Resposta Glicêmica pós-prandial: Importância e fatores de influência

Empresa

Farmina

Data de Publicação

13/03/2019

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Dr.a Monica Isabella Cutrignelli

Introdução

Sabe-se que o controle glicêmico está diretamente relacionado com a expectativa de vida e a incidência de doenças degenerativas. Portanto, entender os fatores que influenciam a resposta glicêmica pósprandial é cada vez mais relevante e objeto de estudo de acadêmicos e pesquisadores.

A resposta glicêmica pós-prandial varia, notavelmente, em função da composição nutricional do alimento fornecido e da condição do animal (idade, prenhez, estresse, estados inflamatórios, neoplasias e endocrinopatias). Baseado na intensidade e duração do pico glicêmico pós-prandial, bem como na resposta insulínica, registra-se uma importante variação no balanço energético diário.

Por exemplo, a glicose produzida pode ser depositada no músculo como reserva de energia a curto prazo (glicogênio) e o excesso acumulado como reserva de longo prazo (triglicerídeos). Parece evidente que o controle do nível de glicose no sangue pode ser considerado um dos pilares para minimizar o risco do ganho de peso, condição cada vez mais comum na espécie canina.

Em relação a composição nutricional do alimento, o amido é o nutriente que mais influencia e altera a resposta glicêmica pós-prandial. Por isso, é fundamental atentar-se ao tipo e quantidade de amido presente no alimento fornecido, assim como a proporção amido/proteína.

Materiais e Métodos

Foram utilizados 6 cães adultos castrados de ambos os sexos (peso 20± 5,8kg; ECC 5,5±0,35; idade de 2,8± 0,11 anos). Durante todo o período os animais permaneceram em suas rotinas habituais, exceto pela mudança da dieta.

Foram avaliados 4 alimentos: Prime (caracterizado pela ausência de cereais em sua composição e baixa quantidade de amido, oriundo da batata), Ancestral Grain (caracterizado pelo uso de fontes de amido alternativos como aveia, cevada e sorgo e presente em quantidades moderadas) e dois alimentos superpremium convencionais.

O primeiro deles (SPT1) apresentava em sua composição fontes de cereais convencionais como o arroz e o milho. O segundo (SPT2), milho e trigo. Alguns nutrientes das dietas podem ser visualizados na tabela 1.

Todas as dietas foram administradas na razão de 130Kcal EM/kg0,75 por dia, por um período de 30 dias, sendo 10 de adaptação e 20 de avaliação. No trigésimo dia, os cães foram pesados em jejum e uma amostra de sangue foi coletada para avaliação do perfil metabólico.

Ao longo de 24 horas, em intervalos regulares, foram efetuadas doze avaliações da concentração de glicose sanguínea. Logo após a primeira e a sexta coleta de sangue, os cães tiveram acesso aos alimentos durante 30 minutos na razão de 65 kcal EM/Kg0,75 por refeição.

Todos os resultados foram submetidos à análise de variância, a fim de avaliar o efeito da dieta sobre os parâmetros sanguíneos e sobre a resposta glicêmica. Para a análise estatística dos dados foi utilizado o software Proc GLM-SAS (2000).

Durante a avaliação não houve variação significativa no peso dos animais (20,0; 19,87; 20,03; 20,02; respectivamente alimentados com as dietas SPT1, Prime, Ancestral Grain e SPT2). Não houve alteração dos parâmetros sanguíneos relativos ao perfil metabólico. Contudo, o tipo de dieta promoveu diferenças estatísticas significativa nos indicadores relacionados ao metabolismo da glicose, conforme tabela 2.

Resultados e Discussões

É possível concluir que o uso de dietas com mais proteína e significativa redução de amido e/ou dietas com utilização de fontes de cereais alternativos como aveia, cevada e sorgo, em quantidades moderadas, promove a modulação da resposta glicêmica pósprandial.

Consequentemente, afeta o metabolismo da glicose, como mostrado pelas significativas diferenças nos resultados dos níveis de frutosamina. Apesar de apresentarem efeitos similares, a dieta Prime, quando comparada à dieta Ancestral Grain, apresenta mecanismo de ação diferente. A glicemia mais baixa, observada no alimento livre de cereais, ocorreu devido a maior proporção proteína/amido presente em sua composição nutricional, o que promoveu maior síntese de glicose a partir das proteínas (gliconeogênese).

Essa resposta metabólica foi responsável por um fornecimento mais lento de glicose à corrente sanguínea. Sabe-se que a gliconeogênese hepática, demanda para cada produção de molécula de glicose, uma molécula de água e uma de ATP. Essa é uma das razões de dietas ricas em proteínas serem particularmente indicadas para a prevenção de ganho de peso, tanto em medicina humana como em medicina veterinária.

A dieta Ancestral Grain também apresentou uma maior proporção proteína/amido em relação as duas dietas superpremium, o que contribuiu para uma menor resposta glicêmica pós-prandial em 24 horas e menor concentração sérica de frutosamina. Além disso, outro mecanismo de ação verificado no alimento Ancestral Grain, está relacionado aos tipos de cereais presente na composição da dieta.

O sorgo apresenta uma maior resistência a digestão, provavelmente, devido a um composto fenólico chamado tanino, o qual retarda o processo de digestão do amido, tornando sua absorção mais lenta e gradual, já a cevada e a aveia são fontes ricas de fibras solúveis e betaglucanos, que formam uma massa gelatinosa no estômago, que retarda o tempo de trânsito intestinal e consequentemente diminui a absorção da glicose.

Por meio da avaliação desses resultados é possível destacar que o uso de dietas livre de cereais ou que contenham cereais alternativos e em quantidades moderadas, interferem no controle da glicemia pósprandial do cão, desfavorecendo a possibilidade de um balanço energético positivo. Ao mesmo tempo, a redução de picos de glicose pós-prandial propicia menor estresse das células beta pancreáticas secretoras de insulina, limitando o risco de diabetes tipo 1 em cães.