Eficácia de uma coleira de imidacloprida (a 10%)/flumetrina (a 4,5%) de liberação lenta para prevenção de leishmaniose canina

Empresa

Bayer

Data de Publicação

01/03/2018

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Emanuele Brianti, Gabriella Gaglio, Ettore Napoli, Luigi Falsone, Chiara Prudente, Fabrizio Solari Basano, Maria S Latrofa, Viviana D Tarallo, Filipe Dantas-Torres, Gioia Capelli, Dorothee Stanneck, Salvatore Giannetto e Domenico Otranto

Resumo

Base

Avaliou-se a eficácia de uma coleira inseticida e repelente de liberação lenta que contém imidacloprida a 10% e flumetrina a 4,5% (Seresto, Bayer Animal Health) na prevenção de infecção por Leishmania infantum em uma grande população de cães que vivem em uma área hiperendêmica da Sicília (Itália).

Métodos

Inscreveu-se um total de 219 cães negativos quanto a L. infantum em um estudo multicêntrico controlado. Os cães foram divididos em dois grupos homogêneos, definidos como G1 (n = 102) e G2 (n = 117).

Antes do início da temporada de flebótomos, os cães em G1 foram tratados com a coleira, enquanto os animais em G2 foram deixados não tratados, servindo como controles negativos.

Os cães foram amostrados seriadamente nos dias D90, D180, D210 e D300 para avaliar a infecção por Leishmania por meio de IFAT, PCR na pele (D210-D300) e na medula óssea (D300) e citologia em aspirado da medula óssea (D300).

Resultados

Três cães (2,9%) em G1 e 41 (40,2%) em G2 se tornaram positivos quanto a L. infantum em pelo menos um dos testes diagnósticos empregados no estudo. O número de cães soropositivos em G2 aumentou durante o estudo de 15 (D90) para 41 (D300), com alguns deles também estando positivos em outros testes diagnósticos.

Oito (19,6%) dos cães soropositivos em G2 exibiram um aumento nos títulos de anticorpos que variou de 1:160 para 1:1.280. No último acompanhamento, alguns dos cães em G2 exibiram sinais clínicos claros sugestivos de leishmaniose.

A taxa de densidade de incidência média no acompanhamento final foi de 4,0% no caso de G1 e 60,7% no caso de G2, levando a uma eficácia média da coleira de 93,4% na proteção de cães em ambos os grupos.

Conclusões

Demonstrou-se que a coleira de liberação lenta testada neste estudo é segura e altamente efetiva na prevenção da infecção por L. infantum em uma grande população de cães.

A proteção conferida por uma única coleira (por até oito meses) se estendeu por toda uma temporada de flebótomos em uma área hiperendêmica do sul da Itália.

O uso regular de coleiras, pelo menos durante a temporada de flebótomos, pode representar uma estratégia confiável e sustentável para a prevenção de leishmaniose em cães que vivem em uma área endêmica ou viajam para esta.

Palavras-chave

Leishmania infantum, Cão, Leishmaniose canina, Prevenção, Controle

Base

A leishmaniose canina (CanL), causada por protozoários do gênero Leishmania (Kinetoplastida: Trypanosomatidae), ocorre mundialmente e é transmitida através das picadas de mosquitospalha flebotomíneos (flebótomos) (Diptera: Psychodidae).

Leishmania infantum constitui o agente etiológico mais importante de CanL e é responsável pela leishmaniose visceral e cutânea em humanos na Eurásia e América, com uma estimativa de 8,5/100.000 novos casos por ano nos países do sul da Europa (incluindo a Turquia).

Nas últimas duas décadas, a doença se espalhou para o norte a partir do sul da Europa, como resultado de vários fatores, tais como alterações na distribuição dos vetores flebótomos, aumento do movimento de cães do Mediterrâneo para as regiões central e setentrional e falta de medidas de controle efetivas.

Os cães atuam como hospedeiros reservatórios e a associação entre CanL e leishmaniose humana tem sido comprovada em áreas em que os flebótomos estão presentes.

Particularmente, cães com sinais clínicos claros atuam como o reservatório mais importante de L. infantum e exercem um papel importante na epidemiologia da infecção.

Portanto, embora o tratamento anti-Leishmania de cães infectados reduza os sinais clínicos e a carga parasitária, este não inibe completamente a infecção por meio de flebótomos.

Durante as últimas poucas décadas, várias tentativas têm sido feitas para melhorar as estratégias de controle e desenvolver medidas preventivas confiáveis e custo-efetivas em cães.

Por exemplo, vacinas recém-desenvolvidas têm demonstrado eficácia na prevenção da progressão de infecção ativa e doença.

Entretanto, a prevenção de picadas de flebótomos através do uso de compostos repelentes e inseticidas em diferentes formulações (por exemplo, spot-on, spray, coleiras impregnadas) é considerada como sendo o método mais efetivo de evitar infecção por L. infantum em cães e, portanto, reduzindo potencialmente o risco de infecção humana.

Vários compostos baseados em piretroides têm demonstrado ser efetivos contra infecção por Leishmania em cães que vivem em áreas endêmicas.

Recentemente, licenciou-se uma coleira de matriz polimerizada que contém uma combinação de imidacloprida a 10% e flumetrina a 4,5% (Seresto® , Bayer Animal Health), doravante referida como "coleira", para uso em cães e gatos.

Essa coleira conferiu proteção de longo prazo (oito meses) contra carrapatos e pulgas e foi bem-sucedida em evitar a transmissão de patógenos oriundos de carrapatos.

Embora essa coleira não esteja registrada atualmente contra flebótomos, um único estudo de campo preliminar demonstrou seu potencial para o controle de CanL em cães jovens de uma área endêmica.

Logo, este estudo investiga a eficácia da coleira na prevenção de infecção por L. infantum em cães de diferentes idades que vivem em dois abrigos bem povoados localizados em uma área hiperendêmica da bacia do Mediterrâneo.

Métodos

Declaração ética

Realizou-se um estudo multicêntrico e com controle negativo de acordo com os princípios de Boas Práticas Clínicas (VICH GL9 GCP, 2000 http://www.ema.europa.eu/docs/en_GB/document_library/Scientific_guideline/2009/10/WC500004343.pdf) e a diretriz sobre Princípios Estatísticos para Estudos Clínicos Veterinários (VICH CVMP/816/00, 2000 http://www.ema.europa.eu/docs/en_GB/document_library/Scientific_guideline/2012/01/WC500120834.pdf).

O desenho do estudo e os procedimentos experimentais foram aprovados e autorizados pelo Ministério da Saúde italiano (número de autorização DGSAF/297-03/04/2012).

Locais de estudo

Os cães foram alojados em dois abrigos de animais particulares na Sicília (sul da Itália), ou seja, Messina (38,241624o N, 15,522016o E, altitude de 520 m) e Augusta (37,239034o N, 15,135016o E, altitude de 394 m), referidos como local 1 (S1) e local 2 (S2), respectivamente.

Os locais de estudo estavam localizados em uma área hiperendêmica quanto a L. infantum, onde se descreveu a presença de vetores flebótomos competentes.

No local S1, eram abrigados aproximadamente 450 cães em 124 cercados que mediam 18,4 ou 54 m2 (Figura 1).

Os cães do estudo eram alojados em cercados com piso de concreto ou misto (concreto e cascalho fino), com esses cercados sendo separados por painéis de tela composta de alumínio.

O local 2 abrigava aproximadamente 530 cães em 38 cercados de piso misto, com cada um destes medindo cerca de 100 m2 . Em S2, os cercados eram separados por tela de arame de ferro (1 x 1 cm).

Em ambas as instalações, todos os cães possuíam uma área de repouso coberta adequada, com camas caninas, e uma área aberta externa. Em cada cercado, os cães tinham acesso diário a amplos cercados compartilhados e eram alimentados com ração canina seca comercial e água de torneira.

Desenho do estudo e procedimentos experimentais

Em março de 2012, antes da inscrição, triou-se um total de 455 cães (S1 = 144, S2 = 311) quanto a anticorpos anti-L. infantum circulantes, utilizando um teste de anticorpos imunofluorescentes indireto (IFAT) e/ou um teste ELISA rápido (ver abaixo).

Apenas cães negativos na triagem foram considerados como candidatos para inclusão no estudo. Em abril-maio de 2012 (Dia 0), esses animais foram examinados fisicamente e pesados e foram coletadas amostras sanguíneas, cutâneas e de medula óssea (ver abaixo).

Os cães que cumpriram os critérios de inclusão (saúde geral normal, > 7 semanas de idade, não tratados com produtos ectoparasiticidas ou drogas imunossupressoras nos meses anteriores e negativos quanto a L. infantum na sorologia (IFAT), na PCR cutânea e de medula óssea e na citologia de esfregaços de medula óssea a partir de amostras coletadas no momento da inclusão) foram inscritos no estudo.

Os cães incluídos foram identificados usando-se o código de microchip e foram designados para um dos dois grupos (G1 e G2), utilizando um plano de alocação de tratamento aleatório.

A randomização foi realizada dentro dos cercados em vez de alocar cães individuais para evitar que animais de ambos os grupos ficassem em contato físico em um cercado e que o ingrediente ativo fosse possivelmente transferido dos cães tratados para os não tratados.

No dia da inclusão (D0), coleiras com imidacloprida a 10% + flumetrina a 4,5% foram colocadas nos cães em G1 com base em seu peso corporal (ou seja, coleira pequena: < 8 kg/coleira grande: > 8 kg), enquanto os cães em G2 foram deixados sem tratar e serviram como controles negativos.

Os animais foram acompanhados nos dias 90, 180, 210 e 300 após a inclusão. Após cada acompanhamento, os cães eram fisicamente examinados e amostras sanguíneas, cutâneas e de medula óssea eram coletadas, como mostrado na Tabela 1.

As coleiras foram usadas dos dias 0 a 210 e só foram substituídas se tivessem sido perdidas ou se o peso do animal tivesse aumentado acima do limiar de 8 kg.

As coleiras foram removidas dos cães no grupo G1 no dia 210 e não foram substituídas. Todos os cães incluídos no estudo foram observados diariamente quanto a qualquer alteração em sua saúde.

Não se permitiu o uso de outros ectoparasiticidas nos cães ou no ambiente por todo o período de estudo. No entanto, tratamentos individuais foram autorizados quando ocorreram fortes infestações por carrapatos ou pulgas.

Devido à natureza do produto veterinário em investigação (coleira), o cegamento só foi aplicável para o pessoal que realizou as análises laboratoriais.

Amostragem e procedimentos diagnósticos

Amostras sanguíneas de aproximadamente 5 mL foram coletadas em tubos de vácuo a partir da veia braquial ou jugular, foram imediatamente transferidas para armazenamento resfriado (+4oC), foram deixadas em repouso para coagular e foram centrifugadas (1.700 rpm por 10 minutos).

O soro resultante foi coletado em microtubos individuais. As amostras de tecido cutâneo (cerca de 0,5 cm2) foram coletadas a partir da região interescapular e foram armazenadas em microtubos individuais que continham 1 mL de solução PBS (solução salina-tampão de fosfato).

A medula óssea foi amostrada por meio de uma técnica de aspiração a partir da crista ilíaca utilizando agulhas Rosenthal (calibre 16 ou 18) e foi armazenada da mesma forma que as amostras sanguíneas e cutâneas.

Além disso, as amostras de medula óssea foram aplicadas como esfregaço em lâminas para exame citológico quanto a amastigotos de L. infantum. Os microtubos contendo amostras séricas, cutâneas e de medula óssea foram armazenados a -20oC até a análise.

As amostras séricas foram testadas quanto a anticorpos anti-L. infantum circulantes por meio de IFAT, utilizando um corte de 1:80, conforme descrito em outro local.

Os soros positivos também foram titulados usando-se diluições seriadas até ficarem negativos. Além disso, a fim de reduzir o risco de incluir cães potencialmente infectados, as amostras séricas coletadas na triagem preliminar foram testadas usando-se 1:40 como corte.

Realizou-se uma PCR para amplificação do DNA de Leishmania em amostras cutâneas e de medula óssea. Extraiuse o DNA total utilizando o Genomic DNA Purification Kit (Gentra Systems, Minnesota, EUA) e o QIAampDNA Micro Kit (Qiagen, GmbH, Hilden, Alemanha), respectivamente, e amplificou-se um fragmento do minicírculo de DNA do cinetoplasto de L. infantum utilizando o kit de primer de MC1/MC2.

Os amplicons foram redissolvidos em géis de agarose corados com brometo de etídio (a 2%) (Gellyphor, Itália) e dimensionados por meio de comparação com marcadores na Gene Ruler™ 100 bp DNA Ladder (MBI Fermentas, Lituânia).

Os géis foram fotografados usando-se um sistema de documentação digital (Gel Doc 2000, BioRad, Reino Unido). Os esfregaços de medula óssea foram corados com MGG Quick Stain (Bio-Optica, Itália) e examinados microscopicamente quanto a amastigotos de L. infantum.

Cada esfregaço foi examinado por cerca de 10 minutos sob microscopia luminosa (100 campos microscópicos), utilizando uma objetiva de imersão em óleo de 100x.

Pesquisa entomológica da atividade de flebótomos

Armadilhas luminosas foram usadas para avaliar a espécie e a atividade dos flebótomos nos abrigos investigados.

Começando a partir de maio de 2012, duas armadilhas eram colocadas quinzenalmente em cada abrigo, a 50 cm acima do solo, antes do pôr-do-sol (6:00 da tarde) e deixadas in situ por 12 horas (6:00 da manhã).

Suspendeu-se a atividade de monitoramento após três procedimentos negativos consecutivos. Os flebótomos capturados e agrupados por abrigo e dia de coleta foram contados e as espécies foram identificadas usando-se chaves morfológicas.

Análise estatística

O tamanho de amostra mínimo por grupo (n = 107) foi determinado por Win-Episcope 2.0 [36], com base em uma incidência esperada de 1 e 10% em G1 e G2, respectivamente (potência = 90% e nível de confiança = 95%).

A homogeneidade dos grupos foi calculada retrospectivamente nas características basais no dia 0 (tais como sexo, idade, comprimento do pelame e peso corporal) utilizando um teste do qui-quadrado ou um teste exato de Fisher no caso de dados qualitativos (sexo, comprimento do pelame) e uma análise de variância (ANOVA) no caso de dados quantitativos (idade e peso).

Como o objetivo do estudo foi definir a eficácia do tratamento na prevenção de infecção por L. infantum, os cães negativos foram definidos como aqueles que foram negativos em qualquer um dos testes diagnósticos usados (IFAT, PCR dos tecidos cutâneo e da medula óssea, citologia de aspirado de medula óssea) por todo o estudo.

A avaliação de eficácia foi baseada na comparação da incidência de cães infectados por L. infantum nos dois grupos de tratamento.

A incidência foi calculada como sendo a incidência bruta anual (ou seja, considerando apenas os resultados da amostragem final, independentemente do que ocorreu no período) como segue: incidência bruta anual = número de cães recém-infectados por L. infantum/(número de cães negativos inicialmente inscritos - número de cães perdidos ou mortos) x 100.

Para superar o problema dos cães perdidos no acompanhamento durante o estudo, também se calculou a incidência de infecção usando a taxa de densidade de incidência (IDR).

Foram calculadas IDR em cada acompanhamento, como sendo o número de cães recém-infectados em qualquer teste diagnóstico, dividido pelo número de cães-meses de acompanhamento (ou seja, o número de meses entre as avaliações anterior e atual para cada cão em risco de infecção por L. infantum).

Os cães testados apenas uma vez (por exemplo, perdidos, mortos) não contribuíram em nenhum momento para o cálculo da incidência. Depois, as IDR finais foram expressas por ano.

A eficácia (%) da coleira na prevenção de infecção por L. infantum foi calculada usando-se esta fórmula: % de proteção = (% de cães positivos no grupo G2 - % de cães positivos no grupo G1)/(% de cães positivos no grupo G2) x 100.

A porcentagem de cães positivos foi calculada como a IDR. A significância da eficácia (ou seja, a significância da diferença entre as IDR nos cães com e sem coleira) foi testada usando-se o teste do quiquadrado.

Resultados

Na triagem preliminar, 355 (78%) dos 455 cães testaram como sendo sorologicamente negativos quanto a anticorpos anti-L. infantum circulantes (Tabela 2). A porcentagem de cães soropositivos foi mais alta (p > 0,05) em S2 (25,4%; 79/311) do que em S1 (14,6%; 21/144).

No Dia 0, estavam inscritos 279 (G1 = 135, G2 = 144) cães; no entanto, 60 (G1 = 33, G2 = 27) foram excluídos do estudo por terem sido positivos na sorologia e/ou na PCR nas amostras coletadas no dia 0 (G1 = 26, G2 = 22), por terem relutado em manter a coleira (G1 = 3), por terem sido dados em adoção (G2 = 1), por terem morrido antes da primeira visita de acompanhamento (G1 = 2, G2 = 4) ou por terem um histórico de leishmaniose relatado (G1 = 2).

Consequentemente, manteve-se um total de 219 (G1 = 102, G2 = 117) cães no estudo, que foram incluídos no cálculo da eficácia. Esses cães foram homogeneamente distribuídos (p > 0,05) com relação a sexo, comprimento de pelame, idade e peso (Tabela 3).

No decorrer do estudo, 29 (G1 = 16, G2 = 13) foram perdidos no acompanhamento em diferentes pontos de checagem devido a um resultado fatal de agressões (brigas) (G1 = 11, G2 = 12), insuficiência renal (G2 = 1) ou exclusão por terem perdido a coleira mais de 3 vezes (G1 = 5).

Nos animais tratados, as coleiras eram trocadas se o peso do cão aumentasse acima do limiar de 8 kg (n = 8) ou porque estas foram danificadas ou perdidas uma (n = 10) ou mais (n = 3) vezes

Globalmente, três cães (2,9%) em G1 e 47 (40,2%) em G2 testaram positivamente quanto a L. infantum em pelo menos um dos testes diagnósticos empregados no estudo.

O número de cães soropositivos em G2 aumentou no decorrer do estudo de 15 (primeiro acompanhamento) para 41 (quarto acompanhamento), com alguns deles (n = 19; 40,4%) também sendo positivos na PCR em pele e/ou medula óssea e/ou na citologia em aspirado de medula óssea (Tabela 4).

Todos os cães, exceto quanto a um que apresentou uma soroconversão inicial, permaneceram positivos até o final do estudo. Oito dos cães soropositivos (19,6%) em G2 exibiram aumento nos títulos de anticorpos que variaram de 1:160 para 1:1.280.

Dentre os cães soropositivos em G1, descobriu-se que dois eram positivos desde o segundo acompanhamento, enquanto o terceiro testou sorologicamente de forma positiva no último acompanhamento (Tabela 4).

No último acompanhamento, alguns dos cães positivos em G2 exibiram sinais clínicos claros sugestivos de CanL, com aumento de volume linfonodal (n = 28; 68,3%) e dermatite esfoliativa seca (n = 6; 14,6%) sendo os sinais mais frequentes (Figura 2).

A incidência bruta anual calculada usando-se cães que permaneceram no estudo até o último acompanhamento programado (D300) foi de 3,5% (3/86) e (39,4%) (41/104) nos casos de G1 e G2, respectivamente (p < 0,001). As IDR para cada grupo em cada acompanhamento estão exibidas na Tabela 5.

A IDR média no acompanhamento final foi de 4,0% no caso de G1 e 60,7% no caso de G2. Por isso, a eficácia média da coleira na proteção de cães contra infecção por L. infantum foi de 93,4% (p < 0,01), variando de 90,5 a 100% nos locais S1 e S2, respectivamente.

Não foram observados eventos adversos ou efeitos colaterais relacionados às coleiras nos cães tratados. Foram registradas infecções graves por carrapatos em 38 cães em G2; esses animais foram tratados individualmente por meio de remoção manual (n = 17) ou com um produto ectoparasiticida individual não repelente, ou seja, Frontline® spot-on, Merial SAS (n = 21).

Flebótomos (n = 700) foram capturados do final de maio de 2012 até a primeira semana de novembro de 2012 (S1) e do final de junho até outubro (S2).

Em ambos os locais, Sergentomyia minuta foi a espécie mais bem representada (433 fêmeas e 83 machos; 73,7%), seguido por Phlebotomus perniciosus (84 machos e 35 fêmeas, 16,9%), Phlebotomus perfiliewi (42 fêmeas e 13 machos; 7,9%) e Phlebotomus neglectus (7 fêmeas e 2 machos; 1,3%).

Capturou-se uma única fêmea de Phlebotomus sergenti no local S2. O maior número (n = 327) de flebótomos foi capturado em setembro, enquanto a maioria dos espécimes de P. perniciosus foi coletada em agosto (n = 21), setembro (n = 40) e outubro (n = 25), respectivamente.

Discussão

A coleira de liberação lenta testada neste estudo provou ser segura e altamente efetiva (eficácia média no acompanhamento final = 93,4%) na prevenção de infecção por L. infantum em cães que viviam em uma área hiperendêmica quanto a CanL. Um único estudo de campo preliminar sugeriu o alto potencial dessa coleira na prevenção de CanL em cães jovens jamais expostos a uma temporada de transmissão.

No presente estudo, confirmamos e ampliamos esse conhecimento ao testar a coleira em uma população de cães maior e heterogênea em uma área hiperendêmica quanto a CanL. A hiperendemicidade de ambos os locais de estudo foi confirmada pela incidência anual (39,4%) e pela IDR média (60,7%) registrada nos cães controle no último acompanhamento, que são as mais altas já registradas no sul da Itália.

Isso pode se dever à presença simultânea de animais doentes e cães não protegidos suscetíveis nos dois abrigos, junto com a presença de espécies competentes de flebótomos.

Além disso, de acordo com os resultados da triagem preliminar, um grande número de cães aparentemente saudáveis, porém soropositivos, estava presente em ambos os locais de estudo (S1 = 14,6%; 21/144 e S2 = 25,4% 79/311).

No decorrer do estudo, um total de 47 (40,2%) dos 117 cães sem coleira testaram positivamente pelo menos em uma das quatro investigações de acompanhamento.

A maioria desses cães só estava positiva na sorologia, enquanto outros (n = 19/47; 40,4%) exibiam uma infecção ativa, testando positivamente de forma simultânea por meio de diferentes métodos diagnósticos (sorologia, PCR e citologia).

O status de infecção ativa também foi corroborado pelo aumento nos títulos de anticorpos registrado em oito cães (19,6%). Sabe-se que, uma vez estabelecida em cães, a infecção por L. infantum progride por um período variável de tempo através de diferentes apresentações clínicas, embora, nos 12 meses pós-infecção, a maioria dos cães não exiba uma afecção clínica.

De acordo com isso, no presente estudo, embora aumento de volume linfonodal tenha sido o sinal clínico mais frequentemente encontrado (68,3%) nos cães sorologicamente positivos, outros sinais (tais como dermatite esfoliativa seca e perda de peso) foram observados no último acompanhamento em 14,6 e 2,4% dos cães, respectivamente.

Entre os cães com coleira, apenas três animais se tornaram soropositivos quanto a L. infantum. Embora soropositivos, esses animais não exibiam sinais clínicos sugestivos de CanL.

Esses três cães estavam alojados no local S2, onde se registrou a IDR mais alta da infecção (63,9%) nos cães controle no último acompanhamento. Isso pode explicar a alta pressão parasitária no local S2, que levou finalmente a uma porcentagem de proteção abaixo de 100%.

Aceita-se que o mecanismo pelo qual a coleira protege cães contra infecção por Leishmania é o efeito antialimentação dos insetos da flumetrina, que reduz o número de picadas de flebótomos e, por sua vez, o desafio da infecção.

Da mesma forma, tem-se demonstrado que um pequeno número de flebótomos pode se alimentar efetivamente em cães com coleira, como foi mostrado em um estudo com cães que usavam coleiras impregnadas com deltametrina.

Entretanto, a maior parte dos flebótomos que se alimentaram em cães com coleira morrerá em poucas horas. Logo, podese concluir que, mesmo que alguns cães com coleira possam se infectar se forem picados por um flebótomo infectado, dificilmente contribuirão para a transmissão da infecção para outros cães.

De fato, a maior parte dos flebótomos será repelida quando entrar em contato com um cão com coleira, e os poucos que forem capazes de se alimentar nesses cães morrerão logo depois disso.

A eficácia porcentual da coleira que continha imidacloprida (a 10%) e flumetrina (4,5%) contra infecção por L. infantum registrada em cães jovens (100%) [30] ou no presente estudo (93,4%) é mais alta que a obtida se usando uma coleira impregnada com deltametrina, que resultou em um máximo de 86% após duas temporadas consecutivas no sul da Itália.

Isso pode se dever ao efeito residual mais longo da coleira com imidacloprida/flumetrina (até 8 meses) do que com a coleira com deltametrina (até 5 meses) como resultado do mecanismo de liberação lenta do primeiro dispositivo.

No presente estudo, os cães tratados usaram a coleira por até oito meses (de maio a dezembro). De acordo com isso, as espécies de flebótomo que são vetores competentes de L. infantum (P. perniciosus, P. perfiliewi e P. neglectus) foram capturadas de junho a outubro e de maio a novembro nos locais S1 e S2, respectivamente.

A captura de um espécime único de P. sergenti em S2 também tem interesse, considerando que essa espécie está envolvida na transmissão de Leishmania tropica, o agente etiológico da leishmaniose cutânea humana no Oriente Médio e na África.

Apesar do período prolongado no qual as coleiras foram usadas e da tipologia dos animais tratados (ou seja, animais abrigados vivendo em cercados coletivos separados por telas de arame de ferro), não foram registrados efeitos colaterais ou acidentes durante o estudo.

A porcentagem (22,5%) de reposições de coleira observada no estudo é semelhante à relatada em uma investigação anterior que envolveu a mesma coleira. De fato, os cães que perderam a coleira eram predominantemente jovens e provavelmente animais bem vivos e brincalhões.

Conclusões

A coleira de liberação lenta que contém uma combinação de imidacloprida a 10% e flumetrina a 4,5% testada neste estudo provou ser segura e altamente efetiva (90,5-100%) na prevenção de infecção por L. infantum em um grupo grande e heterogêneo de cães.

A proteção rotulada conferida por uma única coleira (oito meses) se estendeu por uma temporada de flebótomos inteira na área examinada, onde os flebótomos competentes ficam ativos de maio a novembro.

Portanto, o uso regular de coleiras, pelo menos durante a temporada de flebótomos, pode ser considerado como sendo uma estratégia confiável e sustentável para o controle de leishmaniose em cães que vivem em uma área endêmica quanto a CanL ou viajam para esta.

Interesses conflitantes

DS é funcionária da Bayer Animal Health GmbH, Leverkusen, Alemanha. A ARCOBLU S.R.L. é uma organização de pesquisa por contrato independente, que foi contratada para administrar e monitorar o estudo. FSB é o gerente de projeto da ARCOBLU S.R.L. Todos os autores publicam este artigo voluntariamente e não possuem interesse pessoal neste estudo além de publicar os achados científicos.

Contribuições dos autores

EB, DO, FDT, DS e FSB conceberam e desenharam a pesquisa. EB, GG, EN, LF, CP, VDT e MSL realizaram a pesquisa de campo e o trabalho laboratorial. GG realizou o estudo entomológico. FSB monitorou o estudo. FSB e GC realizaram a análise estatística dos dados. EB e DO redigiram a primeira versão do manuscrito. Todos os autores contribuíram para a revisão do manuscrito e aprovaram sua versão final.

Agradecimentos

Agradecemos a Sebastiano Ficara e Raimondo Gissara, da autoridade sanitária local (Dipartimento Veterinario ASP 8, Siracusa) por seu trabalho com os procedimentos administrativos do estudo. Os autores agradecem à equipe dos abrigos de animais e aos veterinários Giuseppe Cicero (clínico em Augusta) e Alessandro Taormina (clínico em Messina), que participaram deste estudo. Agradecemos ao pessoal da Arcoblu pela coordenação do projeto.

Detalhes dos autores

  • Dipartimento di Scienze Veterinarie, Università degli Studi di Messina, Polo Universitario Annunziata, 98168 Messina, Itália.
  • Arcoblu s.r.l., Via Alessandro Milesi 5, 20133 Milão, Itália.
  • Dipartimento di Medicina Veterinaria, Università degli Studi di Bari, Strada Provinciale per Casamassima, 70010 Valenzano, Bari, Itália.
  • Departamento de Imunologia, Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Recife, Brasil.
  • Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie, Laboratorio di Parassitologia, Legnaro, Itália.
  • Bayer Animal Health GmbH, Leverkusen, Alemanha.