Informativo Técnico: Como a doença periodontal pode afetar o bem-estar animal

Empresa

MARS

Data de Publicação

09/05/2018

PDF

Produtos Relacionados

Quando pensamos em saúde oral, é muito comum que nos atenhamos apenas à sanidade das estruturas orais, como dentes, gengiva, mucosas e, no máximo, pensemos em seus efeitos sistêmicos. Porém, mais do que pacientes, o mercado exige que cuidemos dos “filhos” de nossos clientes.

Cães e gatos recebem atenção especial de seus tutores, que procuram, antes de tudo, bem-estar para seus mascotes como procurariam para seus próprios familiares.

Ainda mais nos dias de hoje, quando a maioria da população tem acesso a informação, principalmente na internet, é importante que o Médico Veterinário esteja bem preparado para explicar a doença periodontal com conhecimento técnico adequado e levando em conta o amor que o proprietário tem pelo seu bichinho.

Assim sendo, vamos fazer uma breve revisão sobre esta doença, considerada a mais prevalente na clínica veterinária, atingindo quatro entre cinco cães e gatos.

Note que, da maneira como iremos explicar os conceitos odontológicos a você, colega, é possível compreender nossa própria saúde oral, e este é o grande segredo de uma boa consulta odontológica: explicar de modo que o cliente entenda que seu animal necessita de cuidados de saúde oral.

O que é a Periodontia?

É a área da odontologia que estuda as estruturas de proteção e suporte dos elementos dentários. Consideramos integrantes do órgão dentário: gengiva, epitélio juncional, ligamento periodontal, osso alveolar e cemento.

Durante o exame clínico, é importante ter em mente a imagem e o conceito de “o que é normal”, como número e posicionamento dos dentes ou sanidade da gengiva.

Já em um exame mais detalhado, principalmente com o uso de radiografia intraoral, é possível avaliar as estruturas de suporte, como o osso alveolar ao redor das raízes, além da sondagem periodontal e exploração da superfície dos elementos dentários.

Como Começa a Doença Periodontal?

Cuidando de nossa própria saúde oral, ao realizarmos uma boa escovação dentária pela manhã, sentimos que nossos dentes estão “lisos como vidro”. Essa sensação se deve ao esmalte, que possui uma superfície mineralizada, que recobre a coroa dentária, e ausente de irregularidades ou porosidades.

No decorrer de nosso dia, caso não realizemos mais nenhuma escovação, sentiremos, ao anoitecer, uma superfície áspera sobre os dentes.

Essa sensação se deve à presença de placa bacteriana, uma película glicoproteica que adere à superfície do elemento dentário e, ao final de 24 a 48 horas, se encontra organizada.

Esse biofilme, contendo mais de 300 espécies de microrganismos, começa a liberar gases sulfurosos voláteis, que conferem o mau cheiro denominado halitose. Sabemos que devemos escovar nossos dentes diariamente para que isso não aconteça.

Como qualquer outro tecido que sofra uma agressão, nossa gengiva reage com processo inflamatório quando há descuido com os hábitos de saúde oral: a gengivite.

Ao nos sentirmos incomodados com a halitose ou a gengiva inflamada, realizamos uma boa escovação dentária, usamos fio dental e pronto: dentro de alguns dias, a gengiva volta à sua condição de normalidade.

O conceito de higienização e prevenção de doenças orais está bem enraizado em nossa cultura, porém o mesmo não acontece para com cães e gatos. E, devido ao acúmulo constante de placa bacteriana, a gengivite dá origem à periodontite.

Cálculo Dentário ou Tártaro

Na ausência de ação mecânica das cerdas sobre a superfície dentária, a placa bacteriana começa a captar minerais presentes na saliva, como o cálcio, por exemplo. Nesse momento, se inicia a mineralização do biofilme, de maneira lenta porém constante, terminando por formar “pedras” sobre o dente, chamadas de cálculo dentário e popularmente conhecidas como tártaro.

É importante ressaltar a diferença entre placa bacteriana e tártaro. A placa bacteriana é uma película que pode ser removida com a escovação; o tártaro não, apenas pode ser removido com raspagem.

Durante o exame do paciente, se o profissional enrolar uma gaze no dedo e massagear os dentes, perceberá que a gaze fica impregnada de um material transparente ou amarelado, com o mesmo odor da halitose: a placa bacteriana.

Já durante o tratamento periodontal, removemos uma placa de pedra do dente com um fórceps: a isso denominamos cálculo dentário, e não “placa”, como é comum escutar de colegas ou mesmo de empresas do meio veterinário.

Disso deriva o equívoco no entendimento da propaganda dos produtos de saúde oral, que promovem a remoção de placa bacteriana, e não do tártaro, que só pode ser removido com tratamento feito por um profissional.

Periodontite

Quando a gengivite persiste durante semanas, o processo inflamatório se agrava e acaba por destruir as próprias estruturas de proteção (gengiva) e sustentação (osso alveolar). Isso leva a retração gengival, perda óssea, destruição de ligamento periodontal e exposição do cemento, que recobre a raiz.

Diferentemente do esmalte, o cemento é uma estrutura com superfície irregular e rugosa, o que propicia uma maior adesão de placa bacteriana e posterior formação de cálculo, agravando ainda mais o quadro de periodontite.

Em alguns pontos, a perda de osso alveolar é mais acelerada do que a retração gengival e, ao exame, podemos encontrar as denominadas bolsas periodontais, que permitem acúmulo de placa bacteriana com menor aporte de oxigênio, selecionando bactérias gram negativas, aeróbias e com motilidade, que terão um papel importante na doença periodontal.

Imagine que, quanto mais osso alveolar é reabsorvido, menor é o suporte dentário, causando a mobilidade dos dentes, e isso vai se agravando com a piora da doença periodontal. A próxima etapa é a perda de elementos dentários, por falta de estrutura de sustentação.

É importante ressaltar que, ao contrário da gengivite, a periodontite é um processo irreversível, ou seja, independentemente da técnica operatória, jamais as estruturas de proteção e sustentação voltarão ao estado original de sanidade oral.

Outro achado no exame clínico são as úlceras de contato, formadas pelo atrito da mucosa oral com o cálculo dentário, ou mesmo com o cemento, de superfície rugosa e irregular, como citado anteriormente. Isso causa no paciente um sofrimento maior, semelhante à dor que sentimos em caso de aftas.

Com a doença periodontal instalada, o paciente está predisposto a quatro problemas que devem ser esclarecidos ao cliente, de modo que ele entenda a importância do tratamento periodontal, abordando argumentos técnico-científicos e emotivos.

1 - Alteração Funcional

Sabemos que os dentes são usados na mastigação dos alimentos e apreensão de objetos ou brinquedos. Quando o paciente tem doença periodontal, devido à dor causada pela gengivite e úlceras de contato, ou mesmo pela perda de dentes, aumenta o incômodo no momento da alimentação e isso pode gerar diminuição de ingestão da ração e consequente perda de peso.

Alguns pacientes sentem tanta dor que começam a apresentar salivação excessiva, passam a pata na boca ou engolem o alimento sem mastigação.

2 - Alterações Sistêmicas

Devido ao fenômeno da anacorese, bactérias presentes na cavidade oral de pacientes com doença periodontal têm tropismo por sítios de inflamação em outros órgãos, como coração, rins ou fígado. Isso também acontece em nós, humanos.

Por isso, ao explicar este item durante a consulta, é importante fazer o paralelo entre a saúde humana e a animal, de forma a sensibilizar o cliente da necessidade de tratamento odontológico de seu mascote.

Em humanos, por exemplo, sabe-se que 40% das endocardites bacterianas têm origem em cavidade oral, seja por periodontite ou cárie. E isso também acontece em cães, sendo uma das principais causas de diminuição da expectativa de vida de nossos pacientes.

Em teoria, e já comprovado na prática, cães de pequeno porte que recebem cuidados adequados de saúde oral podem alcançar 20 anos ou mais.

3 - Fraturas Patológicas de Mandíbula

Com a reabsorção do osso alveolar, principalmente em raças de pequeno porte, a fragilização da mandíbula propicia fraturas, mesmo com traumas de pequena dimensão, como uma briga ou brincadeira entre contactantes ou saltar de uma cama ou um sofá.

Só o fato de imaginar que o animal pode sofrer um trauma bucomaxilar já é razão para que o cliente aumente a atenção aos cuidados de saúde oral. E existe um agravante, pois essas fraturas patológicas são de difícil resolução, uma vez que o osso está contaminado e fragilizado.

Por essa razão, nesses casos, pode ser necessário tomar medidas um tanto drásticas, como perda de parte ou totalidade da mandíbula, nas chamadas mandibulectomias. Pode parecer duro informar isso ao cliente, mas é uma realidade na rotina dos especialistas mais experientes em odontologia veterinária.

4 - Alterações Psicológicas

A importância da psicologia em animais vem aumentando cada vez mais. Vamos imaginar que a doença periodontal (mais comum e agressiva em cães pequenos) promove o mau hálito e começa a afastar o proprietário de seu mascote, de forma gradativa.

Por sua vez, o animal não compreende essa alteração de trato por parte de seu tutor. Pesquisas modernas mostram que cães têm sentimentos parecidos com os de crianças humanas e veem em seus donos a figura paterna ou materna. Como você acha que esse paciente vai se sentir com o afastamento de seu proprietário?

Ainda não existe uma pesquisa comprovando o fato, mas em consulta, informar o cliente deste fenômeno, ainda mais quando seu carinho pelo mascote é grande, faz com que haja uma compreensão maior da importância da saúde oral, não muito pelo fator técnicocientífico, mas pelo emocional.

Quando optamos por trabalhar com clínica e cirurgia de pequenos animais, nosso principal objetivo deve ser oferecer o bem-estar animal. Ao desconhecermos a doença periodontal, a enfermidade mais prevalente em cães e gatos, estamos permitindo que nossos pacientezinhos estejam expostos a sofrimento e riscos à saúde geral.

Quando pensamos no mercado latino-americano, temos que levar em conta que nosso cliente é mais emotivo do que técnico se comparado a um cliente europeu. Portanto, ao traçarmos uma comparação entre a saúde oral do seu mascote e a sua própria, o cliente entenderá que a saúde oral tem um lugar importante dentro da rotina caseira.

Explicadas as razões que tornam o tratamento periodontal imprescindível, o médico veterinário deve estar preparado para oferecer a terapia correta, desde a prevenção até o tratamento medicamentoso ou cirúrgico, como acontece na maior parte das vezes.

Este artigo apresentou aos colegas argumentos importantes, que devem ser entendidos e transmitidos ao público. Assim, estaremos promovendo o bem-estar de nossos pacientes, que não merecem sofrer os danos da doença periodontal.

Acompanhe WALTHAM™ no Facebook: www.facebook.com/walthamscience/

Bibliografia

PAVLICA Z; PETELIN M; JUNTES P; ERŽEN D; CROSSLEY DA; SKALERIČ; Periodontal disease burden and pathological changes in organs of dogs. JVD, v.25, n.2, p.97-105, 2008.

GIOSO MA; Odontologia veterinária para o clínico de pequenos animais. Ed. Manole, 2°edição, 2007.

NIEMIEC BA; FURMAN R; Canine dental radiography. JVD, v.21, n.3, p.186-190, 2004.

GORREL C; BIERER T; Long-term effect of a dental hygiene chew on the periodontal healthy of dogs. JVD, v.16, n.3, p.109-113, 1999.

CULHAM N; RAWLINGS JM; Oral malodor and its relevance to periodontal disease in the dog. JVD, v.15, n.4, p.165-168, 1998.

CULHAM N; RAWLINGS JM; Studies of malodor in the dog. JVD, v.15, n.4, p.169-173, 1998.

DUPONT GA; Understanding dental plaque: biofilm dynamics. JVD, v.14, n.3, p.91-94, 1997.

MILLER BR; HARVEY CE; Compliance with oral hygiene recommendations following periodontal treatment in client-owned dogs. JVD, v.11, n.1, p.18-19, 1994.

HENNET PR; HARVEY CE; Natural development of periodontal disease in the dog: a review of clinical, anatomical and histological features. JVD, v.9, n.3, p.13-19, 1992.

Sobre o Autor

Dr. Marco Antonio Leon

É médico veterinário formado pela USP, especializado em Odontologia Veterinária e doutor em Cirurgia pela FMVZ/USP. Atua na área desde o ano 2000 e é palestrante desta especialidade em nível nacional e internacional. Atualmente, é professor do Curso de Especialização em Odontologia Veterinária da USP e proprietário do Dentistavet Centro de Odontologia Veterinária e Cirurgia Oral.

Celebrando mais de 50 anos de ciência, o Centro de Nutrição e Bem-Estar Animal WALTHAM™ atua como uma importante autoridade científica no desenvolvimento das fronteiras de pesquisa sobre nutrição e bem-estar de cães, gatos, cavalos, pássaros e peixes e sobre seus benefícios na interação homem X animal.

Localizado em Leicestershire, Inglaterra, WALTHAM™ dispõe de expertise e conhecimento que resultam no desenvolvimento dos produtos inovadores da MARS Petcare, que atendem às necessidades dos animais de estimação.

Desde a publicação de sua primeira pesquisa original, em 1963, WALTHAM™ é pioneiro de muitos avanços importantes no campo da nutrição de animais domésticos e interação humano X animal, resultando em mais de 1.700 publicações, incluindo mais de 600 artigos em revistas científicas.