Vanguard® Shot (Ano 2, nº 13) - As fases da imunização

Empresa

Zoetis

Data de Publicação

15/01/2018

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O processo de imunização ativa contra agentes virais e bacterianos, obtido por meio do uso das vacinas, possui algumas fases definidas. Sabe-se que os anticorpos maternos podem interferir negativamente na resposta às vacinas empregadas durante a série inicial em filhotes com menos de 16 semanas de idade; a partir de 16 semanas, cães e gatos são considerados em sua maioria “livres” dos anticorpos e seus efeitos.

Tanto para animais com anticorpos maternos como para aqueles que não os possuem, 3 fases da imunização são observadas: sensibilização (“prime”), imunização (“immunize”) e estimulação ou reforço (“boost”). A diferença principal é que, diante dos anticorpos maternos, essas fases podem ser adiadas, com o efeito protetor atingido somente após uma série de vacinações.

A sensibilização corresponde ao primeiro contato do organismo com um agente bacteriano ou viral. Em termos de imunidade mediada por anticorpos sistêmicos (humoral), a diferenciação inicial dos linfócitos B ainda não estimulados pelo antígeno vacinal direciona-se para a produção de imunoglobulinas do tipo M (IgM). A IgM é um tipo de anticorpo pentamérico, formado pela união de 5 moléculas de anticorpos monoméricos, cada qual com 2 locais de ligação de antígenos (Figura 1).

Sendo assim, uma molécula de IgM possui 10 locais de ligação de antígenos. A IgM é a primeira classe de anticorpos produzida pelo organismo em um resposta primária, tendo meia-vida curta e respondendo por um porcentual pequeno do total de imunoglobulinas no plasma. Além disso, ela desempenha um papel muito importante ao ativar de forma e ciente a via clássica do complemento.

Na fase de imunização, em que ocorre a segunda exposição ao mesmo antígeno, verica-se um desvio ou alteração de classe na produção de anticorpos. Essa fase, considerada uma resposta secundária, caracteriza-se pela produção de imunoglobulinas do tipo G (IgG) ou, dependendo da situação, IgA e IgE.

A IgG é um anticorpo monomérico, com 2 locais de ligação de antígenos, sendo o anticorpo predominante no plasma e também o de maior meia-vida. A IgG responde pelos fenômenos de opsonização e neutralização de antígenos, sendo também envolvida na citotoxicidade mediada por células dependente de anticorpos.

Figura 1 - Estrutura das imunoglobulinas do tipo M e G. Observa-se que IgM é pentamérica, com 10 locais de ligação a antígenos, ao passo que IgM é monomérica, possuindo 2 locais para ligação de antígenos.

Na fase de estimulação ou reforço (“boost”), as vacinas que desencadeiam imunidade humoral provocam uma resposta anamnéstica. Tal resposta é caracterizada pela produção muito rápida de um nível bastante elevado de anticorpos do tipo IgG, os quais possuem grande afinidade pelos seus antígenos.

A Figura 2 ilustra a cinética da produção de anticorpos em uma resposta vacinal primária e secundária. Verifica-se que em uma primeira exposição, a resposta predominante está relacionada a IgM, embora quantidades menores de IgG também sejam produzidas. Na segunda exposição, IgG é o anticorpo predominante. Outro ponto relevante a ser mencionado é que a quantidade total de anticorpos produzidos (IgM+IgG) é maior na resposta secundária.

Tais fatos possuem uma implicação clínica importante na interpretação de exames sorodiagnósticos para doenças infecciosas, em particular para animais vacinados. Por exemplo, a presença de níveis elevados de IgM em um animal pode significar doença ativa ou vacinação recente, em especial a primovacinação, onde se observa resposta primária (fase de sensibilização).

Por outro lado, níveis altos de IgG podem corresponder a exposição anterior a um antígeno (animal clinicamente recuperado), vacinação recente ou fase de recuperação de um processo infeccioso (convalescença). Com certeza, a realização de exames de sorodiagnóstico pareados, com acompanhamento minucioso do quadro clínico, é a melhor opção para contextualizar o significado dos testes.

Figura 2 - Perfil de produção das imunoglobulinas M, G e totais após as respostas imunes primária e secundária (adaptado de Tizard, 2013 – ref.2).

Na fase de estimulação ou reforço (“boost”), as vacinas que desencadeiam imunidade humoral provocam uma resposta anamnéstica. Tal resposta é caracterizada pela produção muito rápida de um nível bastante elevado de anticorpos do tipo IgG, os quais possuem grande afinidade pelos seus antígenos.

Na ausência de anticorpos maternos (acima de 16 semanas de vida), 2 doses de uma vacina morta são necessárias para imunizar o animal, sendo que a primeira dose sensibilizará e a segunda efetivamente imunizará. A exceção clássica a essa regra é a vacinação contra a raiva, pois se sabe que uma única dose é suficiente para assegurar a proteção.

No caso das vacinas vivas atenuadas, sem anticorpos maternos, em teoria apenas 1 dose é suficiente para sensibilizar e imunizar ao mesmo tempo (Figura 3). Todavia, como muitos produtos biológicos contêm frações vivas atenuadas e mortas, a aplicação de 2 doses é a conduta mais comum, sendo que as recomendações dos fabricantes de vacina devem ser sempre seguidas.

No caso das vacinas da linha Vanguard®, os agentes vivos modificados são o parvovírus, o vírus da cinomose, o adenovírus canino tipo 2 (que protege contra hepatite infecciosa canina e adenovirose respiratória) e o parainfluenza vírus. As frações mortas são as bacterinas de Leptospira e o coronavírus entérico.

Figura 3 – Perfil de produção de imunoglobulinas M, G e totais após a vacinação com vacinas mortas ou vivas atenuadas em um animal sem presença de anticorpos maternos (adaptado de Greene, 2012 – ref. 3)

Pontos-chave:

A imunização ativa contra agentes virais e bacterianos possui possui 3 fases distintas sensibilização (“prime”), imunização (“immunize”) e estimulação ou reforço (“boost").

Na fase de sensibilização ou resposta primária, ocorre predomínio de anticorpos do tipo IgM, com produção pequena de IgG.

Na fase de imunização ou resposta secundária, IgG é o anticorpo predominante, com níveis inferiores de IgM.

Na fase de estimulação ou reforço, observa-se resposta humoral anamnéstica, caracterizada por níveis altos de IgG alcançados em curto intervalo de tempo.

A observação de níveis elevados de IgM em um animal pode significar doença ativa ou vacinação, em particular a primovacinação.

Na ausência de anticorpos maternos (acima de 16 semanas de vida), 2 doses de uma vacina morta são requeridas para sensibilizar e imunizar, sendo que a primeira sensibiliza e a segunda efetivamente imuniza. A exceção é a vacina antirrábica.

Na ausência de anticorpos maternos (acima de 16 semanas de vida), 1 dose de uma vacina viva atenuada é suficiente para sensibilizar e imunizar ao mesmo tempo.

Como muitos produtos biológicos possuem compo- nentes vivos atenuados e mortos, a aplicação de 2 doses de vacina em um animal acima de 16 semanas de idade é a conduta mais comum; ressalte-se que as recomendações de bula dos produtos devem ser sempre seguidas.