Vanguard® Shot (Ano 1, nº 06) - Hepatite infecciosa canina – será que nunca vi um caso mesmo?

Empresa

Zoetis

Data de Publicação

15/01/2018

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A hepatite infecciosa canina é causada pelo adenovírus canino tipo 1 (CAV-1). Os adenovírus caracterizam-se por serem vírus de DNA não envelopados, o que os tornam muito resistentes à desinfecção ambiental. O adenovírus canino tipo 2 (CAV-2) causa tipicamente quadro de infecção de vias aéreas superiores, sendo um dos agentes etiológicos do complexo doença infecciosa respiratória canina.

A frequência da hepatite infecciosa canina caiu vertiginosamente após o advento das vacinas, que conferem proteção eficaz (imunidade estéril) na grande maioria dos casos. Todavia, até pelo fato de a doença ser considerada rara, seus sintomas podem passar despercebidos em certas situações clinicas, razão pela qual vale a pena relembrar algumas características desta enfermidade.

Outro ponto importante é que a cobertura vacinal da população canina no Brasil é considerada ainda muito inferior ao desejável para haver a imunidade populacional ou de rebanho, o que pode favorecer a ocorrência de casos isolados ou mesmo surtos.

O CAV-1 é eliminado pela saliva, fezes e urina de animais doentes, e a transmissão ocorre por meio do contato direto ou indireto via utensílios, mãos e roupas contaminados. Após exposição oronasal ou conjuntival, o vírus replica-se nas tonsilas, observando-se viremia pelo sistema linfático ou sangue, com duração de 4 a 8 dias.

O fígado é um dos primeiros órgãos infectados (células de Kupffer e hepatócitos), mas rins, pulmões, baço, sistema nervoso central e olhos podem ser afetados. A replicação viral no núcleo das células infectadas causa condensação e marginação da cromatina, com a subsequente formação de inclusões virais, que têm importância no diagnóstico. O período de incubação médio é de 4 a 9 dias.

A hepatite infecciosa canina é uma doença mais observada em cães com menos de 1 ano de idade, embora animais adultos também possam ser acometidos. Uma síndrome hiperaguda é caracterizada por colapso circulatório, coma e morte que ocorrem em pouco tempo (menos de 24 a 48 horas) após o início dos sintomas.

Os proprietários podem imaginar que os cães foram envenenados diante deste quadro clínico. Na forma aguda da doença, febre, linfadenomegalia cervical, inapetência, letargia, conjuntivite, vômito, hematemese, diarreia, tosse, taquipneia e icterícia podem ser observados. Petéquias, equimoses, epistaxe e sangramento nos locais de punção venosa também são descritos. Os sintomas neurológicos, como ataxia, convulsões, andar em círculos, cegueira, vocalização e “head pressing” podem ser observados a qualquer tempo após a infecção.

As alterações neurológicas também podem refletir encefalopatia hepática, trombose ou hemorragia no sistema nervoso central. Um marcante edema de córnea (olho azul ou “blue eye”) resulta da multiplicação viral nas células endoteliais da córnea, podendo haver uveíte anterior concomitante, com blefaroespasmo, fotofobia e secreção ocular serosa.

Essas alterações oculares ocorrem quando os animais infectados começam a se recuperar e podem ser o único sintoma em animais com infecção branda. O quadro ocular pode ser mono ou bilateral e costuma afetar pelo menos 20% dos cães infectados pelo CAV-1.

O diagnóstico é baseado na história clínica e exames complementares. Um quadro clínico agudo caracterizado por febre, sintomas respiratórios e gastrointestinais, acompanhado ou não de lesões oculares, particularmente em animais com menos de 1 ano não vacinados ou durante o esquema de imunização inicial, deve levantar a suspeição de hepatite infecciosa canina.

Acometimento de ninhadas com mortes súbitas consecutivas, em particular em canis, deve prontamente remeter à doença. Alterações hematológicas e bioquímicas como leucopenia, linfopenia, trombocitopenia, indução marcante de enzimas hepáticas, hipoglicemia, hipoalbuminemia, hiperbilirrubinemia, proteinúria e prolongamento dos tempos de coagulação (tempo de protrombina e tempo de tromboplastina parcial ativada) podem ser observados.

No entanto, o diagnóstico etiológico preciso requer provas adicionais. O exame necroscópico pode revelar uma série de alterações macroscópicas, de que são exemplos aumento de volume e congestão hepáticas, ascite, linfadenomegalia, petéquias e equimoses em serosas, hemorragias cerebrais e áreas de consolidação pulmonar.

Ao exame histopatológico, podem ser observadas as inclusões virais intranucleares em hepatócitos, células de Kupffer, células endoteliais dos vasos das meninges, córnea, glomérulos renais e linfonodos.

Se disponíveis, técnicas de imunoistoquímica podem ser aplicadas aos tecidos para confirmar a infecção. A reação em cadeia da polimerase e as técnicas de isolamento viral complementam as possibilidades para o diagnóstico. A Tabela 1 resume as técnicas diagnósticas disponíveis.

Fonte: Sykes, 2014.

O tratamento da hepatite infecciosa canina é estritamente sintomático, constituído de fluidoterapia para correção de desidratação e desequilíbrios hidroeletrolíticos, reposição de glicose, transfusão de sangue total ou plasma para repor fatores de coagulação, antimicrobianos e antieméticos.

Animais infectados devem ser isolados, atentando-se para os cuidados de desinfecção ambiental e limpeza de utensílios. O CAV-1 sobrevive por dias em temperatura ambiente e fômites, sendo inativado por derivados de iodo, fenol e hidróxido de sódio; ele também é inativado a 50-60°C por 5 minutos, o que torna a desinfecção por vapor um método potencialmente eficaz.

No entanto, a principal estratégia de prevenção é a vacinação. As primeiras vacinas disponíveis no mercado continham o CAV-1 atenuado que, apesar do elevado grau de proteção, causavam uma frequência indesejável de casos de edema de córnea (“blue eye”) e uveíte anterior, algo em torno de 0,49% dos animais vacinados (Figura 1).

Tal fato motivou a substituição das vacinas contendo o CAV-1 pelas vacinas com o CAV-2 atenuado, tendo em vista que se demonstrou imunidade cruzada entre o CAV-1 e o CAV-2. Assim, o mesmo CAV-2 contido nas vacinas atuais protege tanto contra a infecção pelo CAV-2 (respiratório) quanto contra a infecção pelo CAV-1. As vacinas contendo o CAV-2 são consideradas mais seguras que as contendo o CAV-1. Com elas, o problema de “blue eye” foi virtualmente eliminado6, pois raramente são vistos casos de uveíte. A Tabela 2 traz um comparativo entre as vacinas para hepatite infecciosa canina contendo CAV-1 e CAV-2.

*Fonte: Greene, 2012 (Web Table 4-1), disponível em http://www.greeneinfectiousdiseases.com/, acesso em 22 de junho de 2015, às 10h30min.

Pontos-chave:

A hepatite infecciosa canina é uma doença considerada atualmente rara em vista da vacinação regular dos cães, porém casos isolados ou surtos ainda podem ocorrer.

Animais com menos de 1 ano, em especial sem vacinação ou em fase de imunização inicial, são mais suscetíveis à infecção. Um quadro clínico agudo caracterizado por febre, sintomas respiratórios e gastrointestinais, acompanhados ou não de lesões oculares em animais nessas condições, deve levantar a suspeição da doença.

Morte súbita de ninhadas com quadro clínico compatível, em particular em canis, também deve remeter à doença.

A forma hiperaguda da doença caracteriza-se por colapso circulatório, coma e morte em menos de 24 a 48 horas do início dos sintomas; na forma aguda, sintomas respiratórios, gastrointestinais e alterações neurológicas podem ser observados.

O diagnóstico definitivo pode ser obtido pela observação de inclusões virais intranucleares em uma variedade de células, mas se trata de achado geralmente pós-morte; imunoistoquímica para confirmação etiológica das inclusões, PCR e isolamento viral complementam as provas diagnósticas disponíveis.

A manifestação clínica de olho azul ou “blue eye” pode ser observada na infecção natural pelo CAV-1; as vacinas antigas, que continham formas modificadas do CAV-1, causavam essa alteração em frequência indesejável nos animais vacinados, apesar de protegerem contra a doença.

As vacinas atuais utilizam o CAV-2 (agente da doença respiratória infecciosa canina), que protege de forma cruzada contra a hepatite infecciosa canina causada pelo CAV-1.

O risco de “blue eye” com as vacinas contendo CAV-2 é considerado raro a inexistente.

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