Prevenção de leishmaniose felina com uma coleira de matriz polimérica com imidacloprida a 10%/flumetrina a 4,5%

Empresa

Bayer

Data de Publicação

01/03/2018

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Produtos Relacionados

Emanuele Brianti, Luigi Falsone, Ettore Napoli, Gabriella Gaglio, Salvatore Giannetto, Maria Grazia Pennisi, Vito Priolo, Maria Stefania Latrofa, Viviana Domenica Tarallo, Fabrizio Solari Basano, Roberto Nazzari, Katrin Deuster, Matthias Pollmeier, Laura Gulotta, Vito Colella, Filipe Dantas-Torres, Gioia Capelli e Domenico Otranto

Resumo

Base

A leishmaniose causada por Leishmania infantum é uma das doenças oriundas de vetores mais importantes que afetam animais e humanos em todo o mundo. Os cães são considerados reservatórios importantes das formas zoonóticas, embora, nos últimos anos, o papel dos gatos como reservatórios venha sendo cada vez mais investigado.

A leishmaniose felina (FeL) ocorre em áreas endêmicas e nenhuma medida preventiva específica tem sido investigada até o momento.

Neste estudo, avaliou-se a eficácia de uma coleira de matriz polimérica de imidacloprida a 10%/flumetrina a 4,5%, licenciada para prevenção de carrapatos e pulgas, contra a FeL, em um estudo longitudinal em 204 gatos de propriedade particular das ilhas Eólias (Sicília), uma área altamente endêmica quanto à doença.

Gatos negativos quanto a FeL receberam coleiras (G1, n = 104) ou foram deixados sem tratar (G2, n = 100) de março a maio de 2015 [Dia de Estudo 0 [SD 0]).

O diagnóstico consistiu em sorologia e qPCR no sangue e em swabs conjuntivais, que foram coletados na linha-base (SD 0) e no final do estudo (SD 360). Foram realizados exames clínicos intervalares em SD 210 (quando os colares foram trocados em G1) e SD 270.

Resultados

Resultados: Dos 159 gatos que concluíram o estudo, 5 em G1 e 20 em G2 foram positivos quanto a infecção por L. infantum em pelo menos um dos testes diagnósticos, levando a uma incidência bruta anual de 6,3 e 25,0% em G1 e G2, respectivamente (p = 0,0026).

Isso se traduz em uma eficácia de coleira de 75,0% na prevenção de infecção por Leishmania felina. A coleira foi geralmente bem tolerada, sem nenhuma reação adversa sistêmica, e poucas reações cutâneas locais foram observadas na área de aplicação em quatro dos 104 gatos tratados (3,8%).

Conclusões

A coleira com imidacloprida a 10%/flumetrina a 4,5% reduziu significativamente o risco de infecção por L. infantum em gatos. No nosso conhecimento, este é o primeiro estudo em que se avalia uma estratégia preventiva contra infecção por Leishmania felina sob condições naturais.

Esses achados preenchem um hiato na medicina veterinária por confirmarem essa coleira como sendo uma ferramenta na redução do risco de infecção por Leishmania em gatos.

Tal ferramenta preventiva poderia contribuir para a redução do risco da doença em populações animais e humanas quando fosse incluída em programas integrados de controle de leishmaniose.

Palavras-chave

Leishmania infantum, Gato, Leishmaniose felina, Prevenção, Piretroides, Flumetrina

Base

A leishmaniose causada por Leishmania infantum (Kinetoplastida: Trypanosomatidae) é uma doença parasitária oriunda de vetores que afeta animais e humanos em todo o mundo.

Em humanos, a doença está incluída entre as doenças tropicais negligenciadas mais importantes, com até 0,4 a 1,2 milhão de casos por ano no caso das formas visceral e cutânea, respectivamente, e tem sido a única doença tropical oriunda de vetores endêmica do sul da Europa há décadas.

Embora os cães sejam considerados como sendo reservatórios primários de L. infantum em muitas áreas endêmicas, outras espécies de animais domésticos e silvestres têm sido implicadas na epidemiologia da infecção como reservatórios secundários.

Desde o primeiro relato de leishmaniose felina (FeL), o gato tem sido considerado como sendo uma espécie resistente, e seu envolvimento tem sido considerado como sendo desprezível para a epidemiologia da infecção.

A principal razão para essa suposição foi o baixo número de casos clínicos em gatos, especialmente quando comparados com os de cães que vivem nas mesmas áreas endêmicas.

Nos últimos anos, o desenvolvimento da medicina veterinária, acoplado ao uso de protocolos sorológicos e moleculares mais refinados para diagnosticar a infecção em gatos, tem fornecido pistas para um melhor entendimento da FeL.

Portanto, casos de FeL têm sido relatados cada vez mais em áreas endêmicas quanto a leishmaniose canina, com taxas de prevalência de até 68,5%, de acordo com a população estudada e com as metodologias diagnósticas.

Da mesma forma, apesar de o número de casos clínicos sempre ter sido considerando como sendo marginal, os relatos de afecções clínicas devidas a FeL estão aumentando em gatos que estão sofrendo de infecções imunodebilitantes concomitantes (tais como vírus da imunodeficiência felina (FIV) e vírus da leucemia felina (FeLV)) ou doenças neoplásicas ou em animais sem nenhuma evidência de coinfecções.

Notavelmente, os sinais de FeL se sobrepõem parcialmente aos observados em cães doentes, com lesões cutâneas e aumento de volume linfonodal sendo os mais frequentemente descritos.

Os mosquitos-palha flebotomíneos (flebótomos), os vetores naturais de L. infantum, são generalistas em alimentação e podem extrair suas refeições de sangue a partir de vários animais silvestres e domésticos, incluindo gatos.

A infecciosidade de gatos infectados por L. infantum tem sido demonstrada em estudos de xenodiagnóstico quanto a Phlebotomus perniciosus e Lutzomyia longipalpis, dois vetores competentes.

Esses dados forneceram finalmente evidências adicionais sobre o possível papel dos gatos como reservatórios para L. infantum.

Um estudo recente sobre doenças oriundas de vetores (VBD) de gatos e cães das ilhas Eólias (Sicília, sul da Itália), uma área endêmica quanto a L. infantum, com uma prevalência descrita de 26 e 42% em gatos e cães, respectivamente, por meio de métodos sorológicos e moleculares.

Além disso, avaliou-se uma incidência anual de até 15% de infecção por L. infantum em gatos expostos a uma temporada de transmissão, indicando que, como os cães, gatos que vivem em áreas endêmicas ficam expostos à infecção.

Os gatos são reconhecidos agora como reservatórios domésticos potenciais de L. infantum e estratégias para evitar infecção nessa espécie animal têm sido defendidas.

Atualmente, a estratégia mais promissora para prevenção da infecção por Leishmania em cães é o uso de piretroides sintéticos em diferentes formulações (por exemplo, spot-on, coleira e spray) com propriedades repelentes contra flebótomos.

No entanto, a maior parte dos piretroides, exceto quanto à flumetrina, é tóxica para gatos, atrapalhando os estudos sobre a prevenção de infeção por Leishmania nessa espécie animal.

Registrou-se recentemente uma coleira de matriz polimérica que contém uma combinação de imidacloprida a 10% e flumetrina a 4,5% (coleira Seresto®, Bayer Animal Health GmbH, Monheim, Alemanha), doravante referida como coleira, para uso em gatos para prevenção de infestações por pulgas e carrapatos associadas com atividade repelente (antialimentação dos insetos).

Essa mesma coleira também está disponível para o controle (por até 8 meses) de carrapatos e pulgas em cães; embora não esteja registrada com uma declaração contra flebótomos, a coleira mostrou ser altamente efetiva (ou seja, eficácia de 88,3 a 100%) em reduzir o risco de infecção por L. infantum em cães que vivem em áreas endêmicas.

No presente estudo, investigamos a eficácia da coleira na prevenção de infecção por Leishmania felina em uma coorte de gatos de propriedade particular que vivem no arquipélago das Eólias, onde a FeL por L. infantum é altamente endêmica.

Métodos

Locais de estudo e animais

O estudo foi realizado de março de 2015 a abril de 2016 em Lipari e Vulcano, duas das ilhas principais do arquipélago das Eólias (Mar Tirreno, Sicília, Itália, 38,4724o N, 14,9541o E), uma área geográfica reconhecida como sendo endêmica quanto a VBD caninas e felinas e onde se registraram uma prevalência global de 26% e uma incidência de 15% de infecção por L. infantum em gatos.

Os animais foram inscritos no estudo de março a maio de 2015, antes do início da temporada de flebótomos e não deixaram a área do estudo ou viajaram para outros lugares.

Os gatos inscritos no estudo tinham 10 semanas de idade ou mais, em condições satisfatórias de saúde geral, com acesso constante ao ambiente externo ou vivendo externamente a casas e negativos quanto a infecção por L. infantum por sorologia, PCR em tempo real quantitativa (qPCR) e citologia (ver abaixo).

Desenho do estudo

O estudo foi um estudo de campo randomizado, parcialmente cegado e negativamente controlado, conduzido com Boas Práticas Clínicas (VICH GL9 GCP) (http://www.vichsec.org), realizado em gatos de propriedade particular.

O protocolo do estudo foi aprovado pelo Ministério da Saúde italiano e os animais foram incluídos apenas após a assinatura de um consentimento esclarecido por parte do proprietário.

Na inclusão [Dia do Estudo 0 (SD 0)], os gatos foram identificados, examinados fisicamente, pesados e alocados para os grupos de tratamento (G1 = coleira Seresto® para gatos ou G2 = controle não tratado) após um plano de alocação aleatória "por residência" para evitar contato entre os gatos que usam coleira e os não tratados.

Os animais foram amostrados quanto a sangue e swabs conjuntivais, e os que foram designados para G1 foram tratados com a coleira de acordo com o folheto da embalagem.

Resumidamente, a coleira foi apertada ao redor do pescoço do gato e ajustada de acordo com as instruções do rótulo até se obter um ajuste confortável, no qual seria possível inserir dois dedos entre a coleira e o pescoço quando fosse apertada.

Os animais designados para o grupo G2 não foram tratados e serviram como controles negativos.

Todos os gatos incluídos foram clinicamente examinados e pesados nos SD 210, 270 e 360 (Fig. 1).

Além disso, em SD 360 (conclusão do estudo), os gatos foram amostrados novamente quanto a sangue e swabs conjuntivais.

As coleiras dos gatos do grupo G1 foram trocadas em SD 210 e a qualquer momento do estudo em caso de perda ou dano.

Durante o estudo, os gatos permaneceram com seus proprietários e foram tratados de acordo com a rotina normal, sem nenhuma medida de contenção ou restrição.

Pediu-se que os proprietários observassem seus animais diariamente e relatassem, tão logo notassem, qualquer anormalidade na saúde geral dos animais, bem como perdas ou danos às coleiras nos gatos do grupo G1.

Não se permitiu nenhum tratamento com produtos com eficácia conhecida contra vetores de L. infantum ou ectoparasitas por todo o estudo.

No caso dos animais do grupo G2, em caso de infestação grave por pulgas, permitiu-se um tratamento de resgate com Avantage® para gatos (imidacloprida, Bayer Animal Health GmbH, Monheim, Alemanha) por razões de bem-estar animal.

Coleta de amostras e procedimentos laboratoriais

Amostras sanguíneas de cerca de 5 mL foram coletadas a partir da veia jugular, com 2 mL destas tendo sido divididos em dois tubos com anticoagulante (K3-EDTA).

Preencheram-se dois tubos capilares a partir do primeiro tubo, que foram centrifugados para extração de creme leucocitário e preparação de esfregaços em lâminas de vidro.

Processou-se o sangue restante para hemograma completo, utilizando um contador automático de células sanguíneas (ProCyte Dx®, IDEXX Laboratories, Westbrook, Maine, EUA).

O sangue no segundo tubo com EDTA foi processado e analisado para o diagnóstico molecular de L. infantum.

Três mililitros de sangue foram armazenados em um tubo com ativador de coagulação, a partir do qual se obteve o soro por meio de centrifugação (1.800x g por 10 min), e foram armazenados congelados (-20oC) até a análise.

Swabs conjuntivais foram coletados para o diagnóstico de infecção por L. infantum, utilizando-se swabs de algodão estéreis fabricados para isolamento bacteriológico.

Coletou-se uma amostra por olho por meio de esfregamento do swab contra a superfície da pálpebra inferior para coletar as células esfoliantes. Os swabs conjuntivais foram mantidos em tubos estéreis e armazenados congelados (-20oC) até a análise.

As amostras séricas coletadas em SD 0 e SD 360 foram testadas quanto a anticorpos anti-L. infantum por meio do uso de um protocolo de teste de anticorpos imunofluorescentes (IFAT), conforme descrito em outro local.

O teste IFAT foi preparado usando-se conjugados específicos para gatos (anti-IgG felino; Sigma-Aldrich, Saint Louis, Missouri, EUA), e incluiu-se um controle positivo, obtido a partir do soro de um gato doente com L. infantum, em cada lâmina.

As amostras foram classificadas como positivas quando produziam uma fluorescência citoplasmática e de membrana evidente dos protomastigotos em uma diluição de corte de 1:80 no caso de gatos em SD 360 (conclusão do estudo), embora animais com diluição de 1:40 de soro coletado em SD 0 (inclusão) tenham sido excluídos do estudo.

Os soros positivos foram titulados por diluições seriadas até serem obtidos resultados negativos. As amostras sanguíneas e os swabs conjuntivais coletados em SD 0 e SD 360 foram analisados molecularmente quanto a L. infantum por meio de qPCR.

Resumidamente, extraiu-se o DNA genômico a partir do sangue e dos swabs conjuntivais utilizando o QIAamp DNA Micro Kit (Qiagen, Milão, Itália), seguindo as recomendações do fabricante. Depois disso, amplificouse um fragmento (12 bp) do DNA de cinetoplasto (kDNA) de minicírculo de L. infantum por meio de qPCR, utilizando um protocolo descrito em outro local.

Foram incluídos controles positivos (DNA de amostras sanguíneas patógeno-positivas) e negativos (sem DNA) no caso de todos os testes de PCR.

Esfregaços de creme leucocitário foram preparados conforme descrito acima e corados usando-se o corante rápido de May-Grünwald-Giemsa (Bio Optica, Milão, Itália).

Inclusões intracelulares ou formas livres de amastigoto de L. infantum foram procuradas em cada esfregaço por meio de um exame da área corada inteira em pequeno aumento (x100) e de áreas representativas e grande aumento (x1.000) por 10 min.

Todos os esfregaços e amostras foram identificados usando-se um código alfanumérico único, e o pessoal do laboratório que realizou as análises estava cegado quanto aos grupos de tratamento.

Pesquisa entomológica

Armadilhas luminosas e pegajosas foram usadas para monitorar a presença e a atividade de flebótomos durante o período do estudo.

As armadilhas foram colocadas mensalmente em oito locais diferentes (cinco em Lipari e três em Vulcano) de maio a dezembro de 2015.

As armadilhas foram colocadas próximo das residências em que gatos foram incluídos no estudo (Fig. 2).

Em cada local e para cada sessão de captura, uma armadilha luminosa e armadilhas pegajosas para um total de 2 m2 foram preparadas e deixadas operando por 2 dias consecutivos (armadilhas pegajosas) ou 2 noites consecutivas, ou seja, das 6:00 da tarde às 7:00 da manhã (armadilhas luminosas).

A atividade de captura foi concluída em cada local após duas sessões de captura negativas consecutivas.

Os flebótomos coletados foram separados a partir de outros insetos com o auxílio de um estereomicroscópio, foram diferenciados por sexo e foram armazenados em frascos que continham etanol a 70%, de acordo com o local e a data de captura.

As amostras de flebótomos foram preparadas para observação microscópica conforme descrito em outro local e foram identificadas no nível de espécie utilizando chaves morfológicas.

Gerenciamento de dados e análises estatísticas

Estimou-se um tamanho de amostra mínimo de 80 gatos por cada grupo com base nas seguintes suposições: nível de confiança: 95%; potência: 80%; e incidência esperada de infecção por L. infantum de 2 e 12% em gatos tratados e não tratados, respectivamente.

Para se preparar para uma desistência de cerca de 20% durante o período de estudo, incluiu-se um mínimo de 100 gatos em cada grupo.

Um gato foi considerado como infectado por L. infantum se testasse positivamente em pelo menos um dos testes diagnósticos empregados (IFAT, qPCR no sangue ou em swabs conjuntivais ou citologia de creme leucocitário).

A eficácia na prevenção de infecção por L. infantum foi baseada na incidência bruta anual (YCI) e na porcentagem de gatos infectados em cada grupo em SD 360 e foi calculada em cada grupo como segue: YCI = número de animais infectados/(número de animais negativos incluídos - número de animais que não concluíram o estudo) x 100.

A diferença de YCI em G1 e G2 foi testada quanto a significância estatística usando-se o teste do qui-quadrado. A eficácia na prevenção de infecção por Leishmania foi calculada usando-se a seguinte fórmula: Eficácia = [(A - B)/A] x 100, em que A é a % de animais infectados no grupo controle e B é a % de animais no grupo tratado.

As análises estatísticas e a randomização foram realizadas usando-se os pacotes estatísticos SPSS® 13.0, nQuery + nTerim 3.0 (StatSols), Statistical Solutions® Ltd. 2014 e Microsoft® Excel 2010.

Resultados

Inscreveu-se um total de 204 gatos (104 em G1 e 100 em G2), pertencentes a 80 proprietários, no estudo em SD 0. A população em estudo foi composta por 111 fêmeas (54,4%) e 93 machos (45,6%), com idade variando de 6 meses a 15 anos.

Durante o estudo, 45 gatos (25 de G1 e 20 de G2) foram removidos ou perdidos no acompanhamento por diferentes razões (por exemplo, animal perdido, coleira perdida e não reposta dentro de dois dias, eventos adversos ou suspeita de reação medicamentosa adversa), enquanto 159 animais (79 de G1 e 80 de G2) concluíram o estudo (Tabela 1).

Entre os gatos excluídos, 18 (8 de G1 e 10 de G2) foram retirados após a inscrição por se ter descoberto que estavam infectados por L. infantum em amostras coletadas em SD 0.

Nas amostras coletadas na conclusão do estudo (SD 360), 5 de 79 gatos em G1 e 20 de 80 gatos em G2 foram classificados como positivos quanto a infecção por L. infantum em pelo menos um dos testes diagnósticos (Tabela 2).

A maioria dos animais testaram positivamente por meio de IFAT (15/25; 60%), enquanto alguns gatos ficaram positivos por meio de qPCR no sangue (5/25; 20%), em swab conjuntival (1/25; 4%) ou em ambas as amostras (4/25; 16%).

Apenas três gatos (3/25; 12%) testaram positivamente por IFAT e qPCR no sangue e/ou em swab conjuntival simultaneamente.

Nenhum dos gatos testou positivamente na citologia em esfregaços de creme leucocitário na inclusão (SD 0) ou na conclusão do estudo (SD 360).

A YCI foi de 6,3% em G1 e 25,0% em G2 (x2 = 9,095, df = 1, p = 0,0026), levando a uma eficácia de 75% da coleira na prevenção de infecção por FeL.

Na conclusão do estudo, todos os gatos estavam em boa saúde geral; no entanto, alguns deles exibiam sinais sistêmicos, tais como aumento de volume linfonodal periférico (G1 = 15,2%; G2 = 35,0%) e esplenomegalia (G1 = 5,1%; G2 = 21,3%).

Os sinais clínicos foram mais frequentes nos animais do grupo G2 do que nos do G1 (x2 = 7,266, df = 1, p = 0,0070).

Durante o estudo, 18 gatos perderam a coleira uma vez e um perdeu duas vezes; as coleiras foram repostas dentro de 2 dias, exceto em dois casos, em que a perda não foi relatada pelo proprietário, resultando na exclusão de animais a partir do estudo (Tabela 1).

A coleira foi bem tolerada e poucas reações cutâneas locais foram observadas na área de aplicação em quatro dos 104 gatos tratados (3,8%).

Desses, um exibiu alopecia leve, dois exibiram dermatite e prurido leves e um apresentou dermatite ulcerativa. Exceto quanto ao último caso, em que a coleira foi removida e o animal foi excluído do estudo e tratado topicamente (ou seja, drogas antibióticas e anti-inflamatórias), todos os outros casos se recuperaram em poucos dias sem a necessidade de remover a coleira.

Foram registradas infestações pesadas por pulgas e a dermatite com coceira associada em 16 gatos do grupo G2; no caso desses animais, foram autorizados tratamentos de resgate com um produto spot-on comercial que continha imidacloprida (Advantage® para gatos, Bayer Animal Health GmbH, Monheim, Alemanha) com base no bem-estar.

Globalmente, foram capturados 329 flebótomos pertencentes a três espécies (nominalmente P. perniciosus (n = 296; 90,0%), Phlebotomus neglectus (n = 16; 4,8%) e Sergentomyia minuta (n = 17; 5,2%)) do final de maio até outubro de 2015.

A maioria dos flebótomos foi capturada por meio de armadilhas luminosas (n = 297; 90,3%) (Tabela 3).

Discussão

A coleira Seresto® que contém uma combinação de imidacloprida a 10% e flumetrina a 4,5% mostrou ser efetiva na redução do risco de infecção por L. infantum em gatos, tornando-se assim uma ferramenta para controlar FeL em áreas endêmicas.

A YCI registrada aqui em G2 (ou seja, 25%) foi mais alta que a registrada anteriormente em gatos (15%) nas mesmas áreas, mas semelhante à dos cães (ou seja, 27%).

Os gatos incluídos neste estudo ficaram em alto risco de infecção por L. infantum com o estudo sendo realizado em uma área altamente endêmica quanto a FeL.

A vasta maioria dos gatos vivia constantemente no ambiente externo à casa em áreas suburbanas ou rurais; além disso, os animais do grupo controle não foram tratados com nenhum inseticida, exceto nos casos de tratamentos de resgate contra infecção pesada por pulgas.

Embora os gatos pareçam ser mais resistentes a L. infantum que os cães, os presentes dados sugerem que pelo menos a probabilidade de infecção nesses dois hospedeiros é semelhante, pois se baseia no risco de ficarem expostos a picadas de flebótomos, também considerando que alguns vetores exibem um comportamento alimentar genérico.

O diagnóstico de infecção por Leishmania em gatos é desafiador.

A maioria dos gatos infectados foi classificada positivamente por meio de IFAT, mas deve-se observar que 10 dos 25 animais infectados testaram positivamente apenas por meio de qPCR, com o tecido sanguíneo sendo mais frequentemente positivo (9/10) do que o swab conjuntival (5/10) (x2 = 2,143, df =1, p = 0,1432).

Embora uma comparação de resultados entre diferentes estudos nem sempre seja possível, nossos achados concordam globalmente com os descritos em pesquisas anteriores, que combinaram testes sorológicos e moleculares para investigar a prevalência de infecção felina por L. infantum.

Por outro lado, os swabs conjuntivais foram considerados recentemente como sendo uma técnica não invasiva sensível para o diagnóstico molecular de infecção por L. infantum tanto em cães quanto em gatos, exibindo valores preditivos em animais com infecção ativa ou doentes e uma concordância substancial entre os testes sorológicos e moleculares.

No presente estudo, o propósito do diagnóstico era descobrir uma exposição a picadas de flebótomos infectantes ou infecções ativas em que já tenha ocorrido soroconversão.

Portanto, vários resultados sorológicos e moleculares observados refletem os diferentes estágios da infecção em que os animais expostos podem se encontrar.

De acordo com essa variedade de padrões, é fortemente aconselhável combinar testes diagnósticos sorológicos e moleculares quando o propósito do diagnóstico é verificar a exposição à infecção por L. infantum.

Em muitos casos, os gatos infectados por L. infantum permanecem aparentemente saudáveis, e a progressão para doença clínica pode estar associada com afecções imunossupressivas causadas por doenças concomitantes.

Também se tem teorizado uma predisposição natural para um padrão de resposta imune mediado por células protetoras para a infecção por Leishmania no caso de gatos.

Infecções retrovirais ou outras doenças debilitantes (por exemplo, doenças neoplásicas) têm sido associadas algumas vezes com Fel clínica ou infecção subclínica por L. infantum, mas não em um estudo anterior no arquipélago das Eólias, onde essas infecções são raras nas populações felinas examinadas.

Também se deve observar que a média de idade dos animais inscritos era de menos de três anos e que os que testaram positivamente na conclusão do estudo foram infectados muito provavelmente pela primeira vez.

Esses achados podem responder pela ausência de casos clínicos de FeL em gatos positivos nesse estudo, embora a leishmaniose evolua geralmente como doença crônica, com um longo período de incubação.

A coleira provou ser segura e, com exceção de algumas reações locais no ponto de aplicação da coleira, nenhum evento adverso foi avaliado como sendo relacionado ao produto.

As reações locais foram principalmente irritações dérmicas causadas provavelmente pelo esfregamento mecânico da coleira sobre o pelame e a pele dos gatos e foram semelhantes (quanto a frequência e tipologia) às observadas em estudos anteriores.

Todas as reações cutâneas ocorreram nas primeiras semanas (1-4) após a aplicação da coleira e se curaram espontaneamente após um leve afrouxamento da coleira, com exceção de um caso, no qual se removeu a coleira para permitir um melhor tratamento tópico da lesão.

A formulação de liberação lenta torna a coleira um dispositivo ideal para a espécie felina sensível a drogas e permite o uso da flumetrina, um acaricida potente com propriedades repelentes de ação rápida, devido às diferenças na via metabólica em uma espécie em que não é possível aplicar nenhum dos outros piretroides atuais.

Adicionalmente, outra característica segura da coleira é o seu sistema de liberação seguro, que a torna particularmente segura em gatos errantes.

De fato, embora todos os gatos com coleira inscritos no estudo tivessem acesso ao ambiente externo das residências, não se observou nenhum caso de enganchamento ou estrangulamento causado pela coleira.

A pesquisa entomológica confirmou a presença de vetores competentes de L. infantum em todos locais monitorados, nominalmente P. perniciosus e P. neglectus, ambos considerados como sendo os vetores mais importantes de L. infantum na bacia do Mediterrâneo.

Esse achado está de acordo com pesquisas anteriores realizadas recentemente na mesma latitude.

Poucos estudos investigaram a fauna de flebótomos nas ilhas Eólias e, na única pesquisa realizada no mesmo arquipélago (ilhas Lipari e Filicudi) utilizando armadilhas pegajosas, P. perniciosus foi a única espécie capturada.

Portanto, o presente estudo complementa o número de espécies de flebótomos descritas no arquipélago com outras duas espécies, com uma destas (P. neglectus) sendo um vetor comprovado de L. infantum.

De modo interessante, P. perniciosus foi encontrado em locais caracterizados por ambientes diferentes (ou seja, urbanos, periurbanos e rurais) durante a pesquisa.

No entanto, a presença e a atividade mais longas de P. perniciosus foram registradas em locais rurais em ambas as ilhas Lipari e Vulcano, com atividade constante do final de maio até outubro e picos em julho e agosto.

Esse pode representar o período de risco mais alto de exposição à infecção por L. infantum, especialmente no meio do verão, quando turistas e seus animais chegam em grande número para passar férias nessas ilhas.

Conclusões

Este estudo mostra que a coleira Seresto®, que contém uma combinação de imidacloprida e flumetrina é segura e efetiva na redução do risco de infecção felina por L. infantum.

Essa coleira representa atualmente a única medida preventiva possível para FeL.

O tratamento deve ser adotado estrategicamente para proporcionar proteção individual para gatos que vivem em áreas endêmicas de L. infantum ou viajam para estas ou para reduzir o potencial de os gatos infectados atuarem como reservatórios do patógeno.

Abreviações

  • DNA: ácido desoxirribonucleico;
  • EDTA: ácido etilenodiaminotetraacético;
  • FeL: leishmaniose felina;
  • FeLV: vírus da leucemia felina;
  • FIV: vírus da imunodeficiência felina;
  • IFAT: teste de anticorpos imunofluorescentes;
  • qPCR: reação em cadeia de polimerase em tempo real quantitativa;
  • SD: dia do estudo;
  • VBD: doenças oriundas de vetores;
  • YCI: incidência bruta anual.

Financiamento

Este estudo foi financiado pela Bayer Animal Health. A Bayer exerceu um papel direto no desenho do estudo, na coleta e na análise de dados, na decisão de publicar e na preparação do manuscrito.

Disponibilidade de dados e materiais

Os dados que apoiam os achados deste estudo estão disponíveis a partir da Bayer Animal Health, mas aplicam-se restrições à disponibilidade desses dados, que foram usados sob licença para o atual estudo e, assim, não estão publicamente disponíveis.

No entanto, estão disponíveis dados a partir dos autores mediante uma requisição razoável e com permissão da Bayer Animal Health.

Contribuições dos autores

Conceberam, desenharam e supervisionaram o estudo: EB, DO, FDT, FSB, MP e KD.

Realizaram os experimentos: EB, LF, EN, GG, LG, MGP, VP, MSL, VDT e VC.

Analisaram os dados: FSB, EB, DO, MP e GC. Contribuíram com reagentes/materiais/ferramentas de análise: EB, SG, MGP, DO, FSB, RN, KD, MP e GC.

Redigiram o artigo: EB e DO, com contribuição dos coautores. Todos os autores leram e aprovaram o manuscrito final.

Aprovação ética

O protocolo de estudo e os procedimentos de investigação foram aprovados pelo Ministério da Saúde italiano (autorização no 0006088- 10/03/2015-DGSAF-COD_UO-P).

Os animais só foram incluídos no estudo após a assinatura de um consentimento esclarecido pelo proprietário.

Interesses conflitantes

KD e MP são funcionários da Bayer Animal Health, que financiou o estudo. FSB e RN são funcionários da Arcoblu s.r.l., que atuou como CRO e monitorou o estudo.

Nota do publicador

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