:

Sistema de estadiamento - International Renal Interest Society (IRIS)

Sub-estadiamento por proteinúria

Sub-estadiamento por pressão arterial

*LOA – Lesão em órgãos alvo: lesão em sistema nervoso central (encefalopatia hipertensiva), olhos (retinopatia hipertensiva), sistema cardiovascular (hipertrofia miocárdica) ou rins (glomerulopatia hipertensiva)

Proteinúria

A proteinúria é um fator de risco na progressão da DRC, e valores na RPCU maiores que 0,4 estão associados a menor tempo de sobrevida.

O tratamento da proteinúria renal é indicado em gatos com RPCU >0,4, e pode ser feito com uso de inibidores da enzima conversora do angiotensina (iECA), como o benazepril ou enalapril. A utilização destes fármacos visa à dilatação da arteríola eferente, reduzindo a hipertensão glomerular e diminuindo, assim, a proteinúria.

Deve-se ter muita cautela no uso de iECA, pois os mesmos são contraindicados em gatos hipovolêmicos ou desidratados, e podem agravar a azotemia nos pacientes descompensados.

O telmisartan, um bloqueador de receptores de angiotensina II, foi lançado recentemente em países europeus, destinado ao tratamento da proteinúria na espécie felina. No entanto, o número de animais em estudos com sua utilização ainda é restrito.

Figura 2 – Algoritmo de decisão diagnóstica na investigação e tratamento da proteinúria. Adaptado de Journal of Feline Medicine and Surgery, v.15(S1), p.3-14, 2013.

Hipertensão

A DRC é a principal causa de hipertensão arterial sistêmica na espécie felina. Entre 20% e 50% dos gatos com DRC são hipertensos, com valores de pressão arterial sistólica maiores que 160mmHg, com ou sem lesão em órgãos alvo (LOA).

A hipertensão pode ocorrer em qualquer fase da DRC, e não está correlacionada com os valores de creatinina séricos. Em cães e humanos, a hipertensão é considerada fator de maior risco de progressão da doença, e o mesmo é assumido para a espécie felina.

O anlodipino é o fármaco de escolha no tratamento da hipertensão arterial sistêmica em gatos, pois possui melhor efeito na redução de níveis pressóricos quando comparado aos iECA. Quando o anlodipino não é eficiente no controle, pode-se adicionar um iECA, como o benazepril ou enalapril.

Figura 3 – Paciente com DRC e hipertensão arterial sistêmica associada, com quadro de retinopatia hipertensiva. Note a midríase bilateral e o hifema em olho esquerdo. A pressão arterial sistólica era de 220mmHg. Foto: arquivo pessoal do autor.

Manejo dietético

Diversos estudos clínicos mostram que o principal fator associado ao aumento de sobrevida, melhora de qualidade de vida e redução no número de crises urêmicas envolve o uso de dietas específicas para nefropatas. As dietas direcionadas para gatos com DRC são restritas em fósforo e cálcio, com redução proteica e seleção de proteínas de elevado valor biológico. Também são dietas com maior valor energético, enriquecidas em vitaminas do complexo B, potássio e ácidos graxos. Além de tudo, são dietas que auxiliam no controle da acidose metabólica.

Redução dietética de fósforo aliada à correção da qualidade e quantidade proteica ingerida são os pontos principais no manejo de gatos com DRC. O uso de dietas específicas para nefropatas é indicado para animais com DRC em estágios II azotêmico (creatinina superior a 2,0 mg/dL), III e IV. O uso de dietas úmidas também é bastante interessante, por aumentar a ingestão hídrica e colaborar na hidratação do paciente.

Manifestações clínicas resultantes da acidose metabólica são similares às manifestações urêmicas, como anorexia, náusea, vômito e prostração. No geral, as dietas específicas para nefropatas são alcalinizantes, controlando as manifestações na maioria dos pacientes.

Hiperfosfatemia e hiperparatiroidismo renal secundário (HRS)

A fisiopatogenia do HRS é multifatorial, e envolve a retenção de fósforo (com consequente hiperfosfatemia), baixos valores de calcitriol circulantes e reduzidas concentrações de cálcio ionizado. A hiperfosfatemia e o HSR são os principais fatores envolvidos na progressão da DRC, sendo o paratormônio (PTH) considerado a principal toxina urêmica envolvida. Pacientes com o produto das concentrações de cálcio e fosfato séricos maiores que 55 a 60 mg/dL possuem risco de calcificação de tecidos moles.

O uso de dietas terapêuticas específicas comprovadamente auxilia no controle da hiperfosfatemia e consequentemente do HSR em gatos com DRC graus II e III, sendo a abordagem terapêutica de eleição. Se o paciente permanecer com hiperfosfatemia ou elevação do PTH sérico após quatro a seis semanas de uso da dieta específica, terapia com quelantes de fósforo (carbonato de cálcio ou hidróxido de alumínio), bem como uso de calcitriol são indicados (no caso do calcitriol, somente com embasamento teórico, sem estudos com grau de evidencia estatisticamente suficientes para indicar seu uso).

Os níveis ideais de fósforo sérico para pacientes nefropatas são:

  • DRC estágio II – entre 2,5 e 4,5 mg/dL
  • DRC estágio III – entre 2,5 e 5,0 mg/dL
  • DRC estágio IV – entre 2,5 e 6,0 mg/dL

Pacientes com níveis de fósforo sérico acima de 6,6 mg/dL possuem índice de mortalidade 13% maior que gatos normofosfatêmicos, e pacientes com níveis maiores que 7,9 mg/dL possuem mortalidade 34% maior.

Sobrevida de gatos com DRC

Os gatos com DRC apresentam tempo de sobrevida maior que o dos cães nefropatas, quando comparados com graus similares da doença, segundo a IRIS.

Fatores como a concentração sérica de creatinina, relação proteína:creatinina urinária e contagem de leucócitos são variáveis independentes associadas com menor tempo de sobrevida nos gatos nefropatas. Variáveis como aumento da concentração sérica de fósforo e baixa do hematócrito (ambos associados com elevação da creatinina) também estão associados com menor sobrevida.

O estadiamento dos gatos não somente é fundamental no delineamento do tratamento e terapêutica direcionada, mas também para fornecer ao proprietário de um gato com DRC dados sobre o tempo médio de sobrevida (visto que muitos fazem questão de saber dados cada vez mais específicos sobre o tempo que seus animais de estimação possuem tendo determinada doença). Gatos estadiados em grau II tem uma sobrevida média de 1.151 dias; gatos em grau III, 778 dias; e gatos em grau IV, 103 dias. Isso ressalta a importância do diagnóstico precoce e correto manejo destes pacientes!

Figura 4 – Paciente com desidratação moderada. Este achado é comum em pacientes com doença renal crônica. Foto: arquivo pessoal do autor.

Figura 5 – Paciente com doença renal crônica estágio IV, apresentando fraqueza muscular e ventroflexão cervical decorrentes da hipocalemia. Foto: arquivo pessoal do autor.