O papel do estresse na medicina felina e doenças clínicas associadas

Empresa

Ceva

Data de Publicação

31/07/2018

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Alexandre G. T. Daniel, MV, Msc., DipABVP (Feline Practice) Consultoria e atendimento especializado em medicina felina Gattos - Clínica Especializada em Medicina Felina Veterinary Information Network

Os gatos vem aumentando vertiginosamente como animais de estimação, já superando os cães em muitos países da Europa e da América do Norte. Com seu aumento numérico e consequente aumento dos mesmos como pacientes nas clínicas e hospitais veterinários, é fundamental que entendamos diversos pontos vitais do felino como uma espécie diferenciada, evitando erros comuns de manejo.

O conhecimento e entendimento da biologia evolutiva do felino é importantíssimo quando explicitamos o estresse dentro da espécie e sua influência em determinados grupos de doenças. É fundamental que entendamos que o gato doméstico que conhecemos é uma espécie ainda considerada nova no meio do ser humano!

O primeiro contato arqueológico registrado do gato ao lado da espécie humana data de aproximadamente 10.000 anos atrás. No entanto, a provável “domesticação” do gato possui cerca de 5.000 a 7.000 anos de idade, sendo relatada no crescente fértil do norte da África. 

Contudo, o conceito de domesticação, em sua essência, significa que a espécie depende do homem para obtenção de comida, abrigo e controle de atitudes e funções, inclusive reprodutivas. Visto que muitos gatos não dependem do ser humano para obtenção de alimento, abrigo e perpetuação da espécie, podemos concluir que nosso gato “doméstico” é na verdade uma espécie não completamente domesticada. 

Mesmo ao lado do ser humano há mais de 5.000 anos, sua função na sociedade permaneceu a mesma até meados da década de 1940, que era a caça e o extermínio de pragas urbanas, desde o controle da população de roedores que assolava as reservas de grãos dos egípcios no início da “domesticação”, até nossas fazendas produtoras de grãos e vegetais do século passado.

Após a década de 1940 (na II guerra mundial), o gato passou a ser visto de uma maneira diferenciada, sendo trazido para dentro das casas e ganhando a posição de um animal “Pet”. Ou seja, o gato é um animal de companhia propriamente dito há menos de 80 anos!

Muito da ancestralidade da espécie felina permanece intacta, com o gato tendo grande parte de seu comportamento evolutivo mantido à similaridade dos demais felídeos silvestres. E isso deve ser compreendido e respeitado, objetivando o melhor manejo possível, e minimizando assim diversos problemas associados ao estresse e outros pontos ligados à falta de compreensão da espécie!

Os felídeos são predadores topo de cadeia, caçadores solitários e habituados, via de regra, a viverem sozinhos ou em grupos com número de animais reduzido na natureza.

São metódicos e territorialistas, não estando habituados a mudanças de rotina “sem consentimento” . Como predadores solitários, topo de sua cadeia alimentar, estão sempre em alerta para presas, além de evitar a exposição a situações potencialmente danosas.

Quaisquer mudanças em tópicos pontuais como estes já podem ser considerados fatores estressores, alterando sua rotina e gerando as mudanças psicológicas e comportamentais que definem o estresse.

Fisiologicamente, o estresse, por si só, gera diversas respostas de origem adrenérgica que mimetizam algumas condições comuns encontradas na clínica. 

Algumas Destas São:

  • Aumento da pressão arterial;
  • Sopro sistólico por obstrução de via de saída de ventrículo direito (ou sopro de ejeção); 
  • Taquicardia; 
  • Taquipneia; 
  • Hiperglicemia; 
  • Leucocitose por neutrofilia e linfocitose; 
  • Agregação plaquetária.

Doenças Induzidas Pelo Estresse

Sistema Imunológico e Doenças Infecciosas

O estresse gera liberação de cortisol, que dependendo de sua concentração ou tempo de duração do evento, possui características imunossupressoras.

Nos ambientes superpopulosos, com grandes características estressoras (gatis, criatórios, abrigos), os animais estão cinco vezes mais predispostos ao desenvolvimento de herpesvirose (Figura 1) que aqueles provenientes ou residentes de ambientes menos populosos.

A peritonite infecciosa dos felinos (PIF), que é a doença infecciosa mais comum da espécie, também está relacionada a situações estressoras e sua consequente imunossupressão, aumentando a predisposição ao desenvolvimento da enfermidade.

Figura 1 - Felino proveniente de ambiente surperpopuloso, com herpesvirose, apresentando secreção nasal purulenta. Foto: arquivo pessoal do autor.

Dermatopatias e o Estresse

Gatos muito ansiosos (entre eles, destaque para Siameses, Bengals e Abssínios), além de moradores de locais superpopulosos, quando submetidos a fatores estressores, podem desenvolver padrões reacionais de lambedura excessiva (geralmente simétricos), principalmente em região de abdome e tórax ventrais, membros posteriores e anteriores, além de lateral de tórax e flanco (Figura 2).

Obviamente, devem ser realizados diferenciais para outras enfermidades dermatológicas causadoras de prurido, como as dermatopatias alérgicas e parasitárias, antes de se suspeitar ou manejar casos de dermatopatias de origem psicogênica. 

Figura 2 - Animal de genética relacionada ao Siamês, com quadro de alopecia secundária à lambedura excessiva em região ventral de tórax, abdome e axilas, com início após episódio estressor (dermatopatia psicogênica). Foto: arquivo pessoal do autor.

“Síndrome de Pandora” – Cistite Intersticial e Outras Comorbidades

O estresse está relacionado como “gatilho” em um complexo grupo de alterações em diferentes sistemas, denominada atualmente como “síndrome de Pandora”.

As manifestações predominantes normalmente são de vias urinárias inferiores (hematúria, disúria, polaciúria), normalmente relacionadas a um fator estressor, agrupando a cistite intersticial como principal evento ocorrente nesta síndrome.

No entanto, muitos animais possuem alterações correlacionadas a outros sistemas, também suscitadas por fatores estressores, como alterações gastrintestinais (vômito, diarreia, perda de apetite), dermatológicas (exacerbação de dermatopatias alérgicas e psicogênicas), de sistema imunológico e cardiovascular, o que evidencia as complexas interações neuroendócrinas desta síndrome. 

Não existe uma alteração fisiopatológica pontual causadora deste grupo de doenças, sendo esta relacionada a múltiplas e detalhadas alterações entre a bexiga, sistema nervoso, adrenais, hábitos de manejo e ambiente, resultando na fisiopatogenia da complexa síndrome de Pandora, representada principalmente pela cistite intersticial dos felinos.