Vanguard® Shot (Ano 2, nº 10) - Reações alérgicas pós-vacinais: patogenia e quadro clínico

Empresa

Zoetis

Data de Publicação

15/01/2018

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Entre as reações pós-vacinais com base imunológica, encontram-se as chamadas reações de hipersensibilidade. Quatro são os tipos de reações de hipersensibilidade: tipo I – imediata ou alérgica, tipo II – citotoxicidade dependente de anticorpos, tipo III – mediada por imunocomplexos e IV – tardia ou mediada por células.

Apesar de a taxa de reações vacinais atualmente ser considerada muito baixa na população de cães e gatos em geral, as reações de hipersensibilidade do tipo I ou alérgicas são as mais comuns no atendimento veterinário de animais de companhia.

A patogenia das reações alérgicas envolve obrigatoriamente a participação de mastócitos, células originárias da medula óssea que maturam nos tecidos e são encontradas nos tecidos subepiteliais e ao longo dos vasos sanguíneos. Para que ocorra uma reação alérgica, é necessário ter havido exposição prévia do organismo a um determinado alérgeno, em geral proteínas e, menos comumente, carboidratos.

Sendo assim, as reações alérgicas vacinais tendem a ocorrer com frequência maior em animais que já receberam vacinas em algum momento da vida. Um estudo bastante abrangente em cães mostrou que o risco de reações vacinais em geral (incluindo as alérgicas) foi 35 a 64% maior em animais entre 1 e 3 anos que entre 2 a 9 meses, havendo declínio a partir dos 3 anos.

Esse resultado sugere que pode haver a necessidade de exposição aos alérgenos vacinais durante a primovacinação para que a reação desenvolva-se logo a seguir na idade adulta.

Vários componentes das vacinas podem servir como alérgenos (adjuvantes, antimicrobianos, preservativos e resíduos de meio de cultura), e não apenas os microrganismos em si. Após exposição primária a um antígeno, ocorre uma resposta do tipo Th2, com subsequente produção de citocinas que estimulam os linfócitos B a diferenciarem-se em plasmócitos e a secretar imunoglobulinas do tipo E (IgE).

Essas moléculas ligam-se então a receptores de mastócitos, tornando-os sensibilizados para aquele antígeno. Em uma nova exposição, os antígenos podem provocar a ligação cruzada de moléculas de IgE na membrana dos mastócitos, levando à sua ativação e à liberação de uma série de mediadores responsáveis pelos sintomas. A Figura 1 ilustra o processo de sensibilização dos mastócitos.

Figura 1 – A sensibilização dos mastócitos nas reações alérgicas. Em A, antígenos (Ag) são apresentados pelas células apresentadoras de antígeno (APC) a linfócitos T auxiliares (LTh2), que geram uma resposta do tipo 2. Linfócitos B (LB), sob estimulação de citocinas produzidas pelos LTh2, diferenciam-se em plasmócitos produtores de IgE (B). A seguir, as moléculas de IgE ligam-se a receptores presentes nas membranas dos mastócitos, sensibilizando-os. Diante de nova exposição ao mesmo antígeno, ocorre ligação cruzada entre as IgE de membrana e a consequente ativação do mastócito (C).

O primeiro evento de ativação dos mastócitos é a liberação de mediadores pré-formados contidos nos grânulos citoplasmáticos. Histamina, heparina, proteases e quemotectantes são algumas das substâncias prontamente liberadas na circulação em segundos após a ativação.

O prurido, a vasodilatação, o aumento de permeabilidade vascular e a broncoconstrição são efeitos diretos da histamina. A seguir, cerca de minutos após a ativação, observa-se a formação de eicosanoides, como prostaglandinas, prostaciclinas, tromboxanos e leucotrienos, provenientes da ação da fosfolipase A2 sobre os fosfolipídeos de membrana dos mastócitos.

Em conjunto, os eicosanoides promovem a inflamação, contribuindo para aumentar a permeabilidade vascular e a quimiotaxia de eosinófilos e basófilos. O evento mais demorado é a liberação de citocinas (IL-3, IL-4, IL-5, IL-13), produzidas algumas horas depois para reforçar a resposta Th2 e ativar eosinófilos. Tais células também contribuem para os sintomas da fase tardia das reações alérgicas (Figura 2).

Figura 2 – O mastócito ativado nas reações alérgicas. Após a ligação cruzada entre o antígeno (Ag) e as moléculas de imunoglobulina do tipo E (IgE), mediadores pré-formados são liberados em segundos. Eicosanoides, como prostaglandinas (PG), tromboxanos (TX), prostaciclinas (PGI) e leucotrienos (LT) são sintetizados a partir do ácido araquidônico (AA) proveniente dos fosfolipídeos de membrana minutos depois. Por fim, em algumas horas, citocinas são produzidas e liberadas pelos mastócitos.

Dois tipos principais de hipersensibilidade do tipo I podem ser identificados. Um deles é o choque anafilático, caracterizado por liberação massiva e imediata de mediadores pré-formados segundos a minutos após a vacina, resultando em profunda hipotensão e broncoconstrição. Vômitos, diarreia, sialorreia, dispneia (por edema pulmonar) e cianose podem ser observados inicialmente, evoluindo para decúbito e óbito.

Alguns animais, todavia, podem morrer imediatamente após a aplicação. Outra forma de hipersensibilidade, muito mais comum que o choque anafilático, possui um caráter mais brando, raramente com consequências fatais, e ocorre em geral no máximo em 24 horas após a aplicação.

Os cães podem apresentar angioedema, edema de face, pápulas, prurido, vômitos e diarreia. Os gatos, por outro lado, dificilmente apresentam angioedema, prurido e edema de face. Muitos deles terão vômitos, diarreia, prurido e alterações de comportamento, como tentativas de se esconder logo após a aplicação da vacina.

Dispneia e cianose são vistas nos casos mais graves. Pode-se dizer que todo choque anafilático é uma reação de hipersensibilidade do tipo 1, mas nem toda reação de hipersensibilidade do tipo 1 é um choque anafilático.

É muito importante atentar para as diferenças de sintomatologia entre cães e gatos com reações pós-vacinais. Aparentemente, cães são mais predispostos a reações alérgicas, ao passo que os gatos tendem a desenvolver reações mais sistêmicas (caracterizadas por febre, anorexia e apatia) e no ponto de aplicação.

Em um estudo sobre reações vacinais em cães nos 3 dias subsequentes à aplicação de vacinas, a taxa de eventos adversos foi de 0,382%. Dos animais com reações, 30,8% tiveram angioedema, 20,8% pápulas pelo corpo ou urticária e 15,3% prurido generalizado.1 Um estudo equivalente em gatos apontou 0,516% de reações nos 30 dias posteriores à vacinação; no entanto, apenas 5,7% dos animais manifestaram edema facial ou angioedema e 1,9% exibiram prurido generalizado.

O diagnóstico das reações de hipersensibilidade do tipo 1 é baseado no quadro clínico, havendo relação temporal com a aplicação de vacinas nas últimas 24 horas. Animais com histórico de reações vacinais alérgicas prévias devem merecer atenção especial.

Como alguns sintomas como vômitos e diarreia podem ser inespecíficos e compartilhados entre as reações anafiláticas brandas e o choque anafilático, é prudente a intervenção medicamentosa precoce e o acompanhamento dos animais em âmbito hospitalar por algumas horas antes da liberação para casa.

Pontos-chave:

As reações de hipersensibilidade do tipo 1 dependem primariamente do envolvimento de mastócitos, que liberam mediadores pré-formados e sintetizam eicosanoides e citocinas após a sua ativação

Reações alérgicas brandas e choque anafilático são as formas clínicas de hipersensibilidade do tipo 1.

Nem toda hipersensibilidade do tipo 1 pode ser considerada choque anafilático.

Cães e gatos podem diferir quanto à sintomatologia das reações pós-vacinais mais frequentes.

Reações de hipersensibilidade do tipo 1 ocorrem geralmente em até 24 horas após a aplicação da vacina, sendo o choque anafilático de início mais agudo.

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Embora raras, as reações alérgicas pós-vacinais podem ocorrer. Conhecer a patogenia e o seu quadro clínico contribuem para o tratamento adequado e a minimização de complicações.