Verdades e Mitos Sobre os Alimentos Úmidos para Cães e Gatos

Empresa

MARS

Data de Publicação

02/07/2018

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Dra. Manuela Fischer

De acordo com a FEDIAF – Federação Europeia das Indústrias de Pet Food – os alimentos úmidos são aqueles que apresentam teor de umidade de pelo menos 60% (sachês e latas). Esses alimentos foram considerados petiscos durante muitos anos por veterinários e tutores, mas o crescente interesse pelos úmidos no Brasil vem desmistificando esse conceito, e a indicação como alimento completo e balanceado tem sido mais frequente. 

Mudança de Comportamento

De maneira geral, os tutores estão mais atentos aos produtos disponíveis no mercado e têm se preocupado com a alimentação dos seus animais, o que os incentiva a buscar alternativas e a questionar o veterinário.

O alimento úmido apresenta uma série de vantagens quando comparado ao alimento seco e devemos conhecê-las para que possamos oferecer aos nossos pacientes o melhor possível em termos de nutrição. Neste artigo iremos abordar os benefícios dos alimentos úmidos, esclarecendo os principais mitos relacionados.

Os ancestrais dos cães e dos gatos consomem na natureza presas que contêm altos teores de umidade, proteína e gordura e baixos teores de carboidrato e fibra. Quando comparamos essas características às dos alimentos úmidos, percebemos que elas se assemelham.

Fazendo a conversão dos níveis de garantia para a matéria seca, ou seja, retirando-se a água do alimento, podemos observar que o teor de gordura, por exemplo, é mais alto que a maioria dos alimentos secos correspondentes.

Ou seja, um alimento com 80% de umidade e 3% de gordura declaradas no rótulo contém, de fato, 15% de gordura na matéria seca:

Atenção na Comparação

Comparar a dieta dos animais na natureza com a dieta atual exige cautela. É certo que a dieta natural é rica em água, proteína e gordura, o que condiz com as exigências nutricionais e com o estilo de vida que os animais levam, já que gastam muita energia para caçar e sobreviver.

Os domésticos, por sua vez, vivem no sedentarismo com alimentação à vontade, portanto parece prudente que sua alimentação seja diferente daquela consumida por seus ancestrais na natureza.

As dietas atuais foram adaptadas às condições em que cães e gatos vivem nos dias de hoje, porém o alimento seco, que contém baixa umidade e alta densidade calórica, tem predisposto os animais à formação de cálculos urinários e ao ganho de peso.

O alimento úmido, somente pela sua quantidade de água, auxilia na prevenção desses dois frequentes distúrbios, sendo um importante aliado na manutenção da saúde. 

O fato de os animais ingerirem mais água e, consequentemente, produzirem mais urina quando consomem alimento úmido gerou, provavelmente, o mito do alto teor de sódio nesses alimentos.

Em um estudo que comparou dietas com diferentes níveis de umidade, os gatos alimentados com uma dieta com 73% de umidade ingeriram maior quantidade de líquido total diário, resultando em maior volume de urina, mais diluída e com menor risco de formação de urólitos de oxalato de cálcio quando comparada às dietas de umidade mais baixa (Buckley et al., 2011).

As dietas que contêm um aumento moderado de sódio são aquelas específicas para doença do trato urinário, cujo objetivo é promover maior consumo de água e maior volume e excreção de urina, reduzindo as chances de formação de cálculo. Hawthorne e Markwell (2004) avaliaram o efeito do teor de sódio na ingestão de água e na composição da urina de gatos adultos alimentados com 23 alimentos comerciais secos por 21 dias.

Os gatos alimentados com dietas com maior teor de sódio tiveram ingestão de água e volume de urina significativamente maiores, gravidade específica de urina significativamente menor e índice de supersaturação relativa significativamente menor para oxalato de cálcio.

O limite superior de sódio considerado seguro, segundo o NRC e a FEDIAF, é de 3.750 mg para cada 1.000 kcal ou 15.000 mg para cada 4.000 kcal. As dietas secas específicas para distúrbios urinários contêm em torno de 10.000 mg/kg de sódio, ou seja, mesmo nessas dietas com teores moderadamente elevados, os níveis estão abaixo do limite superior recomendado.

Portanto, tutores que fornecem somente alimento seco para seus animais deveriam buscar produtos com maior teor de sódio, para estimular o consumo de água.

Outro mito relacionado ao alimento úmido é que ele predispõe à obesidade, quando é justamente o oposto. Por ser um alimento diluído, tem que ser oferecido em maior quantidade para suprir as exigências nutricionais diárias.

Por exemplo, um cão de 5 kg, castrado e que vive em apartamento, poderá consumir aproximadamente 67 g de uma ração seca com 4.000 kcal ou 267 g de um alimento úmido com 1.000 kcal. Certamente ele ficará mais saciado consumindo o segundo. Para auxiliar ainda mais, podemos buscar alimentos com maior teor de fibra, que atuará na saciedade prologando o tempo de satisfação do animal e diminuindo o comportamento de mendicância por comida.

Por ser extremamente palatável, o alimento úmido estimula o consumo e, uma vez adicionado ao seco, sua ingestão tende a ser maior, principalmente por cães, que gostam das texturas misturadas. Gatos com acesso aos dois tipos também têm mais chances de ingerir calorias acima do requerimento de mantença.

Para evitar os excessos e o ganho de peso, deve-se calcular quanto de cada alimento o animal pode receber por dia, independentemente da proporção entre úmido e seco. O terceiro e último mito é que, por conterem muita água, os alimentos úmidos causam diarreia.

Um estudo que comparou o escore fecal de cães alimentados com diferentes tipos de dieta demonstrou que o alimento seco comercial de baixa umidade e os alimentos caseiros com alta umidade à base de carne bovina apresentaram o mesmo escore fecal, considerado ideal. 

Já os alimentos caseiros à base de carne de frango, também com alta umidade, apresentaram fezes secas e duras (França, 2009), sugerindo assim que não é o teor de umidade que influencia na qualidade fecal. Segundo Zentek (1995), o teor de umidade não é o único fator potencial para alterar a qualidade fecal, mas também o tipo de proteína e de fibra utilizadas.

Boa parte das rações do mercado informam no rótulo como deve ser feita a transição de um alimento para o outro, isso porque há alteração na microbiota intestinal quando a troca de dieta é feita de forma abrupta, podendo levar à diarreia.

Mesmo entre os alimentos secos há muita variação na composição nutricional, porém entre alimentos secos e úmidos a diferença é ainda maior. Como exemplo pode-se citar o teor de carboidratos, que é bem mais baixo nos úmidos, visto que o seu processamento dispensa a utilização de amido.

A fibra solúvel, por outro lado, está em maior quantidade no alimento úmido e, quando utilizada de maneira intensa e não gradativa, pode provocar amolecimento das fezes. O que causa diarreia, portanto, é a inclusão não gradual de alimento úmido na dieta dos animais. A recomendação é que a substituição parcial do alimento seco pelo úmido leve em torno de duas semanas; e a substituição total, no mínimo 1 mês.

Alimento Completo

Em resumo, o alimento úmido completo e balanceado pode ser fornecido para todos os animais, porém os sedentários e os predispostos à obesidade ou à formação de cálculos urinários são os mais beneficiados com esse tipo de alimentação.

Sobre a Autora

Dra. Manuela Fischer

Médica-Veterinária com Mestrado e Doutorado em Nutrição de Monogástricos pela UFRGS. Desenvolveu e acompanhou diversas pesquisas com animais de pequeno porte.

Responsável pela implementação do Setor de Nutrição Clínica do Hospital de Clínicas Veterinárias da UFRGS. Professora de graduação e pós-graduação em nutrição de cães e gatos; responsável técnica de empresas com atuação em nutrição e prestadora de atendimento em clínicas como Veterinária Nutricionista.

Celebrando mais de 50 anos de ciência, o Centro de Nutrição e Bem-Estar Animal WALTHAM™ atua como uma importante autoridade científica no desenvolvimento das fronteiras de pesquisa sobre nutrição e bem-estar de cães, gatos, cavalos, pássaros e peixes e sobre seus benefícios na interação homem X animal.

Localizado em Leicestershire, Inglaterra, WALTHAM™ dispõe de expertise e conhecimento que resultam no desenvolvimento dos produtos inovadores da MARS Petcare, que atendem às necessidades dos animais de estimação.

Desde a publicação de sua primeira pesquisa original, em 1963, WALTHAM™ é pioneiro de muitos avanços importantes no campo da nutrição de animais domésticos e interação humano X animal, resultando em mais de 1.700 publicações, incluindo mais de 600 artigos em revistas científicas.

Bibliografia

Buckley CM, Hawthorne A, Colyer A, Stevenson AE. Effect of dietary water intake on urinary output, specific gravity and relative supersaturation for calcium oxalate and struvite in the cat. British Journal of Nutrition; 106 Suppl 1:S128-30, 2011.

FEDIAF – Guideline for Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs 2016. Fédération Européenne de l’Industrie des Aliments pour Animaux Familiers, Brussels, Belgium.

Hawthorne AJ, Markwell PJ. Dietary sodium promotes increased water intake and urine volume in cats. Journal of Nutrition;134 (8 Suppl): 2128S-2129S, 2004.

Janine França. Alimentos convencionais versus naturais para cães adultos. Tese de doutorado, Brasil, 2009.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL – NRC. Nutrient requirements of dogs and cats. Washington, D.C.: National Academies Press, 2006.

Zentek, J. Influence of diet composition on the microbial activity in the gastro-intestinal tract of dogs: (I) effects of varying protein intake on the composition of the ileum chyme and the faeces. Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, Berlin, v.74, n.1/2, p.43-52, 1995.